terça-feira, 27 de outubro de 2015

Somos todas as mulheres

Minhas mãozinhas escorrem pelos meus cabelinhos algumas lágrimas de sono. Então eu encontro um rosto quente e depois de um tempo percebo que ele não é meu, e que os meus cabelinhos eram os cabelos da minha mãe que se misturavam aos meus. Eu sinto o seu corpo como um prolongamento de mim mesma e eu me angustio quando ela não está por perto. Meu corpinho pensa que o seu colo é parte do meu contentamento e eu me descubro em frio e em medo ao me descolar daquelas mãos que me embalam e me guiam no escuro daquele espaço que não sei nomear. É aos poucos, mas bem aos poucos mesmo, que eu percebo os meus pezinhos como seres independentes e sonho que os vejo quando estou acordada brincando com o arcabouço de pensamentos que invadem minhas preocupações no bercinho. Já ameaço chorar e então choro mesmo, porque as mãos que começo a reconhecer não serem minhas, ainda não estão de volta com aqueles olhos muito abertos e que parece espelhar a minha dor. Minha dor não é de fome, frio, sede. Minha dor só grita por companhia pois minha pequeneza apenas traduz parte muito pequena de mim.
Eu não sou assim mesmo, eu ainda não faço ideia do que eu sou, de quem eu sou. Eu sinto. Sentir é ser. E eu sinto o calor, o cheiro, o abraço forte, e então sinto que estar aqui é sinônimo de calor, de cheiro, de mãos, de olhar de mulher, de brilho de olhar de mulher, porque eu conto um início de vida feliz. Feliz e doloroso e inseguro e inédito e absolutamente incompreensível. Tudo me espanta. Tudo me arrepia, e somente o calor, o cheiro, o colo e o brilho dos olhos femininos são capazes de me assegurar de que está tudo bem até agora.
Eu sinto a angústia e o conforto. Mas ainda não conheço a alegria.
Porque a alegria vem do encontro, primeiro do lado de fora que ainda sinto ser dentro, e só depois e simultaneamente se configura e bem aos poucos vai indo e vindo, até eu conseguir entender o que é, o que eu sou.  Mas antes eu preciso do cuidado de minha mãe, cujas mãos demorei a descobrir que a mim não pertenciam, que a mim nada deviam, que eu brotei dela e a história dela veio antes de mim. Ai já começa a assimetria e eu posso reconhecer a impossível igualdade e antever o sonho da
igualdade que no horizonte não irá incluir meus desejos a menos que eu os inclua.

Mas até chegar lá será preciso realizar a travessia da fantasia à realidade, conjugar verbos imperfeitos e descobrir meu lugar no mundo como sinônimo de liberdade. E de dentro para fora primeiro.
Lá no meu desejo de alimentar os sentimentos e os sentidos de minha fome nasce o desejo do encontro que nasce da equívoca e responsável vinculação entre pessoa e criança, entre o afeto e o sem nome, entre aquilo que eu sou porque ela vem a mim para cuidar de sua consequencia desejável e desejante de um reasseguramento por ora infinito para que um dia, e que não seja muito longe esse dia, eu possa viver o desenlace possível e necessário à minha tão sonhada autonomia que me libera e liberta para sonhar os meus próprios sonhos.
Será imenso o caminho. Será intenso o percurso. Serão intensas minhas paixões e minhas relações como os muitos outros nascidos do toque, do olhar e do primeiro engano ao confundir meus cabelinhos com os cabelinhos de minha mãe, ao confundir minhas sensações com as dela, ao sentir meus pensamentos como os pensamentos dela, ao espanto ao decobrir esse não-pertencimento e essa
vinculação a perder de vista em meu pranto inquebrável, em meu desejo absoluto dela, em minhas
percepções encantadas e por isso entorpecidas de primeiro amor e paixão por ela.
Salvo outros casos, o primeiro amor vem da mãe, da confusão entre ser e não ser, da rede contínua e alternada de afetação, de sensação, de profunda inquietude vinda lá do fundo do desejo do amor infinito e irresponsavelmente eterno, da dor de não ser só isso para sempre, do fôlego dessa paixão avassaladora e invasora e invadida e que não deverá cindir, porque será a perdição.
Desse primitivo vir a ser e dessa experiência contraditória e imemoriável, vem os desejos mais intensos e seus segredos. Vem o desejo de independência e o ódio da dependência absoluta, fruto do gerar e gerado. Daí vem os ódios possíveis ao feminino poderoso, dono da vida e das primeiras buscas. Dono da irreflexão, do sentir profundo e dos maiores segredos.
O feminino é o senhor e a senhora do afeto no mundo. Não existe nada mais poderoso e nunca haverá. Não existe força tamanha à altura.
O feminino veio ao mundo antes da mulher e do homem.
Ele é o princípio do afeto no mundo e ele é quem conta a história dos homens no mundo.
O feminino é o idioma divino, é o ôde à criação, é a língua que falamos, é onde começa a revolução.



quarta-feira, 14 de outubro de 2015

A roupa nova da tirania

Ele amava e sofria por eles.
Ele era bom e inteligente.
Ele acreditou no inimigo, e com isso, olhava mais o outro que os seus.
Defendeu tanto a si e aos seus, que não percebeu que a sua fidelidade era alimento de predadores internos, e a sua fantasia realimentada por eles.
Quando percebeu, era tiranizado por nobres propósitos e desagregado por nobres sentimentos.
A sua libertação não ocorrera como supunha, era cada vez mais acorrentado às suas inquebráveis certezas.
Mas tudo ocorreu porque fora capturado por sua inteligência aprisionada pela desconfiança mãe do dogma e prima da religião.
Era irônico, porque ele que se dizia ateu, roeu até a serpente suas crenças. E propagou o medo e a esperança não-criativa, a filha do autoritarismo vestido de pai de todos e que já há muitos anos vem sangrando a terra através da batalha entre a certeza e a dúvida, que transforma a diferença em violência e guerra.
Assim, do amor a uma causa justa construiu-se o muro da verdade estratégica, aquela que serve, e jamais liberta.
Porque a sentimento de injustiça, lembremos, também nasce da experiência da violência, e quando vislumbra a resistência ao cotidiano e engana seus próprios propósitos, repete, às vezes de forma velha, às vezes de jeito novo, erros do passado.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Nova teoria da relatividade

Meu país está muito doente. Na verdade muitos países do mundo inteiro estão doentes.
Pensemos nas grandes economias, Estados Unidos, super louco. Ex-locomotiva do mundo e ainda comandante, mantém a venda irrestrita de armas a despeito de suas várias chacinas em escolas, universidades, empresas e igrejas. Em nome se um passado, não manda às cucuias um direito que muito mais tornou-se um revés do que qualquer coisa. Apesar de todas as evidências, mantém essa insanidade.
Vamos agora dar uma olhada na França, país onde todos falam francês...o que é muito chique..., país berço dos ideias de liberdade e igualdade, além da fraternidade, mostrando-se com poucas condições de hastear a bandeira da revolução aos diferentes. Vive um ódio em escombros, em deboche coletivo à francesa, uma ameaça real e permanente cada vez mais nascida lá mesmo depois de suas guerras em que subestimou e humilhou os povos conquistados. Bebe do próprio veneno, mas não perde a pose.
Em meio a esses pólos temos a Alemanha que após o vexame na segunda guerra mundial, decidiu tentar equilibrar-se em valores mais humanitários e contando com seu incrível potencial humano, tornou-se a maior economia da Europa. A Alemanha é sempre uma incógnita.
E tem a China, comunista, tem pena de morte, mas é bem quista por todas as economias capitalistas que adoram odiar Cuba. Parece que anda louca para mostrar seu poderio militar.
A Russia tem o Vladmir Putin, não precisa falar muita coisa. Basta lembrar que o Putin arma o Assad na Síria em mais essa guerra monstruosa. O mundo assiste a tudo sem dizer muita coisa. Segue com suas guerras.
Aqui em casa, no Brasil,a loucura também é plena. Ninguém mais sabe o que é verdade ou o que é mentira. Só sabe a verdade quem não tem dúvida alguma. Muito perigoso, pois o fascismo e suas práticas sempre vieram das certezas.
Aqui no Brasil o coelhinho da páscoa voltou e o papai Noel existe.
Tudo o que acontece é porque há uma elite malvada disposta a destruir um projeto popular.
Ai, que cansaço!...
Ai, que cansaço!

sábado, 3 de outubro de 2015

Está faltando o masculino

Muito se fala. Fala-se muito a respeito de muita coisa.
Mas falta o homem e o masculino no sentido da palavra, do significado, da ação.
Fala-se em falta de limites, em falta de palavra, em falta de legalidade.
Mas o feminino fez e faz seu trabalho de viver, e traz luz à vida, lança amor , ilumina a palavra, segue atento e luta, resultado de uma opressão histórica. Isso a gente já sabe.
Mas está faltando homem não no sentido fálico de ser, pois homem não é apenas um falo e se assim falo, é porque calar não tem mais vez.
Mas está faltando homem para dizer à bancada da bala que ser homem não é empunhar uma arma, e aquele que a desejar tomar, que venha a ser homem. Homem que é homem sabe que só pode segurar uma arma quem sabe usá-la. Homem que é homem não sai por ai defendendo interesse de empresas de armas.
Está faltando homem para dizer à bancada homofóbica que homem que é homem não faz legislação para separar as pessoas, e muito menos se incomoda com quem gosta de homem, seja homem ou mulher, porque homem que é homem gosta de ver quem se gosta junto e feliz. E não luta contra homem nenhum por motivo sexual.
Está faltando homem para honrar suas palavras. Para morrer por sua dignidade, para se indignar perante a vergonhosa injustiça contra os mais pobres e os do meio também.
Está faltando homem para dizer que vale a pena lutar.
O Brasil precisa entender Disparada de Geraldo Vandré. Aquela é uma canção de homem.
A mulher pode conter homem. E homem também contém mulher.
Eu desejo muito que nossos governantes, sejam do legislativo, executivo ou judiciário, sejam mais homens, sejam esses homens,  ou mulheres.