domingo, 28 de maio de 2023

Final do fim de semana

 Quase dez da noite. Felizmente não preciso ir para o Pedro II amanhã. Não faço isso há pelo menos trinta e cinco anos, mas foi o que me veio à mente em um primeiro momento, o que apenas prova a mim a inexistência do tempo como motor do pensamento, essa teia entre a memória, o passado, as emoções, as saudades. Já devo ter escrito em algum lugar que eu me considero alguém que deambula em saudades. Sou aquele conjunto de carne, osso e sangue carregadora de lembranças de saudade. Eu sou basicamente uma transportadora de memórias que utiliza essas memórias como ferramenta de trabalho.

Se chego ao final do fim de semana e penso ser bom não precisar ir ao colégio amanhã, logo me vem à lembrança uma enxurrada de memórias de um passado cujo tempo torna-o cada vez mais distante e opaco, e ainda cujas emoções ligadas aos fatos cristalizam-se em razão da mesma passagem temporal. As cenas antigas que por ventura até me traumatizaram foram transformadas em um filme que não mais me desperta fortes emoções. Já vi e revi várias vezes, e as mágoas e as dores foram colocadas em seu lugar de lembranças de um passado, repleto de momentos fantásticos e por isso, inesquecíveis.

Um dia eu acreditei que o que doeu não me fazia esquecer. mas o que não me fez esquecer, de verdade, foi porque doeu ao roubar minha alegria, naquele dia, naquela hora. Era ruim mas não definia a minha vida. Minha vida era na realidade daquele cotidiano do subúrbio, o pão francês fresquinho, as brincadeiras na rua, as festas juninas, o carnaval no coreto fantasiada com uma roupa feita pela minha mãe, era pintar a rua esperando a copa do mundo, era ensaiar quadrilha, brincar na rua com meus amigos de infância, esperar pelo doce do fim de semana, tomar sopa de siri com meu pai, passar as manhãs com a minha mãe, subir à casa da minha avó, andar na rua Vera para comer pão com requeijão na vovó Maroca, compartilhar as ceias de Natal nas casas dos vizinhos, dançar na discoteca Periquitos do meu pai, ouvir Rita Lee e Maria Betânia, combinar festa americana, pegar doce de Cosme e Damião, comer pizza de sardinha da Igreja Nossa Senhora da Glória, tomar banho na piscina de cisterna, gravar fita das músicas da rádio Transamérica, ouvir Carpenters, The Smiths, James Taylor e Legião Urbana, ir nos fins de semana à praia de Copacabana com o Zé, ir à Santa Tereza visitar o Geraldo e a Eliana, brincar com o meu irmão, tomar sol com a minha mãe, assistir filme domingo à noite com o meu pai.

Essa foi a minha vida, e é ela que faz essa ressonância de todo o resto. Foi por essas lembranças que eu precisei sentir todo o resto.

Mas na conta final, só dá ela.

segunda-feira, 22 de maio de 2023

Não compro o tempo

 A mercadoria mais valiosa do mercado não cabe no imaginário, não vive sem o simbólico, é puro real, mas também é relativa.

Não se consegue explicar ou compreender, somente medir, e acredite, pode ser medida através dos segundos mas também em centímetros.

Massa de ossos, carne e sangue, nossa estrutura vagueia no oceano cósmico à velocidade da dança que a Terra faz em torno do Sol em sua órbita espetacular. E ainda devemos a Júpiter nossa longevidade. Porque Júpiter é poderoso com seu campo gravitacional e generosamente atrai meteoros e outros objetos para dentro de si, protegendo a nossa frágil órbita terrestre. Enquanto os humanos rezam cada um por sua crença particular crendo de fato fazer sua parte para salvar o planeta, deveríamos fazer muito mais orações a Júpiter, além do Sol, é claro.

E comprar o tempo que é bom, nada. Mas como o imaginário é mais infinito que a idade do universo, virou especialidade fingir vender o tempo. Na verdade o comércio está tão quente em mentiras que até mesmo mudança de sexo vem sendo proposta como alternativa viável. Todos os médicos sabem que é impossível, todo psicanalista também está cansado de saber, mas a força da grana, e da mentira, insiste em negociar o tempo e a ilusão de poder sobre o próprio corpo e a própria vida.

Tudo tem um preço. Botox, sculpter, ácido hialurônico, vesícula, prótese de quadril, mamoplastia, rinoplastia, faloplastia, vaginoplastia. Todos esses procedimentos tentam vender o tempo e uma mudança corporal definitiva em nome do sonho de pertencer a outro sexo. Mas algumas mudanças são mais definitivas que outras, muito mais caras que outras, e com efeitos colaterais muito mais nefastos que outros. Alguns inclusive transformam uma pessoa saudável em um paciente crônico e escravo eterno da medicina. A boa notícia é que você pode fazer ou não.

Nunca consegui comprar o tempo. 

O tempo veio a mim junto à sua inexorabilidade e certeza de incompletude. Sei que preciso me esforçar diariamente na tentativa de ser uma pessoa que me faça querer continuar a ser eu mesma, com a idade que tenho, com o nariz que tenho, com a barriguinha que tenho. Se eu gostaria que minha barriga fosse menor? Com certeza. Se tenho coragem de fazer cirurgia plástica para atingir esse objetivo? Não tenho. Tenho pavor à dor. Como psiquiatra que sou, aprendi que é sempre melhor buscar ser feliz com o que se tem. E isso não significa ser indulgente. Cuidar-me é tudo o que posso.

Não vou comprar o tempo. Ele me foi dado de forma misteriosa e eu simplesmente agradeço. No meu banco de vida, eu olho lá fora e aprecio a paisagem. Finjo olhar o tempo mas não o toco, não o vejo e sequer o sinto. Ele é meu e absolutamente me escapa ao mesmo tempo, atravessando essa minha e nossa existência sem dizer uma palavra, e ainda assim, levando tudo com ele. 

quarta-feira, 17 de maio de 2023

Léo Lins no Brasil com amor

 Assisti menos de 15 minutos da apresentação stand up de Leo Lins. Não gostei. Achei ruim, ridículo, e de um deboche que não me fez rir por nada. Imitar surdo-mudo através de sons guturais? Não tenho interesse. E não segui adiante para ver o restante. O cara é ruim, no entanto o público parece gostar muito daquelas piadas de muito, muito mau gosto. Particularmente, entendo o humor de uma outra maneira. Mas não quero dizer com isso que não gosto de zoação e deboche. Só acho que deve ser mais engraçado, ou inteligente, digamos, para me entreter. Fazer rir debochando de doentes ou gente na merda é pra profissionais realmente competentes. O risco de cair no ridículo e soar ofensivo até pra quem detesta o politicamente correto como eu, é grande.

Minhas crenças adultas de mundo se construíram baseadas em uma ideia de que eu simplesmente posso não assistir ou não comprar aquilo que eu não gosto. Dito isso, a censura ao Léo Lins é injustificável e muito séria.

Isso é apenas um ponto.

O outro foi a cassação do mandato do Deltan Dallagnol. O TSE cassou o deputado eleito pelo Paraná por unanimidade. Milhares de votos foram dispensados pelo poder judiciário, que vem governando o país e ditando as condutas sociais além da política. Algo está muito errado com o Brasil. Deltan foi cassado com base na lei da Ficha Limpa e o Lula retornou à presidência mesmo tendo cumprido pena de prisão e jamais ter sido inocentado. Foi dito que o mesmo acontecerá a Sergio Moro. Ao que muito parece, o Poder Judiciário tomou o lugar do Congresso Nacional. 

Há um anti-lavajatismo imperando no Brasil. Corruptos consagrados retornaram às suas casas e possuem seguidores nas redes sociais. Lavajatistas, que ainda tenham exagerado em algumas decisões e ações, estão sendo visivelmente caçados. Dallagnol e Moro, com tudo isso, não possuem nenhuma denúncia de corrupção, roubo, ou crimes. Quanta vergonha e perplexidade eu sinto.

A sociedade realmente se dividiu, e o resultado é uma guerra ideológica e política inédita, passando o Poder Judiciário a protagonista de um governo que disse buscar a paz e o diálogo. Risível.

O governo do amor trouxe a censura, a perseguição, e a intolerância. Em psicanálise, aquele que insiste em um determinado slogan como bandeira ou defesa, em geral, diz o contrário.

O governo do PT nunca foi o governo do amor. E hoje é somente o governo da vingança e da eterna artimanha pela permanência no poder.