terça-feira, 26 de junho de 2007

Os rapazes da Barra

É inevitável para mim não querer escrever sobre o ocorrido com a mulher Syrley, de 32 anos, espancada há dois dias por 4 jovens homens na Barra, às 4 e 40 da madrugada. A mulher estava no ponto de ônibus, sozinha. Os jovens resolveram espancá-la. E assim fizeram. Poderiam ter escolhido um homem sozinho, um cachorro, um gato. Não teriam escolhido 4 homens maiores que eles.
Como compreender tal atitude? Diriam uns: drogas. Será?
Os rapazes disseram ter pensado que Syrley fosse uma prostituta. Para o pior, e não sei se eles contavam com isso, ela não é. Para mim não faz qualquer diferença, e essa será a única menção à tentativa repugnante de tal justificativa por parte deles.
A questão inerente ao ato é o velho desprezo ao que não nos é indiferente. Então o nome deve ser ódio mesmo.
Não li nada ainda sobre as mães dos agressores. Deve haver algum motivo. E arrisco a dar um palpite: não ensinaram seus meninos a respeitar as mulheres. Aliás, seus filhos têm um ódio especial pelas mulheres. Teriam ódio das próprias mães? Pensam nas mamães como prostitutas mas não podem bater nelas e batem em outra mãe? Seriam homossexuais ( minhas desculpas desde já aos homossexuais) disfarçados de pitboys?
Agride quem tem medo. E agride quem tem ódio. As coisas se misturam. Uma pessoa com boa resolução do ponto de vista sexual não tende a agressividade gratuita. Por isso não se vê por aí homossexuais agressores desse tipo, o gratuito. Eles gozam do jeito que bem entendem. Já os enrustidos...imagine ter de manter a pose de homem quando se deseja mesmo é outro homem?
De qualquer forma, os rapazinhos estarão em boa companhia ao lado de vários presidiários filhos de empregadas domésticas, e que poderão realizar a fantasia sexual dessa garotada da Barra da Tijuca, que terá a oportunidade de conhecer de verdade o mundo dos que têm tanto ódio quanto eles. Que aprendam um pouquinho.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Loosers?

É verdade que a proposta iniciada pela mídia é da diminuição de cada um de nós. Na verdade não sei se iniciada pela mídia, mas certamente sacramentada e perpetuada por ela.
Observe as manchetes das revistas: " Fulana. A mais jovem a fazer isso, isso e isso...; Sicrana, a mais bela modelo de toda a galáxia...; Putana, a mais extraordianária criatura da vida homana; Fulano, o maior criador de bonecos de pano de todos os tempos; Beltraninho: o milionário mais amigo de seus empregados..." Todomundo é o tal o tempo todo. Todomundo quero dizer quem vai bem na vida, digamos, nas coisas do vil-metal, ou do famosal forma de ser global-anal.Por aí.
Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente neste mundo?- repetindo Fernando Pessoa.
Há que se precisar da loucura para encontrar uma diferença. Diferença justificada socialmente como doença ou crime. Assim temos dividido nosso mundo: os loucos, os criminosos, os ajustados, os famosos e os ricos e famosos. Nos Estados Unidos há uma classificação a mais: os loosers. Penso que essa classificação seria cruel demais com o nosso povo, porque teríamos que assumir sermos um país de loosers, afinal, somos "em desenvolvimento", então ainda não "pegamos". Para os EUA, o Brasil é um looser.
De fato, generalizando, os americanos poderiam ser os "fat-winners of the world", já que parte de sua abastada população inchou e virou obesa de tanta opulência de calorias sem valor nutritivo...
Eu poderia terminar falando um pouco dos aspetos positivos daquele estranho país ao norte do continente americano e que curiosamente são os reconhecidos como americanos, sendo os menos americanos de todos. Mas se eu agisse assim cairia no lugar-comum do jogo de ser bom-moço, de reproduzir sempre que possível um lado hipócrita do politicamente-correto, o jeito de ser do mundo de hoje ao escrever qualquer coisa.
Precisamos de mais amor-próprio. E de nenhum modelo de felicidade, de ganhador ou perdedor. Somos o que somos, estamos, temos. Ganhamos e perdemos. Um dia morremos. E todos pro mesmo lugar de mistério. Eu, você e o Bush.
Inté.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Férias

Sim. Férias!
Desde o último dia 7 (feriado de Corpus Christi), by férias.
Em uma praia maravilhosa, com direito a cachoeira, sem barulho de carro, sem celular. Após 48 horas nessa situação de paraíso, multipliquei as endorfinas e a neurotransmissão gabaérgica naturalmente, dormi quase dezesseis horas... Liguei a televisão em um canal japonês (pra não entender nada mesmo), e isso me soou como um mantra, meditei.
Como me fez bem não ler jornal, não ver televisão, não assistir filmes ou notícias violentas. Descansar um pouquinho dessa loucura de dia-a-dia que vivemos muitas vezes sem perceber. Como nós poluímos a nossa mente com tantas coisas absolutamente desnecessárias... Vivemos reproduzindo em nossos corpos a situação de aquecimento de nosso planeta. Corpos e mentes em ebulição constantes, gerando ansiedade, ansiedade e mais ansiedade...
Me parece que o compromisso dessa grande mídia é o enfraquecimento , é a contínua fragilização desse chamado tecido social, é nos convencer de que nossos esforços são em vão.
Digo isso porque ler esses grandes jornais produz uma distorção importante e assustadora do mundo em que vivemos. Porque nos vende a idéia de que basicamente viver é ruim, não vale a pena. Os políticos não prestam, as pessoas são podres, a violência venceu o restante.
Se viver fosse isso, não quereríamos. Se viver fosse ruim, não desejaríamos tanto a vida.
E desejamos porque ela é preciosa, porque ela é maravilhosa, porque estar com as pessoas que amamos e crescer com elas justifica e supera todas (ou quase todas, diagamos),as adversidades.
Se estamos aqui, vivos, buscando alguma coisa é porque queremos desfrutar do que a vida pode oferecer.
Porque o nascer do sol é lindo.
O anoitecer é lindo.
As crianças são lindas.
Os pássaros cantando são lindos.
O barulho que faz o mar é maravilhoso.
Os bichos são fantásticos. As flores e as árvores também.
As criações humanas são extraordinárias. Música, pintura, cinema, arquitetura, medicina, poesia...
E lanço então um desafio: desaquecer o planeta, cuidar melhor do planeta. Desaquecer o corpo de violência, da violência da descrença, da melancolia da desesperança.
Tirar férias.
Olhar a natureza e perceber o que ela diz a você.

Um abraço.
Até a volta.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Proibido proibir!

Seria injusto não comentar sobre esse belíssimo filme brasileiro em cartaz.
O filme dói um pouco. Na alma, no coração, em antigas dores.
Porque é não apenas doloroso, mas ainda faz abrir a alma dos que aventuram-se a conhecer a realidade que não se encontra na universidade ou em qualquer outra escola. Só a da vida mesmo.
Não vou falar agora sobre a história que é contada. Vou falar rapidamente sobre as minhas emoções ao assistir um longa filmado na universidade onde estudei, a UFRJ, na ilha do Fundão. No hospital onde estudei e tentei "aprender" medicina.
Olhar, ainda que através de uma lente de cinema, um "round" no HUCFF, inevitavelmente me retorna àqueles tempos. Àqueles pacientes humildes em sua maioria e graves, também em maioria. Aquela discussão em torno da vida e da doença, traduzida de uma forma patologizante, apenas durante essa cena em especificamente de qualquer maneira, por tratar-se de alguém de fato doente.
O outro aspecto intensamente emotivo são os happy hours ao som de um sambinha ao vivo, Cartola. E todo o clima de descoberta contínua de si mesmo através das profissões escolhidas.
De todo modo, quem já foi estudante, em qualquer lugar, universitário ou não, irá enxergar-se em algum momento.
Considero o filme imperdível. Uma experiência brasileira necessária.