Os arranha-céus, se antes balançavam a alma em silêncio de admiração e um milésimo de uma quase soluço de estupefação, hoje embalam uma interrogativa que se assombra ao vislmubre de um tamanho desnecessário. Sua imponência escreve e revela a concretude de algo talvez imaginário, ou ao menos que se originou dele, de um coração crente da grandeza das coisas e dessa certa beleza contida nelas. Um deslumbre inicial que perpetuou o sonho equivocado de ser grande demais, de ser too much demais, de ter demais.
Sua Macy's antes grandiosa por tão imensa e por esse algo grandioso em mim de que NY continha parte do mundo, obstrui em seus corredores amplos e em seus pequenos currais dentro deles, o meu olhar em direção ao que mais provavelmente hoje eu queira, poder ver ao longe, e de perto, coisas que mais se assemelhem à natureza. Mas isso é meu, como um dia o foi o encanto diante de um templo de consumo prolífico de coisas transformadas em sonhos. Suas vendedoras e vendedores ágeis e interessados em conduzir seus objetivos de vendas, mais me espantam no sentido pleno da palavra do que me atraem por um motivo qualquer. Suas quase-infinitas ofertas, me afastam de um desejo real por qualquer coisa que ali esteja. Suas bolsas Michael Kors, Louis Viton, Chanel, guardam nelas mesmas essas ambiguidades próprias das coisas transformadas em um algo-quê ao ponto de praticamente não me dizerem nada.
Nova Iorque, seus vendedores profissionais com seus sorrisos planejados, seus " hmave a good day", sua indisfarçável indiferença junto à rapidez de seus gestos, ao seu inglês rápido e indiferente ao fato de estar diante de pessoas que não são fluentes na língua, nesse inglês esmagador da letra r, caracteristicamente americano, soam falsos demais. E não me vendem nada de que eu não precise.
Seus carros de polícia constantes nas ruas, seus avisos :" if you see something, say something", espalhados pela cidade, sua obsessão por segurança (não que não tenham motivos pra isso, digo, cuidado sério com segurança, não uma obsessão), sua proibição (em todo o EUA), de ingerir bebidas
alcoólicas nas ruas, transforma em parte esse caminhar despreocupado pelas ruas da cidade, em uma experiência ansiosa. Seus cidadãos ocupam bilateralmente os ouvidos com seus fones, e pedir informação ficou um pouco mais difícil.
Seu clima frio e seus ventos cortantes cortam o meu coração e minha alma.
Sinto o desamparo bater forte diante desse clima e da imensidão de seus prédios gigantescos, de sua gente indiferente, de seu claro desinteresse em estar com as pessoas em você.
A Times Square chega a ser uma experiência à parte, embora ela seja o cartão-postal de NY.
Ela é exatamente o vão maior, a concentração de abismos luminosos mais artificial e possivelmente mais interessante do mundo. Suas luzes prometem uma diversão inalcançável, como a própria luz. Sua quantidade de atrações promove uma incapacidade de completude, uma verdadeira impossibilidade de concluir qualquer coisa. Você não verá todos os espetáculos, porque tudo o que ali é oferecido, é impossível de vivenciar. É bem simples o fato de termos limite para o que queremos pagar, o que queremos ouvir, o que queremos assistir. Mas a Times Square diz a você que ali está o infinito em possibilidades de entretenimento.
Suas chinesas não contam como é pagar com a própria vida e com seu inalcançável pesadelo de liberdade o que é trabalhar por um salário de semi-escravidão para lhe dar uma quinquilharia de que não precisa.
Seus Best Buys não falam a verdade sobre o preço que você paga. Suas Macys não escondem seus pecados.
Sabe, eu hoje sou uma mulher não-pobre. Mas eu fui uma menina pobre. Eu sonhava com Nova Iorque, eu lia Harold Robbins e Sidney Sheldon, eu assistia aos enlatados de domingo e seus seriados norte-americanos, Dallas (adorava). A "cultura" norte-americana ficou impregnada em mim desde muit cedo, com seus cafés com creme, com suas casas de Natal e suas neves, com tudo o que me foi
dito e afinal sentido como algo especial, superior. E se eu senti como especial e superior também me
responsabilizo afetivamente por isso. Mas pera lá, será que parte daquilo que senti durante uma vida vida inteira e que permaneceu em meu imaginário em um lugar de incrível idealização não apresenta
um forte viés cultural? Ou seria anti-cultural. Como foi em mim construído um desejo de
identificação que hoje reconheço como algo absolutamente estranho a mim e aos meus valores culturais?
Se antes o pragmatismo estadunidense me soava e parecia meritório, hole ele toma um sentido de caricatura. Se antes eu achava o inglês um idioma bonito, hoje o inglês americano me soa como um esmagar de erres infinito. E aqui não incluo o inglês britânico, muito mais bonito.
Se antes seus arranha-céus e seus supérfulos alimentares me pareciam interessantes e atraentes, hoje me agridem com sua opulência e todo o mal que causa à saúde das pessoas.
Eu precisei crescer para não mais me seduzir.
Eu amo o sol e meus conterrâneos, com todos os problemas que temos.
Eu amo o samba e o carnaval.
Eu amo ser brasileira e sul-americana.
Eu amo ter nascido no subúrbio e ter conhecido desde muito cedo relações verdadeiras e desinteressadas.
NY não possui vínculos em mim.
NY é a própria solidão em forma de abundância, ilusão e cidade.
terça-feira, 22 de novembro de 2016
sábado, 5 de novembro de 2016
Para dormir anteontem pois o futuro só em 2037
E eu durmo com os gatos e sonho com as mães.
As mães mais belas da existência, as mães cheias de amor. Último refúgio de esperança a fim de nào banalizar tambèm esse cotidiano arrebentado oelo sentimento de injustiça que paira no mundo ao invés de trafegar como sempre, sem sua institucionalização.
Se o governo do PT instituiu a corrupção, o governo Temer institucionalizou a indiferença social.
E a gente tem que dormir num barulho cego e em uma visão surda dessas.
A institucionalização da corrupção não poderia jamais servir de pretexto para essa nova era oficial de indiferença e injustiças coletivas.
Mas salve a economia.
A escolha é salvar o Titanic e não as pessoas dentro dele.
As mães mais belas da existência, as mães cheias de amor. Último refúgio de esperança a fim de nào banalizar tambèm esse cotidiano arrebentado oelo sentimento de injustiça que paira no mundo ao invés de trafegar como sempre, sem sua institucionalização.
Se o governo do PT instituiu a corrupção, o governo Temer institucionalizou a indiferença social.
E a gente tem que dormir num barulho cego e em uma visão surda dessas.
A institucionalização da corrupção não poderia jamais servir de pretexto para essa nova era oficial de indiferença e injustiças coletivas.
Mas salve a economia.
A escolha é salvar o Titanic e não as pessoas dentro dele.
Nova era do terror?
Sei que já passamos momentos terríveis antes. Sei que há momentos realmente difíceis na vida de todos nós.
É por isso que eu nao quero acreditar que estamos vievendo em uma falsa democracia e que uma ditadura exonômica inédita tomu conta do nosso país.
Mas eu tenho minhas desconfianças. E lamento que única ideologia que pode ser reconhecida é a chamada de esquerda.
Há enorme tentativa de subtrair a importânci dessa polaridade. Ficou ultra moderno dizer que esquerda e sireita são conceitos ultrapassados. Eu só sei que Freud diria que quando algo necessita reiteradamente de sua reafirmação em contrário, deve ser porque é isso mesmo.
Um outro exemplo vem do uso da palavra golpe. Essa palavra tem tido a maior resistência de negação entre todas as outras de que se tem notícia, ao menos para mim. " Não, não é golpe". Dizem uns. " Golpe!", exclamam outros.
Ainda nào existe nenhuma palavra entre golpe e impeachment, que seria, na minha modesta opinião, o lugar da palavra do que realmente aconteceu nesse país. Houve a necessidade de um afastamento. E infelizmente nossa presidente Dilma Roussef não renunciou. Teria sido melhor, muito menos traumático, mais digno. No entanto, a palavra dignidade perdeu todo o sentido no Brasil em todos os meios de que se tem notícia. E principalmente, é claro, no meio político. Dilma devia te renunciado. Ela era inepta, incompetente, não-conciliadora e a situação econômica brasileira indo ladeira abaixo. Quase ninguém tem dúvidas sobre isso. A não ser os de sempre. Teria sido digna a renúncia. Mas uma outra palavra também desapareceu do sentido brasileiro: reconhecimento. Dilma deveria ter tido a dignidade de reconhecer que seu governo tornou- se insustentável. Mas isso não aconteceu, e todas as figuras à sua volta entendiam o que ela e o PT não compreenderam nunca: estavam falidos como governo, falidos moralmemte. Restaria o último ato de dignidade, a renúncia. Mas não havia dignidade para um último momento que talvez preservasse alguma decência. Mas a palavra dccência também desapareceu do vocabulário do brasileiro. Como a dignidade, o reconhecimento e a decência se tornaram palavras em extinção, restaram o oportunismo, a manipulaçào da verdade e a flexibilização das ideias que culminaria em um verdadeiro comunismo de flexibilização das regras democráticas, ficando estas ao sabor da vez e da hora da necessidade de restabelecimento de uma ordem econômica mínima para recomeçar o país. Em nome disso, esse Brasil tem reineventado suas velhas fórmulas econômicas.
Agora o tempo é de austeridade e de flexibilização dos conceitos de tolerância. Daí a necessidade de produzir na sociedade o sentimento antagonista das ocupaçòes estudantis. A verdade do mundo brasileiro hoje é a da substituição da sensibilidade pela palavra necessidade. As sensibilidades passaram a ser dispensadas em prol das necessidades exonômicas decorrentes da herança deixada pelo PT. Nossa democracia continua ótima, contanto que você não discorde dos rumos adotados pelo hoverno que para muitos è sim, usurpador. Vemcá, mesmo que a gente nào concirde, nào é imperativo em uma democracia respeitar o direito dessas pessoas de pensar diferente? Por que se isso nào for verdadeiro, a única verdade restante possível é a de que a democracia jaz falecida.
Se nesse país não há lugar para moderação, e a selvageria do vazio de vocabulário é a lei que permite reinterpretar a constituição à luz das necessidades econômicas em detrimentos das sensibilidades e necessidades de sobrevivência humanas, tais como os aluguéis sociais, de que país afinal estamos falando? O que nós estamos fazendo uns com os outros?
Não podemos ser uma naçào mais comprometida com o pagamento de dívidas de juros artificiais do que com a fome de milhòes de pessoas, a educação de milhões de pessoas. Mas se a minha conversa é ultrapassada, e a fome se justifica para enriquecer mais ainda os bolsos de uns poucos que nada precisam, deve ser porque de rta forma atingimos uma nova torma de solução final. Nào há câmaras de gás, não há campos de concentração. Mas não há disponibilidade em quem deveria cuidar das pessoas em olhar para elas. Elas oficialmente passaram a não importar mesmo.
A câmara de gás brasileira possui outros contornos e nuances e os campos de concentraçào com a enorme frequência de mortes de inocentes e também de criminosos estão há muito tempo presentes em nossos centros urbanos desinteressados de suas dores.
Não sou comunista. Detestava o governo de Dilma. Abomino o Lula.
E parece que precisei afirmar essa última frase para não ser confundida com uma petista...que horror.
Parecre que alem da diginidade, da decência, do reconhecimento, a palavra moderaçao também saiu do vocabulário.
É por isso que eu nao quero acreditar que estamos vievendo em uma falsa democracia e que uma ditadura exonômica inédita tomu conta do nosso país.
Mas eu tenho minhas desconfianças. E lamento que única ideologia que pode ser reconhecida é a chamada de esquerda.
Há enorme tentativa de subtrair a importânci dessa polaridade. Ficou ultra moderno dizer que esquerda e sireita são conceitos ultrapassados. Eu só sei que Freud diria que quando algo necessita reiteradamente de sua reafirmação em contrário, deve ser porque é isso mesmo.
Um outro exemplo vem do uso da palavra golpe. Essa palavra tem tido a maior resistência de negação entre todas as outras de que se tem notícia, ao menos para mim. " Não, não é golpe". Dizem uns. " Golpe!", exclamam outros.
Ainda nào existe nenhuma palavra entre golpe e impeachment, que seria, na minha modesta opinião, o lugar da palavra do que realmente aconteceu nesse país. Houve a necessidade de um afastamento. E infelizmente nossa presidente Dilma Roussef não renunciou. Teria sido melhor, muito menos traumático, mais digno. No entanto, a palavra dignidade perdeu todo o sentido no Brasil em todos os meios de que se tem notícia. E principalmente, é claro, no meio político. Dilma devia te renunciado. Ela era inepta, incompetente, não-conciliadora e a situação econômica brasileira indo ladeira abaixo. Quase ninguém tem dúvidas sobre isso. A não ser os de sempre. Teria sido digna a renúncia. Mas uma outra palavra também desapareceu do sentido brasileiro: reconhecimento. Dilma deveria ter tido a dignidade de reconhecer que seu governo tornou- se insustentável. Mas isso não aconteceu, e todas as figuras à sua volta entendiam o que ela e o PT não compreenderam nunca: estavam falidos como governo, falidos moralmemte. Restaria o último ato de dignidade, a renúncia. Mas não havia dignidade para um último momento que talvez preservasse alguma decência. Mas a palavra dccência também desapareceu do vocabulário do brasileiro. Como a dignidade, o reconhecimento e a decência se tornaram palavras em extinção, restaram o oportunismo, a manipulaçào da verdade e a flexibilização das ideias que culminaria em um verdadeiro comunismo de flexibilização das regras democráticas, ficando estas ao sabor da vez e da hora da necessidade de restabelecimento de uma ordem econômica mínima para recomeçar o país. Em nome disso, esse Brasil tem reineventado suas velhas fórmulas econômicas.
Agora o tempo é de austeridade e de flexibilização dos conceitos de tolerância. Daí a necessidade de produzir na sociedade o sentimento antagonista das ocupaçòes estudantis. A verdade do mundo brasileiro hoje é a da substituição da sensibilidade pela palavra necessidade. As sensibilidades passaram a ser dispensadas em prol das necessidades exonômicas decorrentes da herança deixada pelo PT. Nossa democracia continua ótima, contanto que você não discorde dos rumos adotados pelo hoverno que para muitos è sim, usurpador. Vemcá, mesmo que a gente nào concirde, nào é imperativo em uma democracia respeitar o direito dessas pessoas de pensar diferente? Por que se isso nào for verdadeiro, a única verdade restante possível é a de que a democracia jaz falecida.
Se nesse país não há lugar para moderação, e a selvageria do vazio de vocabulário é a lei que permite reinterpretar a constituição à luz das necessidades econômicas em detrimentos das sensibilidades e necessidades de sobrevivência humanas, tais como os aluguéis sociais, de que país afinal estamos falando? O que nós estamos fazendo uns com os outros?
Não podemos ser uma naçào mais comprometida com o pagamento de dívidas de juros artificiais do que com a fome de milhòes de pessoas, a educação de milhões de pessoas. Mas se a minha conversa é ultrapassada, e a fome se justifica para enriquecer mais ainda os bolsos de uns poucos que nada precisam, deve ser porque de rta forma atingimos uma nova torma de solução final. Nào há câmaras de gás, não há campos de concentração. Mas não há disponibilidade em quem deveria cuidar das pessoas em olhar para elas. Elas oficialmente passaram a não importar mesmo.
A câmara de gás brasileira possui outros contornos e nuances e os campos de concentraçào com a enorme frequência de mortes de inocentes e também de criminosos estão há muito tempo presentes em nossos centros urbanos desinteressados de suas dores.
Não sou comunista. Detestava o governo de Dilma. Abomino o Lula.
E parece que precisei afirmar essa última frase para não ser confundida com uma petista...que horror.
Parecre que alem da diginidade, da decência, do reconhecimento, a palavra moderaçao também saiu do vocabulário.
Moda atual
A moda política é pagar a conta sem ter comprado nada.
Exige-se o sacrifício por erros dos responsáveis que não somos nós.
Virou moral dizer a palavra austeridade e justifica a completa desresponsabilização de uns pelos outros.
Esvaziou-se o significado da palavra.
Aos poucos, guerras infinitas.
Ditaduras econômicas em nome da liberdade.
A única liberdade é comprar.
E se aqui é isso, sinal de morar no reino da indiferença.
Sentimento coletivo de medo em pessoas que aos poucos desaprendem a ouvir, a falar, a conversar.
O ovo da serpente eclodiu.
Exige-se o sacrifício por erros dos responsáveis que não somos nós.
Virou moral dizer a palavra austeridade e justifica a completa desresponsabilização de uns pelos outros.
Esvaziou-se o significado da palavra.
Aos poucos, guerras infinitas.
Ditaduras econômicas em nome da liberdade.
A única liberdade é comprar.
E se aqui é isso, sinal de morar no reino da indiferença.
Sentimento coletivo de medo em pessoas que aos poucos desaprendem a ouvir, a falar, a conversar.
O ovo da serpente eclodiu.
Um piano na entrada
Em uma terra onde o sublime ganha contorno de infeliz e o
óbvio mascara-se na dúvida entre o bom gosto e o duvidoso, sabem-se lá quais
razões a postos homens acreditam em um piano de cauda mais do que neles
próprios ou nas palavras que deles mesmos poderiam sair.
Curioso demais é esse mundo onde habitamos, lugar onde
também não sabemos porque estamos, nem para onde vamos depois daqui.
Logo, quando qualquer um de nós ou um daqueles que
consideramos amar, adentram um hospital...não por terem quebrado um braço ou
qualquer outra situação de aparente singeleza, mas por alguma doença ameaçadora
ou algo que o pareça, o que olhamos? O que queremos nessa hora? O que passa a
fazer parte de nós de um jeito completamente diferente de alguns dias ou
algumas horas até, atrás, quando tudo parecia caminhar na sua aparente
tranquilidade cotidiana e em nosso semblante diário de felicidade nossa de cada
dia? Sim, existe um momento, e esse momento chega pra todomundo algum dia, em
que o chão parece abrir-se e a gente sabe que não seremos os mesmos a partir
dali. Nunca mais seremos. É a hora em que parte do mundo muda e uma ruptura com o que se
acreditava antes acontece; quando nos encontramos diante de alguma ameaça real
diante de uma situação de doença. Quando essa hora chega, mais uma vez, o que
queremos?
Para a possibilidade da perda do que mais amamos, não há
superficialidade ou aparência que o convença, não há caixão que valha a pena
comprar, não há lençol de cetim que amenize, não há cadeira de design que traga
qualquer alívio. Em momentos cruciais, só há uma coisa, uma coisinha só que
parece funcionar. Por funcionar entenda-se trazer esperança: a palavra e o
olhar humano. Claro que a segurança de se saber estar entre um corpo técnico de
qualidade é fundamental, mas é impressionante como até essa característica
essencial parece desaparecer frente ao imperativo do estabelecimento de
vínculos humanos. Em momentos de dor, apenas o vínculo verdadeiro tem o poder.
Sim, a palavra é poder, porque pode amenizar o sofrimento. Na iminência da
ameaça da perda, apenas a ideia de preservação das relações humanas faz
sentido.
Mas de que vale tudo isso? Do que eu estou falando?
Eu falo de capacidade de amar. Falo de capacidade de
entrega. E se eu falo dessas capacidades, falo também de capacidade de sofrer,
de ter medo. Só sofre por amor quem ama. Óbvio? Não.
E eu escrevo o óbvio porque o lógico saiu de órbita e deve
estar no espaço. No mundo passou a vigorar apenas um tipo de obviedade: a da
relação entre custos e benefícios e o possível lucro gerado a partir daí. Falar
de vínculo e falar de amor, e ainda lembrar de que nos momentos cruciais não
importa o sofá, a renda, a seda, as especiarias.
Mas o lugar de vínculo no mundo da certeza parece reduzido a
um lugar de regra de três.
Não, eu não quero um piano de cauda na entrada de um
hospital quando chegar a minha hora ou a hora de quem amo. Eu quero receber
acolhimento, sorrisos verdadeiros de funcionários e equipes bem capacitadas a
receber seres humanos em dor. Quero gente humana, muito humana, capaz de se
reconhecer também na dor daqueles tão diferentes delas mesmas até, pode ser,
mas que se identifiquem nessa igualdade imperativa que nos torna ligados e
vinculados não importa nenhum sistema de classificação. Eu quero gente que
possa se sentir livre o bastante para me olhar com afeto de verdade sem o
constrangimento que pode até vir a ser um paradoxo se o ambiente for, digamos,
high professional. Como pudemos chegar ao ponto de acreditarmos em uma
abstinência afetiva como algo condicional a um bom atendimento de uma equipe
hospitalar multiprofissional?
E sim, é bem provável que o meu texto seja facilmente
questionado. Todo texto é. Afinal, um piano de cauda pode ser interpretado
justamente como um símbolo de humanização de um espaço cujo objetivo é o
restabelecimento de pessoas doentes. E que em nada, todo o luxo do local,
sabota a experiência de um atendimento humanizado e de qualidade, sendo
exatamente o oposto dessa ideia, a ideia!
Mas sabe por que não é bem assim?
Porque vivemos em um país pobre, em uma crise econômica
profunda, e um ponto de ônibus foi deslocado de seu local original para que a
frente do hospital pudesse sobressair e não ser, digamos, atrapalhada pelo ir e
vir daqueles que pegam ônibus. O argumento lógico? Para facilitar a entrada e a
saída dos pacientes. Mas por que a entrada desse hospital é feita de vidro que todomundo pode ver? Para ser vista. Por
que? Para ser admirada. Por que? Para criar desejo. Por que? E em quem? Quando
os tomadores de ônibus são deslocados de seu lugar, fica bem claro que aquele
hospital não se destina a esse público usuário de ônibus. Como dizer que
obviamente NÃO sem deixar de ser arrogante ou insensível? Importa falar o óbvio
pois importa lembrar que todo lugar de luxo é um lugar de exclusão e se um
hospital muda o ponto de ônibus ele reafirma seu papel de exclusividade a um público
exclusivo. Onde habita o sentimento de exclusividade durante a experiência da
dor? Restaria a alguns doentes ser exclusivo como ironia final (ou fatal) de
uma vida?
Um hospital não deveria ser um local de ostentação ou de tentativa de
ocultar seu verdadeiro objetivo e o que ali verdadeiramente existe, pessoas
doentes. Quando o local de tratamento de pessoas doentes exibe um símbolo de estatus
social em sua entrada, a mensagem é clara: nossos valores são exibicionistas e
nossa política é de sedução.
Assim caminha a medicina privada no Brasil, invertendo o
papel da medicina e subvertendo as necessidades de cuidado.
Transformando em privada os valores e aspirações com os
quais a medicina se construiu e onde ela de fato, é mais importante, como
instrumento de auxílio e cuidado à vida e à alma dos pacientes que dela
precisam.
Não em uma fábrica de
desejos que utiliza como meio a oficialização da banalidade.
O luxo é banal. A vida jamais.
E se o lugar de dor e sofrimento acolhe as esperanças usando
como preceito simbólico capitalizado como um piano de cauda humanizador, é
porque o uso da banalidade já está aprofundado no seio social e ninguém viu. Ou
fingiu que não.
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