“preciso ir porque vou indicar traqueostomia a um dos pacientes”.
Algumas de nossas partes psicóticas precisam estar razoavelmente ativas em uma pandemia. É necessário um grau de despojamento efetivo a respeito do sofrimento que ainda se encontra no outro uma vez que as chances desse sofrimento via a bater na nossa porta e entrar na nossa casa, tomar conta da nossa vida e realidade, atungindo um grande amor, existem.
“doutor, quero que as drogas cheguem ao meu pai. Se elas estão aprovadas não importa que ainda não tenham chegado ao Brasil, porque eu vou conseguir todas elas. Não importa se a eficácia não é grande. Vou fazer tudo.”
Não deveriam haver dúvidas de que somos movidos pelos nossos vínculos e que nada é maisimportante do que o que somos através deles.
“eu preciso mesmo ser intubado?” “então preciso antes ligar pra minha esposa e me despedir”.
Sim. É preciso entubar, mas principalmente em março de 2020. Em outubro já nãoera assim, e o oxigênio em alto fluxo modificou a indicação. Muitas vidas tem sido salvas desde então, e muitas pessoas não precisaram de entubação orotraqueal mais. Permaneciam no CTI, mas as condições evoluíram. Ninguém sai a mesma pessoa depois de ficar por semanas entubado em um CTI, e isso independe de ser Covid ou não. Mas há hoje muita, muita gente entubada.
Famílias inteiras chorando e sofrendo sem poder ver seus amados durante a internação, sem poder tocá-los, abraçá-los, passar a noite. Nada importa mais do que a presença pra alguém que está lá. E eles não tem a presença e não sabem se vão conseguir sair dali e de que modo.
Lidar diariamente com essas histórias e aos poucos, acompanhar as tragédias em algumas famílias de amigos próximos, super estimados, é uma barra. É impossível não viver afetado pela conjuntura, mas sendo médica, casada com intensivista, a crueza dessa realidade é absolutamente concreta. A abstração de jornais e leituras não torna a realidade escapável. É a presença da morte e da dor sem tréguas. É a realidade da perda que pode se aproximar de qualquer um de nós.
“Um senhor de menos de cinquenta anos chegou andando na emergência, fizemos a tomografia e ele saturava tão baixo que precisamos intubar. Ele olhou pra gente sem acreditar, pediu o telefone e ligou pra esposa: amor, vou ser entubado, é coronavírus.”
Dia sim, dia não, eu vou sobrevivendo sem um arranhão.