Eu gostaria de entender melhor o nível emocional das pessoas e o objetivo de alguns jornais como a BBC Brasil publicarem uma matéria no site congratulando uma jovem de 25 anos por ter realizado o desejo de uma laqueadura tubária sem nunca ter tido filhos. Gostaria de entender a celebração de um método de esterilização de uma jovem mulher que é claro, tem todo o direito de decidir se quer ter filhos ou não e que ninguém, evidentemente, tem qualquer coisa a ver com isso.
No entanto, a celebração de uma decisão irreversível em seu jovem corpo, decisão essa regida na base de sua intimidade, ser compartilhada publicamente como uma conquista, me espantou.
Como médica, qualquer intervenção definitiva em alguém me causa sobressalto. Observo com ressalva a avidez em resolver problemas que não existem ou que irão impactar profundamente um jovem.
Os desejos são mutantes. Eles não são permanentes. O desejo de ter filhos ou não também se modifica. Mas não estou pensando que ela pode se arrepender de sua decisão. Penso na notícia e no papel de uma mídia que parece ignorar a responsabilidade para com aquilo que ajuda a divulgar como libertário ou genuinamente progressista. Pareceu-me uma propaganda e não uma matéria com o intuito de informar. Sabe por que? Porque desinforma. Porque glamouriza uma decisão bastante polêmica, confundindo um método de esterilização com anticoncepção. Essa foi minha impressão.
Podemos e devemos ter controle sobre nossos próprios corpos sem abdicar de uma função reprodutiva essencialmente humana e feminina, como a possibilidade de ser mãe em um futuro que poderá ser muito distinto do presente, ao ponto de transformar uma certeza aos 25 anos em uma dúvida aos 30.
Espantar-me com a notícia significa que o desejo de ser mãe também é mutante, e negar a uma mulher a dúvida sobre seu próprio desejo de maternidade aos 25 anos não é desrespeitar o direito de controlar sua saúde reprodutiva, mas questionar de fato se a celebração de algo dessa ordem não é ao contrário, desproteger a mulher de seu legítimo desejo de um dia vir a ser mãe.
segunda-feira, 18 de novembro de 2019
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