Essa será a semana da desinformação, a semana do menos é mais, a semana do desencontro com o outro do outro lado da lente e de um reencontro maior comigo.
Minha chegada às redes sociais foi tardia quando comparada a da maioria das pessoas. Estou no facebook há pouco mais de um ano, sendo que mantive a conta fechada por quase três meses esse ano. Havia cansado de tanta informação, tanta "falação", tantas opiniões, tantas certezas e palavras de encorajamento de outrem. Na verdade, é muito mais do que isso; é um mundo paralelo e perigoso também, pois existe uma captura de algo dentro de nós que ainda não conhecemos, e que é completamente novo inclusive do ponto de vista histórico e evolutivo.
Muito se diz a respeito do quanto as redes sociais deram voz aos que antes não tinham espaço para se manifestar e o quanto milhares de pessoas passaram a despejar como uma espécie de esgoto seus sentimentos pejorativos a tudo o que não lhes agrada. De fato, isso me horrorizou.
A tônica da agressividade e o despreparo pela novidade apresentada a mim tomou-me em certa medida, e também tive meus momentos de "raiva virtual", o que desencadeou em mim sentimentos de ansiedade sobre os quais eu julgava já haver resolvido. Mas como resolver algo que você nunca conheceu? A internet, como qualquer canal de comunicação que se abre, também abre em cada um de nós novas subjetividades, fazendo-nos deparar com novos desafios de linguagem que noscolocam frente a um paradigma completamente ansiogênico que é o da possibilidade de dizermos quase que instantaneamente aquilo que estamos pensando. Poucas situações podem ser mais perigosas e inconsequentes do que essa.
Vamos pensar.
Antes da internet, se fosse preciso nos comunicar com alguém de forma escrita fazíamos o uso das cartas. Se fosse alguma comunicação urgente, usávamos o telegrama, o qual continha poucas palavras. A carta nos fazia ler e reler o que escrevíamos. Podíamos suprimir algum trecho ou reescrever, pois para postá-la precisávamos antes ir a um correio e tínhamos não raramente que
aguardar o dia seguinte ou a segunda, ou ainda, aguardar estar em um lugar onde houvesse correio,
que poderia ser só daqui a alguns dias. Tínhamos tempo para pensar no que desejávamos comunicar.
Os dias continham em si o significado do tempo da espera, pois esperar era parte da realidade de um jeito que não existe mais.
Precisávamos aguardar chegar em casa para fazermos uma ligação para saber de alguém... Precisávamos torcer muitas vezes para que essa pessoa estivesse em casa naquele momento. Precisávamos criar condições de desejo dentro de nós para encontrar alguém e para esperar encontrar alguém. Mais uma vez o tempo e sua espera ecoava dentro da gente.
Os domingos eram silenciosos nas ruas e a maioria das lojas fechavam nesse dia. Tínhamos que esperar a segunda.
Não faz muito tempo, também era necessário esperar nove meses para conhecer o sexo do bebê. Nove meses demoravam... Havia espera. Quem desejasse saber se seu bebê estava bem e qual seria o seu sexo sabia muito bem o que significavam nove meses.
Também houve um tempo em que era necessário esperar a lua de mel para se relacionar sexualmente
com alguém. A espera intensa e o desejo também.
Também posso facilmente lembrar da espera pela festa de aniversário, pelos presentes de Natal, pela
volta às aulas, pelas férias.
É claro que ainda há espera. É claro que ainda há desejo. Sempre haverá.
Mas é diferente. Toda a nossa percepção do tempo, da espera, do desejo de estar com o outro, mudou.
Todos os nossos encontros com amigos e familiares são hoje sistematicamente interrompidos por um mundo sempre conectado e que tem demonstrado cada vez mais dificuldades em não sê-lo.
Estamos perdendo muitos megabites de olhares e de conexões essencialmente humanas nessa dinâmica. Estamos perdendo a dimensão do tempo e da pausa de reflexão necessária antes de darmos nossas opiniões. Estamos nos perdendo ao estarmos mais preocupados em demonstrar nossas certezas através das redes socias do que ao entendimento da complexidade dessas novas relações que já nos tem roubado a dimensão do tempo, os olhares, e sem que percebamos, irá também roubar nosso desejo e potencial criativo se não formos capazes de redimensionar sua importância em nossas vidas.
Por essas razões essa será a semana da desinformação. Vou trazer mais para perto minha meditação, o
apreço ao silêncio, a negação das certezas, a inconclusão.
Vou aguardar não saber o que estarão pensando as pessoas nesse momento de duras certezas e incertezas políticas contido em um tempo que parece ter desaprendido a esperar.
Se não me for possível esperar e escutar os meus silêncios, não saberei mais se o que sinto, penso e escrevo refletem aquilo que se encontra mais dentro daquilo que sou e ecoarei talvez um grito que não é meu, não por solidariedade, o que sempre será legítimo e absolutamente necessário, mas por indiferença pela precariedade de minha escuta interior, a única que é capaz de me revelar a única verdade que interessa. A minha. A de cada um.
segunda-feira, 24 de agosto de 2015
Cheiros
Que delícia! Senti cheiro de merendeira!
Trouxe em um saquinho 3 maçãs e uma banana e ao abri-lo veio um cheirinho dos meus cinco anos.
Recebi. Esse presente de um passado que não volta mas retorna na memória só depois de ter sido percebido por um sentido qualquer. A percepção que nos conecta ao mundo de fora nos retorna ao de dentro e nos leva a nossa íntima viagem interior. Fui à escola daquela época, lembrei de um sorriso que realmente não sei a quem pertence. Talvez a mim, talvez a minha mãe. Sei que ele deve ser de algum lugar do feminino.
Vieram as esperanças no futuro. O cheiro da merendeira é o cheiro do meu futuro.
E se hoje cheguei ao futuro, como sinto isso tudo, esse retorno ao passado inesperado?
(A lembrança foi maravilhosa.)
Eu deduzo que aos cinco anos já reconhecia que o futuro só seria possível se houvesse uma merendeira junto a mim e ao meu percurso junto à escola. Só o significado de um lanche dá sabor ao futuro incompreensível, a escola que gerará escolhas, ao dia em que nos tornamos capazes de preparar o próprio lanche.
Fica como marca de memória e de vida o amor ao cheiro de merendeira, ao futuro sem mágoas sufocantes, a um estado de viver de ternura e cuidado, que por ser assim, e só pode ser assim, deixa o legado da esperança e da futura tolerância que irá abrir espaços quando o coração quiser endurecer.
Trouxe em um saquinho 3 maçãs e uma banana e ao abri-lo veio um cheirinho dos meus cinco anos.
Recebi. Esse presente de um passado que não volta mas retorna na memória só depois de ter sido percebido por um sentido qualquer. A percepção que nos conecta ao mundo de fora nos retorna ao de dentro e nos leva a nossa íntima viagem interior. Fui à escola daquela época, lembrei de um sorriso que realmente não sei a quem pertence. Talvez a mim, talvez a minha mãe. Sei que ele deve ser de algum lugar do feminino.
Vieram as esperanças no futuro. O cheiro da merendeira é o cheiro do meu futuro.
E se hoje cheguei ao futuro, como sinto isso tudo, esse retorno ao passado inesperado?
(A lembrança foi maravilhosa.)
Eu deduzo que aos cinco anos já reconhecia que o futuro só seria possível se houvesse uma merendeira junto a mim e ao meu percurso junto à escola. Só o significado de um lanche dá sabor ao futuro incompreensível, a escola que gerará escolhas, ao dia em que nos tornamos capazes de preparar o próprio lanche.
Fica como marca de memória e de vida o amor ao cheiro de merendeira, ao futuro sem mágoas sufocantes, a um estado de viver de ternura e cuidado, que por ser assim, e só pode ser assim, deixa o legado da esperança e da futura tolerância que irá abrir espaços quando o coração quiser endurecer.
terça-feira, 11 de agosto de 2015
Itália
Volto da Itália dia 5 de agosto. Portanto, hoje faz uma semana que, maravilhada, deixei a Itália.
Foi fantástico pegar o avião, ter um pequeno ataque de pânico ao decolar e estar à janela onde o piloto fez sua máxima inclinação e me permitiu naqueles minutos infinitos, ter a certeza que minha vida ficaria lotada naquele solo italiano.
Ah, eu decolei...! E cheguei ao Charles de Gaulle aliviada por estar em...Paris! Quanta felicidade...ter vivido dias na Toscana e em Veneza e posar em terra francesa! Comi massas maravilhosas, cheirei,( sem querer, é claro), suvacos peçonhentos, tomei sorvete italiano e café italiano e sob o sol da Toscana e de Veneza me lembrei muito de Bangu. Senti saudade dos motoristas de táxi do Galeão ao pedir informações em Florença, lembrei com carinho dos funcionários do Detran enquanto tentava me localizar nas ruelas de Veneza e apelava aos cidadãos locais para me ajudar.
As filas de táxi ao desembarcar em qualquer cidade também me deixaram comovida. Os europeus faziam questão de não facilitar em nada a vida dos idosos e dos adultos com crianças ( também tive a oportunidade de conviver com europeus em geral durante uma semana em um navio italiano). Eles também fazem questão de passar na sua frente e furar todas as filas possíveis, especialmente os franceses.
Então, quando eu desembarquei no Charles de Gaulle, me senti finalmente acolhida e acarinhada pelos parisienses. Lindo. (É preciso ter vindo de um lugar muito punk para respirar aliviado por ter chegado a Paris por esses motivos!)
Não consegui ( e é sério), encontrar nenhum homem bonito na Itália. Eles eram tão cavalos, tão ogros e mal educados, e além disso o calor era tanto que sinceramente, não sobrava espaço. Não consegui ver. E olha que a fama é mundial.
Mas quer saber? Massas? A maioria é ótima, mas nada que não encontremos em bons restaurantes em qualquer capital do Brasil. Café e sorvete idem. Pão? Nada demais. Pizza? Nem todas são boas. Queijos e vinhos? São bons. Saudade do feijão e arroz e farofa e saladinha...
Mas sobretudo saudade de tudo o que é nosso foi o que eu senti. E nosso no sentido da brasilidade que tudo mistura e integra. No melhor sentido brasileiríssimo embora os últimos tempos tenham construído uma parede de sentimentos desagregadores e excludentes que aos olhos da história sempre foram nossos. Mas também é bom que falemos justamente das boas características nossas e nesse quesito mistura, somos campeões.
A saudade é do jeitinho brasileiro bacana, aquele que mistura o gingado à cultura e livra da esperteza do um sobre todos e o transforma em menos um se assim for preciso.
Deu saudade foi do nosso interesse pelo outro que aqui chega e que costumava trazer as boas novas lá das europas, daquela gente aculturada e de onde o mundo se fez mundo muito antes deles aportarem por aqui. Afinal, faz apenas 515 anos que essa terra foi invadida, por eles.
Os europeus são os verdadeiros bárbaros do mundo que assolaram a terra com seus modos superiores de colonização. Devastaram a África e agora querem que seus habitantes sejam muito felizes por lá. Eles barbarizaram tudo o que tocaram em solo alheio, com excessão das terras escolhidas para fincarem suas bandeiras.
Eu entendi melhor o funcionamento do mundo com essa viagem.
É realmente triste que o brasileiro se sinta tão estrangeiro por aqui e idealize tanto a terra de seus antepassados, perdendo tempo precioso em desqualificar seus conterrâneos e perpetuando a mente colonizada e eterna e infantilmente insatisfeita com seu país, antes de verdadeiramente buscar compreender sua história, única, como é a história de todo país ou pessoa.
Foi fantástico pegar o avião, ter um pequeno ataque de pânico ao decolar e estar à janela onde o piloto fez sua máxima inclinação e me permitiu naqueles minutos infinitos, ter a certeza que minha vida ficaria lotada naquele solo italiano.
Ah, eu decolei...! E cheguei ao Charles de Gaulle aliviada por estar em...Paris! Quanta felicidade...ter vivido dias na Toscana e em Veneza e posar em terra francesa! Comi massas maravilhosas, cheirei,( sem querer, é claro), suvacos peçonhentos, tomei sorvete italiano e café italiano e sob o sol da Toscana e de Veneza me lembrei muito de Bangu. Senti saudade dos motoristas de táxi do Galeão ao pedir informações em Florença, lembrei com carinho dos funcionários do Detran enquanto tentava me localizar nas ruelas de Veneza e apelava aos cidadãos locais para me ajudar.
As filas de táxi ao desembarcar em qualquer cidade também me deixaram comovida. Os europeus faziam questão de não facilitar em nada a vida dos idosos e dos adultos com crianças ( também tive a oportunidade de conviver com europeus em geral durante uma semana em um navio italiano). Eles também fazem questão de passar na sua frente e furar todas as filas possíveis, especialmente os franceses.
Então, quando eu desembarquei no Charles de Gaulle, me senti finalmente acolhida e acarinhada pelos parisienses. Lindo. (É preciso ter vindo de um lugar muito punk para respirar aliviado por ter chegado a Paris por esses motivos!)
Não consegui ( e é sério), encontrar nenhum homem bonito na Itália. Eles eram tão cavalos, tão ogros e mal educados, e além disso o calor era tanto que sinceramente, não sobrava espaço. Não consegui ver. E olha que a fama é mundial.
Mas quer saber? Massas? A maioria é ótima, mas nada que não encontremos em bons restaurantes em qualquer capital do Brasil. Café e sorvete idem. Pão? Nada demais. Pizza? Nem todas são boas. Queijos e vinhos? São bons. Saudade do feijão e arroz e farofa e saladinha...
Mas sobretudo saudade de tudo o que é nosso foi o que eu senti. E nosso no sentido da brasilidade que tudo mistura e integra. No melhor sentido brasileiríssimo embora os últimos tempos tenham construído uma parede de sentimentos desagregadores e excludentes que aos olhos da história sempre foram nossos. Mas também é bom que falemos justamente das boas características nossas e nesse quesito mistura, somos campeões.
A saudade é do jeitinho brasileiro bacana, aquele que mistura o gingado à cultura e livra da esperteza do um sobre todos e o transforma em menos um se assim for preciso.
Deu saudade foi do nosso interesse pelo outro que aqui chega e que costumava trazer as boas novas lá das europas, daquela gente aculturada e de onde o mundo se fez mundo muito antes deles aportarem por aqui. Afinal, faz apenas 515 anos que essa terra foi invadida, por eles.
Os europeus são os verdadeiros bárbaros do mundo que assolaram a terra com seus modos superiores de colonização. Devastaram a África e agora querem que seus habitantes sejam muito felizes por lá. Eles barbarizaram tudo o que tocaram em solo alheio, com excessão das terras escolhidas para fincarem suas bandeiras.
Eu entendi melhor o funcionamento do mundo com essa viagem.
É realmente triste que o brasileiro se sinta tão estrangeiro por aqui e idealize tanto a terra de seus antepassados, perdendo tempo precioso em desqualificar seus conterrâneos e perpetuando a mente colonizada e eterna e infantilmente insatisfeita com seu país, antes de verdadeiramente buscar compreender sua história, única, como é a história de todo país ou pessoa.
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