Quase dez da noite. Felizmente não preciso ir para o Pedro II amanhã. Não faço isso há pelo menos trinta e cinco anos, mas foi o que me veio à mente em um primeiro momento, o que apenas prova a mim a inexistência do tempo como motor do pensamento, essa teia entre a memória, o passado, as emoções, as saudades. Já devo ter escrito em algum lugar que eu me considero alguém que deambula em saudades. Sou aquele conjunto de carne, osso e sangue carregadora de lembranças de saudade. Eu sou basicamente uma transportadora de memórias que utiliza essas memórias como ferramenta de trabalho.
Se chego ao final do fim de semana e penso ser bom não precisar ir ao colégio amanhã, logo me vem à lembrança uma enxurrada de memórias de um passado cujo tempo torna-o cada vez mais distante e opaco, e ainda cujas emoções ligadas aos fatos cristalizam-se em razão da mesma passagem temporal. As cenas antigas que por ventura até me traumatizaram foram transformadas em um filme que não mais me desperta fortes emoções. Já vi e revi várias vezes, e as mágoas e as dores foram colocadas em seu lugar de lembranças de um passado, repleto de momentos fantásticos e por isso, inesquecíveis.
Um dia eu acreditei que o que doeu não me fazia esquecer. mas o que não me fez esquecer, de verdade, foi porque doeu ao roubar minha alegria, naquele dia, naquela hora. Era ruim mas não definia a minha vida. Minha vida era na realidade daquele cotidiano do subúrbio, o pão francês fresquinho, as brincadeiras na rua, as festas juninas, o carnaval no coreto fantasiada com uma roupa feita pela minha mãe, era pintar a rua esperando a copa do mundo, era ensaiar quadrilha, brincar na rua com meus amigos de infância, esperar pelo doce do fim de semana, tomar sopa de siri com meu pai, passar as manhãs com a minha mãe, subir à casa da minha avó, andar na rua Vera para comer pão com requeijão na vovó Maroca, compartilhar as ceias de Natal nas casas dos vizinhos, dançar na discoteca Periquitos do meu pai, ouvir Rita Lee e Maria Betânia, combinar festa americana, pegar doce de Cosme e Damião, comer pizza de sardinha da Igreja Nossa Senhora da Glória, tomar banho na piscina de cisterna, gravar fita das músicas da rádio Transamérica, ouvir Carpenters, The Smiths, James Taylor e Legião Urbana, ir nos fins de semana à praia de Copacabana com o Zé, ir à Santa Tereza visitar o Geraldo e a Eliana, brincar com o meu irmão, tomar sol com a minha mãe, assistir filme domingo à noite com o meu pai.
Essa foi a minha vida, e é ela que faz essa ressonância de todo o resto. Foi por essas lembranças que eu precisei sentir todo o resto.
Mas na conta final, só dá ela.