domingo, 29 de novembro de 2020

Parte das tragédias que não podemos mensurar

 “preciso ir porque vou indicar traqueostomia a um dos pacientes”.

Algumas de nossas partes psicóticas precisam estar razoavelmente ativas em uma pandemia. É necessário um grau de despojamento efetivo a respeito do sofrimento que ainda se encontra no outro uma vez que as chances desse sofrimento via a bater na nossa porta e entrar na nossa casa, tomar conta da nossa vida e realidade, atungindo um grande amor, existem.

“doutor, quero que as drogas cheguem ao meu pai. Se elas estão aprovadas não importa que ainda não tenham chegado ao Brasil, porque eu vou conseguir todas elas. Não importa se a eficácia não é grande. Vou fazer tudo.”

Não deveriam haver dúvidas de que somos movidos pelos nossos vínculos e que nada é maisimportante do que o que somos através deles.

“eu preciso mesmo ser intubado?” “então preciso antes ligar pra minha esposa e me despedir”.

Sim. É preciso entubar, mas principalmente em março de 2020. Em outubro já nãoera assim, e o oxigênio em alto fluxo modificou a indicação. Muitas vidas tem sido salvas desde então, e muitas pessoas não precisaram de entubação orotraqueal mais. Permaneciam no CTI, mas as condições evoluíram. Ninguém sai a mesma pessoa depois de ficar por semanas entubado em um CTI, e isso independe de ser Covid ou não.  Mas há hoje muita, muita gente entubada.

Famílias inteiras chorando e sofrendo sem poder ver seus amados durante a internação, sem poder tocá-los, abraçá-los, passar a noite. Nada importa mais do que a presença pra alguém que está lá. E eles não tem a presença e não sabem se vão conseguir sair dali e de que modo.

Lidar diariamente com essas histórias e aos poucos, acompanhar as tragédias em algumas famílias de amigos próximos, super estimados, é uma barra. É impossível não viver afetado pela conjuntura, mas sendo médica, casada com intensivista, a crueza dessa realidade é absolutamente concreta. A abstração de jornais e leituras não torna a realidade escapável. É a presença da morte e da dor sem tréguas. É a realidade da perda que pode se aproximar de qualquer um de nós.

“Um senhor de menos de cinquenta anos chegou andando na emergência, fizemos a tomografia e ele saturava tão baixo que precisamos intubar. Ele olhou pra gente sem acreditar, pediu o telefone e ligou pra esposa: amor, vou ser entubado, é coronavírus.”

Dia sim, dia não, eu vou sobrevivendo sem um arranhão. 


segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Tempos tempos tempos

 Meu último post falava sobre a sombriedade de ter o Brasil governado por Bolsonaro. É fato que é bastante vergonhoso que esse tipo de sujeito tenha sido elevado pelo povo à presidência da república. É um cara que eu jamais teria sido amiga ou teria convidado para vir à minha casa tomar um café. Ele é aquele sujeito que a gente tem vergonha e constrangimento de ter como vizinho; é um psicopata. Pois esse homem ganhou a simpatia de parte importante do país e conseguiu se eleger presidente. Um feito e tanto para alguém como ele, paranóico e burro. Só que é um burro que não deve ser tão burro assim. Ele aos poucos tem conseguido tudo o que quer. Proferiu os maiores absurdos e atualmente tem quarenta por cento de aprovação. Não tem nemhum projeto para o país além da própria reeleição. 

Se a economia vai mal, o desemprego é alto, as crianças não estão na escola, a segurança pública é ruim, o meio ambiente é danificado como nunca antes, há quase cento e cinquenta mil mortos pela pandemia, os ministros da educação e da família dizem absurdos e ofendem a população, eu devo estar ouvindo coisas que os quarenta por cento de aprovação do cara não me dizem respeito. Eu concluo que a história que está sendo contada à população que o aprova deve ser radicalmente diferente daquilo que eu interpreto, para dizer o mínimo. Ou a população o aprova porque também interpretou tudo o que escrevo aqui bastante diferente de mim mesma e de tamtos outros que assistem com perplexidade esse sujeito sem educação ou cultura presidir o país.

Mas esse é o ponto. Sujeito sem educação e cultura. O povo ama. Eu vivo em um país com vocação para populistas com os quais o povo se identifica. Às vezes sinto precisar respirar fundo para acatar essa realidade dolorosa. O Brasil real é muito distante dos centros urbanos do Rio ou São Paulo e suas universidades. O Brasil real é muito mais parecido com Bolsonaro e Lula. 

Triste e óbvia constatação.

São apenas políticos, homens.

Ai, que cansaço esses psicopatas profissionais causam! E quanto prejuízo moral trazem à uma nação.

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Infelizmente, tempos sombrios

 Sobriedade como saúde e vinhos como platitude.

Aqui no Brasil já são mais de 135 mil mortos pela Covid-19. Bolsonaro ainda é o presidente, o que me envergonha em profundidade nunca vista sentida antes. O homem é um absoluto psicopata. Mente diariamente, adora a morte, despreza tudo o que é bem vivo e de alguma luz, cercou-se de um sé quito de gente que parece ter perdido o juízo cognitivo mínimo. Foram tantos e tantos os absurdos desde o início do mandato que dá até nojo de comentar. No carnaval do ano passado publicou um vídeo de conteúdo inominável. Naquele momento a doença mental desse sujeito ficou totalmente clara pra mim. Eu não imaginava o que viria depois... exaltou o golpe militar de 1964 incontáveis vezes, humilha o Brasil internacionalmente ao ser um vassalo de Donald Trump e nos colocar como nação em uma posição de inédita subserviência. Profere discursos na ONU impressionantemente paranóicos, acusando índios e caboclos pelas queimadas que seu governo promove na Amazônia e no Pantanal, ao destruir minuciosamente os órgãos de fiscalização através de seu ministro sociopata Ricardo Salles. No ministério da família, uma mulher que nunca se casou e vê lesbianismo na personagem Frozen da Disney, defende gravidez em meninas de 10 anos estupradas, em nome da vida. Essa gente só ama os embriões, segundo eles, vida! Mas desprezam as onças pintadas queimadas vivas no Pantanal, os povos indígenas, a fauna, a mata...só os embriões tem vez nesse governo insano. O secretário de cultura, um ator inexpressivo chamado Mario Frias, veiculou uma peça de propaganda tão, mas tão medíocre, que nem vale a pena comentar. O país de Tom Jobim, Machado de Assis, Raquel de Queiroz, Clarice Lispector, Villa Lobos, Vinicius de Moraes, Mario de Andrade, João Gilberto, Pixinguinha, Fernanda Montenegro, entrega como propaganda um vídeo que somente alunos medíocres de algum colégio seriam capazes de elaborar. O ministro da economia faz propostas indecentes e elitistas, declaradamente elitistas. É sincrônica a Bolsonaro no nível da grosseria.

E nada disso é o pior. Em plena pandemia, esse despresidente demitiu dois ministros da saúde, e nomeou um general ( que não pertence à área da saúde), para o ministério da saúde. Somos o terceiro país do mundo em número de mortos, fruto do desprezo claríssimo do presidente pela pandemia. Ontem proferiu discurso na ONU culpando os governadores e prefeitos pelo resultado. É o presidente do mimimi. Um incompetente absoluto, um irresponsável doentio, um louco com método a destruir parte do que construímos de positivo como nação.

Eu não falei tudo. Mas eu volto.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Pandemia 2020

Eu realmente não acredito ainda que nada escrevi esse ano.
Mas estamos em plena pandemia de Covid-19, o novo coronavírus.
Desde o dia 14 de março estamos em casa e não vimos mais ninguém da família. Só nós mesmos.
Estamos no Brasil 2020 com o sr. Jair Bolsonaro presidente da república. Um ser humano que não deveria levar o adjetivo humano ao se falar dele.
Tudo tem sido da ordem do inacreditável e inimaginável, desde o direito de se infectar do Paulo Guedes, ao não-adiamento do Enem que somente foi adiado devido à pressão da sociedade. Uma instabilidade política criminosa. Oficialmente quase vinte mil brasileiros mortos. Bolsonaro indo às ruas incitar a população contra o isolamento. É tudo na verdade, de uma ordem de grandeza impossível de colocar em palavras.
Nos EUA, quase cem mil mortos.
Tempos sombrios por doença e por mentes psicopatas estabelecidas na política. Tudo nú e cru, sem rodeios.
Sigamos.
Apenas um dia em meio à pandemia.
Um mundo diferente.
Um mundo oficialmente doente.