Falar do nome de um filho significa falar um pouco da história de seus pais.
Eu fui por muito tempo Fernanda. Ou melhor, até o meu registro acontecer, o que significou para meu pai um momento de poder e escolha, pois os pais são aqueles que registram os filhos em nosso país, cabendo a eles decisões finais.
Por essa razão (possivelmente herdada de nossa história patriarcal), fui registrada Fabíola e não Fernanda, dado que meu pai preferiu satisfazer o desejo de sua própria mãe, e não o da minha.
Minha mãe queria Fernanda, minha avó paterna, Fabíola. Venceu o patriarcado.
Nasci Fernanda e cresci Fabíola.
Mas um dia ganhei um passarinho, um canário belga, e dei a ele o nome de Fernando. Virou o Fernandinho.
Amei o Fernandinho uma vida inteira, e um dia ele se foi. Não sem antes ter colocado um ovinho e ter-se revelado Fernanda, depois de muitos anos Fernando. Para mim, ele foi muito mais Fernando do que Fernanda. Aliás, ele foi todo Fernando... Lembro-me de seu canto maravilhoso e de minha pouca interrogação a respeito da privação de liberdade que aquela criaturinha que eu tanto amava vivia em seu cotidiano. Acho que não era momento para tais perguntas. O que eu queria mesmo e precisava era amar o Fernandinho.
Muitos anos depois, já em minha segunda gravidez, ocorreu-me o nome Fernando para o bebê que eu havia acabado de conhecer o sexo. Sem que eu fizesse qualquer ligação com a história aqui contada, o nome ressurgiu e um dia eu me lembrei a razão.
Ser mãe significa muitas coisas, e uma delas diz daquilo que restitui nosso próprio feminino.
Homenageei a escolha de minha mãe.
Meu pai já havia sido, através de meu próprio nome.
Dedico a eles, meu pai e minha mãe, o meu amor, nestas lembranças.
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segunda-feira, 29 de outubro de 2012
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
20 quilos de queijo coalho
Seu pai vivia no Ceará em uma cidade do interior. Tinha pouco mais de 200 cabeças de gado.
O ano de 2012 tem sido difícil. Pouca chuva.
Mas o pai conseguia produzir 20 quilos de queijo coalho por dia. Para cada quilo são necessários cerca de 14 litros de leite.
Não chove muito e o pai já tem 70 anos de vida. Em 1983 o pai havia mantido a família apesar de uma das piores secas já vistas.
Cabra macho esse pai.
Quanto amor e orgulho ele disse do pai sem falar nada disso.
O nordestino faz isso. Fala do que sente sem dizer uma palavra sobre o assunto.
O ano de 2012 tem sido difícil. Pouca chuva.
Mas o pai conseguia produzir 20 quilos de queijo coalho por dia. Para cada quilo são necessários cerca de 14 litros de leite.
Não chove muito e o pai já tem 70 anos de vida. Em 1983 o pai havia mantido a família apesar de uma das piores secas já vistas.
Cabra macho esse pai.
Quanto amor e orgulho ele disse do pai sem falar nada disso.
O nordestino faz isso. Fala do que sente sem dizer uma palavra sobre o assunto.
A menina da boneca na caixa
Ela ganhou um dia enfim, uma boneca da mãe perversa.
Mas com uma condição: que não tirasse a boneca da caixa.
Ela brincava dia após dia com a boneca, dentro da caixa .Via seus pés amarradinhos com o arame de boneca e brinquedo em caixa.
Suas amiguinhas perguntavam por que a boneca ficava dentro da caixa, mas ela não podia responder que sua mãe a proibira de abri-la. Ela apenas sabia que prazeres não eram para ela.
Um dia, algum tempo depois mas não muito, ela teve medo de que algo acontecesse à boneca (e com isso consigo mesma). Resolveu guardar a boneca na caixa no guarda-roupa definitivamente..
Alguns anos depois, já adulta e já mulher, localizou a boneca na caixa e a pegou (na caixa, sempre). Haviam desaparecido a íris e a pupila.
A boneca havia ficado cega.
Cega como havia sido sua mãe, que não a viu e não a reconheceu como menina cheia de vida que era.
Não puderam brincar juntas. Ambas perderam.
Mas a menina perdeu a infância.
Mas com uma condição: que não tirasse a boneca da caixa.
Ela brincava dia após dia com a boneca, dentro da caixa .Via seus pés amarradinhos com o arame de boneca e brinquedo em caixa.
Suas amiguinhas perguntavam por que a boneca ficava dentro da caixa, mas ela não podia responder que sua mãe a proibira de abri-la. Ela apenas sabia que prazeres não eram para ela.
Um dia, algum tempo depois mas não muito, ela teve medo de que algo acontecesse à boneca (e com isso consigo mesma). Resolveu guardar a boneca na caixa no guarda-roupa definitivamente..
Alguns anos depois, já adulta e já mulher, localizou a boneca na caixa e a pegou (na caixa, sempre). Haviam desaparecido a íris e a pupila.
A boneca havia ficado cega.
Cega como havia sido sua mãe, que não a viu e não a reconheceu como menina cheia de vida que era.
Não puderam brincar juntas. Ambas perderam.
Mas a menina perdeu a infância.
quinta-feira, 22 de março de 2012
O homem sem virtudes
Ele acordou ainda mais cedo que de costume, pois o peso da barriga que carregava não deixou alternativa. Não é possível dormir bem levando um peso constuído pelo prazer de uma máquina de pensamentos altamente punitiva. E era preciso se habituar com o presente que muda os corpos e tranforma o metabolismo da juventude em um eliminar lento, lento, lento.
Quando abriu os olhos não acreditou que ainda fosse noite e tenha acordado tão cedo assim sem razão. Foi acordado pela culpa. A barriga e os erros do cotidiano não o deixam dormir mais, pois dormir mais seriaum a mais que ele não poderia ter.
Nada como uma boa dose de arrependimento por existir para interromper qualquer alegria.
Não sou bom. Não sou bom. Não sou bom.
Quando abriu os olhos não acreditou que ainda fosse noite e tenha acordado tão cedo assim sem razão. Foi acordado pela culpa. A barriga e os erros do cotidiano não o deixam dormir mais, pois dormir mais seriaum a mais que ele não poderia ter.
Nada como uma boa dose de arrependimento por existir para interromper qualquer alegria.
Não sou bom. Não sou bom. Não sou bom.
domingo, 26 de fevereiro de 2012
Tempo tempo tempo
A cada dia uma ruga novinha em folha.
Gramas a mais sem qualquer senão.
Tempo que passa sem permissão. Tempo que regogiza a morte e que sorri com sua passagem irremediável e inegociável.
Cheio de poder, o tempo avança.
Mostra-nos apenas aquilo que avistamos e dentro de nós já está.
Eu queria ir contra o tempo para avistar o infinito poder da vida sobre a morte.
Mas a morte, essa incrédula realidade, nunca aceitou negociar com a vida a superação da inexorabilidade. No máximo aceitou alguns meses, anos ou dias a mais. E nada além.
Será a morte vitoriosa?
Mas como, se a cada morte há mais vidas que chegam?
Gramas a mais sem qualquer senão.
Tempo que passa sem permissão. Tempo que regogiza a morte e que sorri com sua passagem irremediável e inegociável.
Cheio de poder, o tempo avança.
Mostra-nos apenas aquilo que avistamos e dentro de nós já está.
Eu queria ir contra o tempo para avistar o infinito poder da vida sobre a morte.
Mas a morte, essa incrédula realidade, nunca aceitou negociar com a vida a superação da inexorabilidade. No máximo aceitou alguns meses, anos ou dias a mais. E nada além.
Será a morte vitoriosa?
Mas como, se a cada morte há mais vidas que chegam?
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