segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Reduzido, invisível, explosivo

Quando o ser humano é reduzido a nada, e por anos a fio, seus laços culturais, familiares e nacionais são desprezados em função de um interesse financeiro, esse ser humano perde a razão de sua humanidade, perde a razão e a crença na civilização. Brutalizado, se desumaniza. Vira criatura de ódio e sua razão de ser passa a chamar-se vingança.
Essa é a história de quem perde a esperança e tem em si algum meio de direcionar sua libido a alguma forma de prazer. Aqui resta o poder e o domínio como únicos prazeres. Afligir dor ao outro que não comunga de seu ódio torna-se sua razão de ser.
A história contemporânea pariu essas pessoas quando elegeu o poder, o dinheiro e o petróleo como os combustíveis de sua alma.
Bestas humanas renascidas de uma vida de inferno e de uma índole de perversidade mas também de ignorância sem igual.
Essa é a gêneses do autoproclamado Califado e de todo ato terrorista, o ódio.

A maior dúvida

Existe pensamento absolutamente racional ou isso é impossivel?
Toda razão vem acompanhada de emoção?
É possível afinal responder a uma pergunta fortemente polêmica sem fazer uso de uma argumentação emocional? E não fazendo, continuamos humanos?

domingo, 22 de novembro de 2015

Domingo do Rio a Minas e Paris

Para a noite de domingo
Um gato na cama
Uma brisa fresca
Grilos cantando
Crianças dormindo
Silêncio na casa
Inquietude no coração
E amor também
E de um dia de domingo
Cantoria em família
Aniversário de 93 anos
Um vaso de flor como brinde
O sorriso e vitalidade dos 93
Crianças correndo
E o mais lindo de tudo foi o verde dos campos e montanhas tilintando depois de mais de um ano de estiagem
Eu ainda não posso terminar essa tentativa poética sem pensar em Mariana e na lama
Ainda não posso dormir ouvindo os grilos, sentindo a brisa e apreciando o silêncio sem pensar em Paris
E não pensar na doença que é a loucura de não aceitar a alegria e o prazer de viver do outro, dos outros
Vamos dormir todos com nossas boas lembranças de um domingo que muito valeu
Vamos sempre buscar poesia
Vamos pintar literatura
Vamos colocar flores nas janelas
Vamos alisar um gatinho
Vamos usar uma blusa colorida amanhã
Vamos todos testemunhar a vida e alegrar-mo-nos com ela
Vamos coroar nossos dias felizes com o espírito da tolerância
Vamos cantar
Vamos dar mais amor ainda
Vamos celebrar nosso mundo, nossa fantasia, nosso encontro
Vamos nos armar de desejo de viver.

sábado, 21 de novembro de 2015

Discordei do Dapieve

Gosto do Artur Dapieve  e de algumas de suas colunas em O Globo, embora não tenha lido muitas nos últimos tempos pois desconfio que a opção de DAPIEVI NOS ÚLTIMOS TEMPOS TENHA SIDO A DE DAR MAIS ATENÇÃO à música do que a outros temas.
Mas hoje fiquei feliz com  o título de sua coluna de ontem: " Sempre teremos Paris".
Porque sempre amaremos Paris. E teremos dentro de nós tudo o que amarmos para sempre. Não. Não é a história da Polyanna. É assim que guardo minha mãe e meu pai em mim, só como exemplos.
Mas Paris, ao contrário de meus pais, está viva. E linda e bela e de posse dos valores mais admirados pelo mundo que ama a vida: a liberdade, o vinho, a poesia, a literatura, a igualdade entre gêneros, e sim, a fraternidade que insistentemente jamais se transformará em uma fratura social. Para todos os gritos e intenções ao radicalismo que apenas aumenta o sentimento de exclusão, haverá mais franceses a lutar pelo contrário, mesmo que nesse momento eles estejam com medo e que transitoriamente venham a apoiar um grupo mais à direita conservadora. Não tenho dúvida, eles voltarão, pois serão capazes como nação de refletir sobre os próprios erros. Essa característica é admirável, e não faz parte de uma utopia minha. Faz parte da história da França.
Dito isto, preciso radicalmente discordar de Dapieve quando ele diz que em janeiro deste ano, muitas pessoas criticaram o jornal Charles Hebdo quanto às suas sátiras religiosas. Dapieve erra em dois pontos: chama esses críticos de patrulhadores do politicamente correto. Não somos. Não fomos. E sei que posso parecer arrogante ou presunçosa ao dizer isso, mas Dapieve comete um equívoco ao não discriminar as posições que criticavam essa atitude como posições não-contraditórias em condenar os ataques, mas criticar as ofensas ao Islã. Não há nessa atitude nenhum patrulhamento. Existe uma crítica. Existe uma opinião. Não há indulgência ao terrorismo praticado. Não há tentativa de justificar o ato de matar as pessoas. Existe uma crítica ao que o tema liberdade de expressão significa. Não acredito em liberdade de expressão sem reflexão, sem cuidado, sem dúvida. Desde que o mundo é mundo, nunca foi inconsequente tudo dizer. Aquelas mortes foram compreendidas como o resultado de uma criação de condições psicológicas favoráveis à loucura. Para a loucura, não há lei.
Não há defesa para eles em relação ao Charlie Hebdo. Mas fazendo uso da tão propalada liberdade de expressão, ouso dizer que aquelas charges são de mau gosto, absolutamente desrespeitosas, desnecessárias. Não acredito em liberdade de expressão que ofende tiranicamente a fé alheia, a mãe alheia, o pai dos outros, a feiúra de alguém, a sexualidade de outrem, a pobreza de muitos, a riqueza de poucos, ou seja lá o que for. Simplesmente a minha liberdade de expressão não se sobrepõe ao pedido de quem quer que seja ao me dizer:" Não diga isso. Você me ofende." É preciso parar. Porque o meu desejo de rir da cara do outro não se encontra acima de ninguém. Desculpem humoristas, piadistas, jornalistas... que tanto me fazem feliz e a milhares de todos nós, mas o seu protagonismo e talento não importam mais do que o direito de alguns grupos serem respeitados. Na verdade, vocês não precisam disso. O talento é uma arma maior e melhor do que qualquer outra.
Sendo assim, não acho nada razoável que em nome do que quer que seja, o Islã ou qualquer outra religião seja ridicularizada com veemênia, intensamente, grosseiramente e repetidamente, como o Charlie Hebdo fizeram. Qual a linha então? Não é nada difícil não ignorar a justificativa para os advérbios utilizados. Basta olhar o jornal.
O outro ponto que identifico ter sido um erro de análise do Dapieve foi ele ter relacionado os ataques de janeiro e as críticas sofridas pelo jornal à época aos ataques de hoje e à possibilidade de que agora as pessoas que criticaram o jornal venham a ter seus pontos de vista reconsiderados. Não acontecerá. Manter o ponto de vista de crítica ao jornal Charlie Hebdo apenas demonstra o fato óbvio de que nunca houve contradição. Quem no mundo tem simpatia pelo Isis, meu Deus? Aquele grupo é insano, cruel, incapaz de dialogar.
Não, meu caro Dapieve, não há anomalia ou politicamente corretice em criticar as charges ignóbeis do CH. Se não formos capazes de separar o emocional envolvido em uma questão como essa, nunca entenderemos uns aos outros. Liberdade de expressão não pode ser um dogma. E ao defender aquelas charges como liberdade de expressão inscreve-se a ideia no rol de um radicalismo ideológico dos mais profundos, porque mais uma vez teremos um princípio regendo todos os outros. Nada mais religioso do que isso.
Quando a liberdade de expressão se coloca como a conquista civilizatória mais importante entre todas as outras, ela ignora as consequências de suas atitudes e passa a se justificar por si só. Não há nada mais radical do que isso. E isso, meu caro, é a justificativa utilizada por todos os fundamentalismos. Sentem-se tão acima de todos os outros, que nada pode ser questionado.
Quando dois fundamentalistas que se negam a dialogar se encontram, o resultado é a guerra total.
Agora, o desejo de guerra total chegou aos loucos armados de ódios infinitos ( e desejo de poder infinito).
Ou conversamos entre nós e decidimos deixar de lado nossas certezas para viver nossa alegria de viver, ou nos arriscaremos a apostar nossa capacidade de riso e alegria juntos aos mortos em vida que sabem que terão que morrer conosco para vencer essa guerra, pois como já disse Russel Brand, amamos mais a vida do que a morte, e eles amam mais a morte do que a vida. Pertencer ao ISIS já é estar morto em vida. Por isso, não tenho dúvida de que em meio a essa insanidade, precisamos manter nossa capacidade de diálogo e amor ao que de melhor nossa civilização foi capaz de construir: a palavra e seu mais profundo e maior significado, o de manter a construção de uma vida livre e democrática como a utopia essencial de suporte à realidade imperativa, brutalizada e sempre vital.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Rio Dor

Eu agora só desejo o não-entendimento.
O excesso de tudo já ultrapassou o todo e polui o meu meio ambiente, que não tem aptidão necessária para o conflito do mundo de hoje.
Ninguém estava preparado.
A avalanche não é só de lama, é de tudo. O tudo é escasso, exclui o todo, viraliza lixo, esconde beleza, desencanta esperança, trafega quilômetros, mitiga devaneios, devasta poetas, chora o mundo inteiro.
Meu todo não dá conta, não fabrica certezas, não se prende a nada e assiste com uma passividade que fere a alma, tudo ao redor.
Foram os terroristas, foram o nosso eu humano que agiu ao longo do tempo para represar toda a sujeira do mundo, explodir violentamente e inundar de lixo tóxico a vida que abunda e esvaiece de podridão.
A morte do rio Doce é a metáfora mais verdadeira da vida e do mundo.
A morte de um rio é a mais perfeita metáfora da perversa moneteirização da vida.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Rede social

As redes sociais refletem com maestria o funcionamento da mente humana frente ao mundo coletivo. Redundante.
A capacidade de falar é gigante, a de ouvir, baixíssima.
Fala-se na rede social postando, comentando, escrevendo. Ouve-se na rede social lendo textos. E não menos importante, o sentido visual é dominante. Olha-se muito, fala-se menos (e quando a fala vem da própria escrita menos ainda), e ouve-se muito pouco.
É claro que muitos poderiam dizer que a rede social não se destina a esse tipo de comunicação. A qual destino ela se destinaria então? Será que nessa perspectiva não se encontra embutida uma indulgência diante da nossa cada vez menor capacidade de conversar? Afinal, se estarmos presentes e frente a frente uns aos outros encontra-se persistentemente invadido por telefones celulares e suas comunicações virtuais muitas vezes prevalecem ante a presença humana, estaríamos então fazendo o quê com a presença real?
Estamos emburrecendo e abandonando sem perceber nossa capacidade de pensar em prol do próximo post, do próximo clique, da próxima imagem bacana e da próxima tragédia cada vez mais próxima? (Saudade de sete dias atrás antes da tragédia de Mariana e a de Paris).
Os usuários adictos da internet e das redes sociais se defenderão de qualquer análise que coloca em questão seu novo vício, mas a maioria não lê mais um livro de verdade e é incapaz de permanecer em uma conversa por mais de uma hora sem olhar o celular. Sempre haverá um motivo, dirão.
Quanto maior for a conectividade virtual, menor será a conectividade real, presencial, pessoal. Quanto mais conectados, mais desconectados.
Essa hiper conexão e super informaçào de todos os lados prejudica o desenvolvimento de um olhar para o que vivemos mais concretamente em nossas vidas cotidianas, desloca nossos interesses, desacredita o mundo. Ganhamos o olhar e novas percepções de um sistema de divulgação de notícias ( mídia), cujas matérias são alocadas de acordo com interesses econômicos. Vivemos hoje o aprofundamento do paradigma econômico tão profundamente em nossas vidas, que não nos damos conta do que realmente importa. Como exemplo eu poderia citar o conceito de crescimento econômico como central no discurso hoje, como a nova verdade estabelecida. Mas antes de adotarmos esse discurso, não teríamos que nos perguntar o que é o crescimento econômico? Tocar nesse ponto é quase que o equivalente a questionar um dogma religioso. Difícil não ser atacado.
Faço a mea culpa. Não tenho medo da crítica, ( talvez por ter autocrítica). Porque também me pego mais tempo do que deveria na internet. Também sou desatenta aos meus algumas vezes em função da internet. É uma escolha minha. Mas não sou viciada e tampouco troco um bom papo por um celular. Também leio livros. Muita literatura é necessária para os momentos atuais.
Não podemos nos tornar desinterssantes uns para os outros. Precisamos estar atentos e fortes para tempos de lixo profundo na internet, para uma imprensa que tem como objetivo espalhar medo a fim de justificar mais controle sobre a vida privada e mais ganhos particulares, para um mundo violento globalmente e cada vez mais agredido e com danos permanentes em relação à natureza.
A união e a tolerância precisam prevalecer em meio a tudo isso, pois foram esses os valores que fizeram com que o mundo em meio a imensos turbilhões no passado, pudesse ingressar nesse século XXI acreditando nos valores que nos elevaram como civilização, e não naqueles capazes de concluir a nossa destruição.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Solidão

Solidão como território consciente da intimidade é incrível e talvez a maior e melhor sensação mais próxima ao que deve ser o que chamamos felicidade. No entanto, a solidão como "imperativo da realidade", é a mais atroz das experiências. De que valeria ter todo o dinheiro do mundo sem ter com quem compartilhar, sem ter alguém para amar? Para os narcisos, sem gente não é legal porque narciso não conhece a felicidade pessoal e intransferível , em geral narcisos só conhecem as satisfações momentâneas de suas fantasias de dominação. Narciso olha a mulher e pensa na conquista e então conquista e então desliga. Segue para a próxima. A próxima é sempre mais interessante. Ele é aquele que transa e dá uma olhada ou duas ou mais no espelho para se certificar se está bem na cena. São criaturas fascinantes do ponto de vista psicopatológico. Verdadeiros solitários, esvaziados, nutridos pelo vácuo de algum poder, às vezes de muito poder.
Aliás, acho que devíamos transpor O alienista para os dias de hoje. Todos dentro para saírem todos depois. Afinal, como a mentira não é mais mentira, nunca foi mentira e só a verdade salva e só a verdade perece, porque só a mentira aparece e praticamente nada acontece, que tal decretarmos e balizarmos o poder da psiquiatria e da medicina nesse momento? Será que a estrutura psiquiátrica e nossa inscrição de saber na medicina como verdade não poderia nos fazer um favorzinho e , como eles não chegarão às cadeias, será que não poderiam fazer um spa de alguns poucos anos somente, em um manicômio?
Bem... já que nossos narcisos políticos não reconhecem contas suas de milhões de dólares em um banco suíco, não seria caso de alienação mental? Não se trata de um delírio totalmente comprovado por milhões de brasileiros? Será que esse povo não merece uma assistência médica e psiquiátrica da boa, fazendo uso dos melhores antipsicóticos e indutores do sono e ansiolíticos, em doses plenas, para que eles tentem recuperar parte de suas sanidades?
Não é caso de intervenção psiquiátrica não, gente? Não. Para mau caratismo não há psicanálise ou psiquiatria que dê jeito.
Mas é só uma ideia.