domingo, 22 de agosto de 2021

Um outro fim de domingo

 Estive diante de um dia de sol chamado domingo. Vi-me acordar sobre um manto de aconchego espiritual banhado por um azul celeste sem nuvens, fatos de claridade indubitável que em minha alma renovou algumas esperanças em meio à uma pandemia que parece infinita e o perecer de uma amiga dos tempos de tenra infância, amada e adoentada em longínquas terras, distante de suas raízes e de sua própria língua.

 Mas respirar hoje foi bem mais feliz. 

Busquei spices e arremeti meus desígnios culinários em meio a repolhos, batatas, lentilhas, berinjelas, tomates, cebolas, alhos, muita cúrcuma, gengibre, pimenta dedo de moça, mostrada em grãos, cumim seeds, cilantro ( na verdade o daqui é coentro mesmo), e um aromático arroz basmati. A couve flor ficou de lado. 

Céu azul e temperatura perfeita, mix de spices e vinho branco espetacular fizeram o meu dia um tanto vibrante inside e outside, cheio de aromas e sabores dessa culinária indiana que me delicia e me provoca muito prazer. Música brasileira, Alceu Valença, Dominguinhos, tudo perfeito. Brincos de pérolas.

Então vem o revés. Vem o cansaço decorrente do crescer alcoólico, vem a azia terrível, vem a culpa tenebrosa por não ter lido o que eu deveria ter lido, por ter bebido o que eu não deveria ter bebido, por ter comido dois biscoitos bis, por ter medo de passar mal, por estar fazendo uso de remédio pra micose que é minha há quase dois anos. Ou seja, eu me proibi beber durante o remédio e bebi! Então tive de lidar com esse sentimento horroroso de culpa.

Então aqui vim. Eu sabia que a escrita me ajudaria a entender esse mal estar.

É uma pandemia que já dura um ano e meio. É um cotidiano de pessoas se odiando. É a instalação da lógica politicamente correta nos meios de comunicação. É chato demais tudo isso.

E dá-lhe coerência nesse castigo coletivo chamado pandemia. Precisamos nos afastar uns dos outros. Precisamos nos manter afastados. Por que exatamente precisaríamos estar juntos se todos se odeiam tanto?

Cada vez mais eu me volto para o meu mundo. 

Não há tempo para ler jornal porque o tempo se desfaz entre os olhos e há tanto ruído ao redor e tanto ainda que eu quero ler, que eu vou retomar aos temperos, à beleza dentro de uma casa que é a minha, e sim, vou tentar amaciar esse inconsciente punitivo e inconformado.

domingo, 9 de maio de 2021

Um fim de domingo

 De repente segunda.

Mas ainda é domingo dez da noite.

Uma tarde de sexta e seu fim. Um sábado chuvoso fazendo diferença nos fins de semana em farta maioria ensolarados. Uma ida ao zona sul para comprar bacalhau pro dia das mães que foi hoje e já chegou ao fim. Sempre um preparo para um novo amanhã que sempre chega e sempre chegará até nunca mais. Ao menos para quem escreve, porque o sol ainda tem uns cinco bilhões de anos de fusão. Mas a Terra, nossa Terra, tem apenas uns cinquenta mil anos antes da próxima era do gelo, quando inevitavelmente inclinará de um modo que irá gelar até o nordeste brasileiro. Vai ser o fim, um dos muitos fins que esse planeta já viveu. Entre uma era do gelo e outra, entre um meteoro e outro, e entre meus pensamentos de sexta à segunda, vai-se um tempo que na verdade só existe porque viajamos pelo espaço, já que finalmente consegui compreender que o tempo só existe se existe espaço e ambos furam esse tecido que damos o nome de universo, mas que é na verdade a propriedade de uma matéria capaz de deformá-lo e não mais do que isso, e além disso não dá pra entender o que eu quis dizer. Sei. Bem sei. Estou há quase cinco anos tentando entender o que é o tempo e o por que de na realidade poder ser medido em centímetros, quando finalmente  fui capaz de ter o insight de que se o tempo não existe no black hole, é porque a gravidade lá é tão absurda que o tempo pára. O tempo só existe se a gravidade tiver alguma função além de sugar tudo de tão forte. Se houver finalidade, há tempo. A gravidade religa a matéria, e apesar de tudo, o universo está em expansão. Ainda há tempo.

Há pessoas que tem medo desses assuntos cosmológicos. Ficam amedrontadas com o nosso insignificante tamanho frente à imensidão do cosmo. Eu não. Por que ficaria se tudo o que tenho só tenho em meu tamanho? Minha insignificância é o meu todo. E para o cosmos talvez só exista insignificância, e é claro que nem ele está aí pra isso. Ele só prossegue em sua expansão, em sua função destruidora e construtora de mundos. Eu acho fascinante. E sigo o meu fascínio com o infinito na verdade finito mas impossível de pensar, esse cosmológico mundo onde habitamos.

Pergunto-me o por quê de não termos finalmente alcançado a paz mundial depois de tomarmos o conhecimento de que somos poeira de estrelas, e de que as estrelas explodem em supernovas sem desanimar, prontas a entregarem ao espaço que pertencem mais material para os novos planetas. Nesse nosso aqui chegamos a esse status de vida complexa e à essa espécie altamente afetiva e cruel capaz de tudo destruir para tudo possuir, que é a nossa.

Por mais que eu entenda um pouco mais a respeito dessas complexidades e saiba que fora de nossa atmosfera terrestre há radiação cósmica letal e ausência de condições de vida humana, e que a gravidade diminui e com isso o tempo passa mais rápido e os satélites que captam os sinais de gps sejam programados para calcular essa diferença temporal a fim de que não haja diferença entre o tempo localizado pelo satélite e local e o destino onde precisamos chegar, por mais que hoje esses conceitos sejam a mim acessíveis e me ajudem de forma contundente e absoluta a tolerar a realidade subjetiva, eu não entendo. Não entendo tanta dor a que estamos submetidos. Tem havido tanta dor pelo mundo, mas tanta, e isso é tão assim desde que o mundo é mundo que honestamente só nesse momento pude compreender o por que da existência da psicose. A psicose é fundamental. Sem dúvida nos ajuda a suportar a realidade, e é função dos aspectos psicóticos de nossa personalidade, aquela que nos permite realizar essa trajetória sem pirar total. 

Essa pandemia nos transcende em realidade, e na última semana, tornou tudo pior.

A perda de tantas pessoas conhecidas, ao nosso redor, pais de alguém, mães de alguém, filhos, e meu maravilhoso Paulo Gustavo, sobretudo, tornou essa semana muito, muito difícil. A maldade no Jacarezinho, a forma como as pessoas pobres são tratadas nesse país, esse governo monstruoso, afirmando que a “ maioria era mesmo bandido”, além de todo negacionismo em relação à pandemia, me fazem crer que não acordo do pesadelo nunca.

A vacinação segue em ritmo lento e todo o comércio voltou a funcionar normalmente, como se não houvesse pandemia. É simplesmente assustador. O vírus encontrou um celeiro chamado Brasil. As pessoas parecem tranquilas. É muito estranho. Mais de três mil pessoas morrem por dia há uns dois meses, e os restaurantes estão cheios. Restaurante, leia-se: local onde mais se transmite o vìrus Sars Cov-2. É de arrepiar. E essa nova cepa, a P1, acomete pessoas mais novas, entre 40 e 60 anos. Felizmente os vacinados estão hospitalizando muito pouco. Mas desse jeito, com vírus em alta transmissão, será que outras mutações virão? Melhor não pensar muito nisso. Mas isso está na realidade. Recruto meus recursos psicóticos e acho que nada vai acontecer e que Deus vai ajudar? Bom, se a vida de alguém como Paulo Gustavo foi ceifada e a de Bolsonaro e Trump não, resta a desconfiança e um certo medo dos limites do poder divino. Se o bem maior existe, essa realidade que eu temo em não deixar de enxergar, me diz que tudo indica que o mal também existe e anda bastante ativo.

Então volto para a lua e o sol, e os mistérios sondáveis e fascinantes que os fenômenos físicos e astronômicos nos deixam.

É uma sequencia feliz: ando pelo sol e me deito com a lua. De dia sou hétero e à noite não. Inverto os pronomes e brinco com as palavras. Brincar com a existência é uma das maneiras de perseverar nesse mundo sem enlouquecer ou deprimir muito gravemente. 

Sigo em frente porque é premente.

Mas quero seguir por desejo e encanto. 

Em meio ao desencanto, caio e levanto um tanto. Respiro. Olho. Suspiro.

Nesses tempos, encontro o amparo na física incompreendida que me envolve em um certo sentido de cosmologia aplicada à resistência de sobrevivência em meio a quinze meses de pandemia.

Sem catarse. 

Ao fim, algum sorriso. Um alento em letras.


quinta-feira, 6 de maio de 2021

Não tenho boas notícias

 Ainda a pandemia. Ainda a insanidade. Uma quase perfeita distopia sem nenhuma tirania plena, apenas ao que parece, todo um sistema-mundo preparado para destruir vidas através do auxílio implacável do coronavírus. 

Quase 420 mil mortos aqui no Brasil. Uma segunda onda feroz que tem levado em média 3000 vidas por dia. 

Presidente ensandecido, insano, amoral, covarde. Legislativo psicótico, vendo o terror roubar a alegria e a força do povo, inerte à morte. Judiciário atropelando as poucas decisões decentes do executivo municipal. Um país enfraquecido, empobrecido, mais violento ainda, sem nada a comemorar.

Poderes à parte da realidade nacional dolorosa, vivendo de emendas, verbas, privilégios, discursos vazios, desconectados da necessidade dos que mais precisam.

Parece que esse vírus só mata os bons corações que restam.

Perdemos o maravilhoso e único Paulo Gustavo. Ele se foi. Deixou dois filhinhos e um marido. Deixou dona Déia, a mãe de todos nós, que não vai ter o Paulo no próximo domingo para comemorar o dia das mães. Brasil órfão . Brasil triste. Brasil em luto no pior ano de todos. Paulo Gustavo, eu te amo. Obrigada por me fazer rir muito, mas sobretudo obrigada por me ensinar a rir daquilo que antes eu não ria. Como a gente agradece a alguém que nos deu maior capacidade de ser alegre? Por que você se foi? Onde está a justiça divina, que nos deixa Lula e Bolsonaro e leva você? Você! Eu só sei que nunca chorei tanto por um artista, nunca lamentei tanto. Você vai fazer muita falta.

E então seguimos nessa luta sem fim. Nesse desgoverno que parece não ter fim, mas que terá. Nessa dor sem tamanho.

Meu país perdeu quase toda a sua vergonha. Viramos uma nação desalmada. E desanimada. Imbecilizada. Infantilizada. Perdida.

domingo, 10 de janeiro de 2021

Pandemia, anosmia, idolatria, imensa idiotia

 Hoje estamos no dia dez de janeiro. A pandemia não só não acabou, como piorou. E muito. Estamos em uma segunda onda inequívoca, atingimos quase mil e trezentos mortos por dia. Nos Estados Unidos, quase quatro mil mortos. Na Alemanha, em lockdown há mais de um mês, mesmo número de mortos que o Brasil. 

Aqui, Bolsonaro ainda é o presidente. Nos EUA, Trump também, até o dia 20 apenas. E pra começar o ano bem animado, dia seis de janeiro, seguidores trumpistas invadiram o capitólio em Washington. Cenas de terror que culminaram com cinco mortos. Trump é um terrorista. 

Por aqui, um ministro da saúde ridículo e um presidente repugnante e que consegue se superar dia após dia. 

O mundo inteiro quase já iniciou a vacinação contra a Covid-19. O Brasil não. O governo federal tem medo da vacina mas não do vírus. É tudo um pesadelo sem fim. E em meio a tudo isso, batemos duzentas mil mortes. E ainda assim, várias festas e ligares lotados país afora. Cada um por si é a filosofia.

O ideal da idade moderna se faz vale com muita força: hoje quem não tem um núcleo familiar forte e agradável não se encontra bem.

A natureza tem dado o seu recado. E os humanos se esqueceram,  oa parte deles, de ouvir.

O que mais virá por aí, mãe natureza?