sábado, 19 de março de 2016

O grelo de Lula

Quando eu era criança, assisti à minissérie "Lampião e Maria Bonita" na Rede Globo. Não me lembro mais de quase nada, mas sei que me apaixonei em profundidade pela história de Lampião e Maria, assim como pelo cangaço. Lembro de Maria Bonita cortando a orelha de uma outra mulher. É claro que me marcou, afinal, eu não tinha dez anos e vi uma cena bastante violenta. Eu adorava Lampião e seu bando, mas principalmente Lampião e Maria. Eles lutavam. Como assim? Eram criminosos! Naquele minha época de criança não nos apegávamos tanto quanto hoje ao bem X mal ( pro bem e pro mal!), e Lampião foi retratado romanticamente. Mas realmente não sei. Será mesmo? Houve um retrato romântico de um homem sanguinário? Talvez. Butch Cassidy e Sandance Kid também foram retratados romanticamente e também são parte de meus heróis de infância, ao qual não se comparam ao meu Lampião nordestino, soberbo no protagonismo de Chico Xavier e como Maria Bonita, a inesquecível Tania Alves.
Maria Bonita era brava. Era mulher de grelo duro.
Lampião era macho pra carái. Pica grossa?
Desculpem, minas de Sampa e brasileiras que coram quando me remeto a essa porção do corpo feminino que se possível, deveria ficar encoberta pela calcinha. Em grande  parte do Brasil muito fluxo sanguíneo vem à face quando se fala dos delicados órgãos femininos. Perdoem- me retirar o véu da pureza que lhes encanta e não cumprir o misticismo que nos foi delegado em nosso vã afã de inútil castidade e virgindade. Sim, temos grelo, peitos, útero, lábios em cima e embaixo, clitóris, vagina. Temos tudo o que um homem que gosta de mulheres curte. E ainda o que mulheres que gostam de mulheres também. Bacana isso. Cada um de nós tem uma parte do corpo para nos dar prazer.
A boca por exemplo: a boca é ótima. Ela sente. Ela dá. A boca geme. A boca absorve. A boca sorve. A boca emudece de prazer. A boca grita de prazer. A boca cala de medo. A boca fala.
Então eu não vou calar a minha.
Eu vou dizer que há muitos anos eu não ouvia nada mais engraçado e que me chamasse atenção vindo do Lula do que "grelo duro".
Lampião e seu bando não se curvaram aos coronéis de seu tempo. Não aceitaram o lugar de bons meninos de Deus que lhes foi reservado e despejaram muita dor, desamparo e injustiça que lhes foi sofrido na forma de irresignação e violência. Mas também amavam. E também foram amados.
Talvez algo de irresignável e de identificação tenha me levado a admirar Lampião e Maria. Nunca fui conservadora. Minha alma nasceu assim. Amo o non-sense e sempre adorei o ato falho. Justo nessas assimetrias é que reconheço o humano no outro e em mim.
Identidade é civilização.
Busco a graça para sorrir mais do que chorar. Busco o riso pois me agrada muito mais o humor à desgraça e a uma interpretação que tende a uma assepsia que tem por razão subtrair a alegria e a
graça da risada pela frieza crispada de uma retidão que nunca se curavá a uma paixão.
Mulheres de grelo duro são apaixonadas.
Antes apaixonada por uma causa do que aprisionada na escuridão de um desejo impossível.
O corpo é irreprimível por excelência. O resto é ilusão.



sábado, 5 de março de 2016

Dor

Quando eu choro, é pela perda de alguma verdade.
Quando choro se alguém foi embora, não foi pelo que poderia ter sido e não foi a partir de agora, foi pela morte da verdade que um dia nos uniu e que hoje não mais possui justificativa para a permanência.
Se eu choro porque ontem foi um dia histórico ao contrário, não foi porque eu ainda acreditava no que me acontece no presente, choro mais uma vez pela verdade morta e é preciso chorar pelo que representa essa morte ideológica carregada de esperança.
Não tive tempo dada a rapidez da coerção. de me preparar em ódio a fim de comemorar o desgosto de quem quer que seja. Não odeio o suficiente ninguém para festejar uma agonia.
Como se a realidade não fosse dura o bastante para nos fazer a todos, sofrer.
Meu coração está partido por tudo.
Não é pela morte do PT que eu conheci ou do Lula que eu tive como esperança. É pela verdade usurpada do direito. Pelo atropelamento sistemático de nossa constituição.
E francamente, pelo simbolismo e afeto de décadas que ligado à emoções de toda uma vida, viu em sua figura de outrora a expressão de tristeza e dor. Sou capturada nessas horas, porque meu coração não endurece jamais, e não pretende jamais fazê-lo. Se eu sofro por excesso de amor e de dor, sei que preservo em mim um frescor de infância qualquer que mantém ternura na aridez desse momento tão duro e tão pouco nobre.
Não, eu não acredito no Lula. Não, eu não gosto do Lula, hoje. Mas eu gostei, amei, acreditei.
Não tenho um sistema reset em mim pronto a reacontecer o dia e a hora de passar sentimentos por ora já inadequados.
É preciso respeitar o passado, ainda que o passado precise manter-se morto.
Então eu gostaria que respeitassem a dor das pessoas que um dia amaram esse símbolo e que precisam de tempo para cicatrizar.
Aos que sempre souberam e nunca gostaram do Lula, acho que estão melhores do que os outros. Os nós do outro lado, petralhas para tantos.
Parabéns a quem nunca se deixou enganar. Mas lembrem-se de que ninguém torceu por um país pior.
Visões diferentes de mundo não podem tornar as pessoas inimigas  Democracia é mais difícil do que se imagina , não é mesmo?
Nunca achei graça rir e tripudiar de quem chora.
Que chorem, que riam, mas que amem.
E que comemorem o amor à justiça e o desejo de um país melhor, e não o fim de um sonho que já conheciam irreal e fadado ao fracasso.
 Não se festeja a morte do sonho de ninguém, a  não ser é claro que esse sonho exclua as diferenças e a liberdade de um povo, o que convenhamos, não representa a realidade, ainda.