domingo, 14 de abril de 2019

Comida

Eu cozinho para que a saudade não me devore.
Hoje eu comi bastante arroz.
 E percebi a saudade que me comia por dentro. A única forma de não ser deglutida era deglutir o arroz, o sabor do que posso ter em mim para que o desejo  impossível não me consuma. Eu não posso me perder em meio à tentação de uma necessidade vital impotente. Viagens no tempo ainda não existem, só mesmo dentro de um certo aparelho mental feito para amar e lembrar é que acontecem. Onde tempo e espaço se fundem, apenas buracos negros a tudo sugam.
Angústia.
O buraco negro como retorno ao fim.
Não há espaço para filosofia hoje.
Só há os gatos e aquela ternura que deles emana e também a alegria dessa trivialidade felina.
Poucas palavras e menos angústia em meu peito.
Para muito afeto, para muito tudo.
Para a saudade sem coração, feita fusionada e separada por obrigação do sangue, para virar memória embotada.  Já a saudade feliz permanece junto ao coração não por domesticação, mas por fina elaboração de um tempo onde  a memória em si não viu a necessidade de separação, pois anda de mãos dadas à própria história.
Assim dito, posso através dos sabores em mim, viajar ao tempo de outrora onde eu era infeliz e feliz à minha maneira, aprisionada à esperança da alegria, prisão essa que me abriga até agora. Um aprisionamento consentido para dar as mãos àquela menina também de outrora, que sabia saber  da saudade que o destino lhe reservava e que somente a alegria engarrafada, feita da promessa do único sentido capaz de guiar a existência, lhe era capaz de prover o ânimo mais necessário que arraigado, impositivo e zombeteiro para que nem tudo fosse apenas feliz ou apenas sério, a centelha de dúvida como ingrediente principal do sabor de memória a ser servido aos domingos, quando da redenção da semana que se inicia e do término absoluta daquela que se foi.
A saudade é um prato antigo do qual nos servimos nas horas vagas diante de um gesto de amor de qualquer fonte que nos pegue de surpresa.