terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Nova doença mental

Há nova doença em voga.
"Fulano não está bem."
" Por que?"
"Ele andou falando umas coisas estranhas."
"como assim?"
" Falou de suas mágoas, de suas dores, de raivas passadas, de sensação de perda. E disse que a velhice da tia não justificava aquele mau humor porque ela  foi mau humorada a vida inteira."
" Então ele só falou verdade. E o que sentia também."
" Não deve estar nada bem. Afinal, não vale a pena lembrar dessas coisas e criticar a tia idosa. "
" Então o que vale a pena fazer?"
"perdoar"
" Mas como vem o perdão?"
" Talvez eu não saiba."
" Você não pensou em entender Fulano. Você o criticou por ele dizer o que sente."
Dizer o que sente virou doença. ( e não vamos aproveitar o gancho para confundir com falta de educação, ok?)

Falando de desamor

Falar de desamor e não de amor?
Será porque o desamor está em moda e o amor está em espera para quando o carnaval chegar?
Será porque os atentados em Paris feriram muito mais aos que ficaram do que os que se foram?
Será porque a lama que dizimou Bento Gonçalves também extinguiu parte de minhas esperanças e as mortes de humanos, bichos, rio, água potável  também mataram a mim um tanto?
Será porque a nossa câmara dos deputados e o nosso senado envergonha mais a nação do que a representa?
Será porque a Vale do Rio já não é mais doce?
Será que é porque 400 bilionários norte-americanos detem o equivalnete ao PIB do meu país e isso não é considerado uma vergonha e sim sucesso e talento?
Será porque o Brasil possui hoje apenas 3 grandes bancos privados em uma era pós-capitalista e isso que é a própria contradição do capitalismo funciona e assume nos tempos de hoje nossa revelação de desumanidade?
Será que é porque a floresta amazônica vem sendo devastada e os índios perdem seus direitos frutos de herança direta sobre a terra?
Será que é pela falta de sistema educacional públicco de qualidade que vigora há décadas em nosso país?
Será que é pelo descaso secular para com os mais pobres relegando a esses serviços de saúde de péssima qualidade? Ou seria pelo descaso obsessivo com o sistema de transporte que os servem?
Será pelas mortes de jovens e crianças pelo fato de serem pobres, negros e moradores de favelas, em números alarmantes?
Será pela epidemia de microcefalia por vírus zika devido a progressivos anos de descaso com o mosquito da dengue e com a saúde pública?
Será pelo fechamento dos hospitais públicos estaduais por falta de pagamento aos médicos, profissionais de saúde e funcionários?
Será pela crise hídrica?
A abundância de problemas não pode exceder em desamor. Mas as questões que cercam especialmente a nós brasileiros tem produzido medo e desesperança, além de nos colocar frente a frente com a inegável perda de ilusões. Perder ilusões amadurece. Mas a realidade sem sossego persistentemente embasada na desconfiança, no desapreço, na desordem e em maus resultados tem o poder de retirar a poética em boa parte do mundo.
Resistir nunca foi tão necessário, creio já terem dito muitas pessoas em muitas crises.
Hoje a crise do homem é a crise da Terra, é um certo epicentro do desamor, e todo desamor desama e não ama melhor, não vive melhor, só desanda a vida, só desencanta.
Não é nada fácil escrever desgraças e preencher parte do meu dia com fatos ruins. Mas faz parte de mim não negar a realidade.
E faz parte também de uma outra necessidade, a do desabafo por expressão, e se escrevo para mim é porque tenho a esperança de ser lida. Porque compartilhar o desabafo mantém unido em mim meu sentimento de humanidade e pertencimento.

Para que a alegria?

Ao me desconectar mais, me conecto mais. Ok. Eu já sabia.
Mas essa é uma semana especial. É a semana de Natal. É a semana que eu aguardava ansiosamente quando eu era criança. Porque era a semana em que eu sabia que a festa viria, as comidas gostosas, os presentes, as vinhetasa de natal da Globo, com seus artistas falando a respeito de esperança, da alegria de viver. Eu me enchia de esperanças e não me atormentava com o futuro. Para mim, a alegria no futuro era certeza. E assim, eu desenhava o futuro já proclamado no presente. Afinal, um mundo tã radiante quanto aquele em que eu vivia só poderia guardar para mim alguma coisa melhor ainda nos próximos verões. Meus verões eram os de quarenta graus, os das chuvas pós sol e das tormentas brancas e azuladas. Nós tomávamos banho de chuva, e minha mãe com a gente, eu e meu irmão, e acho que meu pai também participou algumas vezes. Maior alegria do que essa? Difícil. Alguém poderia me indicar uma situação mais feliz do que um banho de chuva com o irmão e os pais depois de um dia lindo de sol e calor? Some a isso, o desconhecimento das dores de viver. Claro, eu me refiro a uma infância onde essas lembranças encontram-se certamente presas a uma malha de idealização, mas que por isso mesmo me manteve ligada, e aqui não aprisionada, a um potencial estado de alegria que nos é bastante fundamental para qualquer futuro.
Logo depois o sol voltava, e nós partíamos para as brincadeiras noturnas, o pique-esconde, o pique-bandeira, o anelzinho, o pique-fruta, o pique-alto.
Para que o adulto creia que sua vida vale a pena é preciso que sua infância tenha valido. Ao entrar em contato com a alegria do compartilhar a brincadeira e da não-finalidade do propósito, a criança experimenta o prazer do descompromisso. Passaríamos então a de algum modo, perseguir esse objetivo. O objetivo da alegria pela alegria. A alegria do amor dos pais e dos irmãos. Essa alegria insubstituíve a não-subjetivar. Porque é ela quem subjetiva o resto.
E o resto é não só o que resta, mas aquilo que se perde em meio à relíquia, a alegria que os franceses tão lindamente expressam com o joie de vivre.
Em tempos mais difíceis que o comum, após anos de supostas bonanças, é muito importante recordar nossas relíquias.
Há uma necessidade maior de despertar a esperança em tempos ultra modernos, violentos e
superficiais.
Eu tento e sigo com minha alma desperta na alegria e sempre dormente na tristeza. Sem saber o que virá, estoco em minha mente não o vento, mas a rima que porventura acalente e renove o meu coração.
Ficou um pouco brega. Mas gostei.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Feminina

"Sou feminina, não sou feminista."
Grande coisa. Isso sim é mimimi.

Não tá a fim de levantar essa bandeira, tudo bem, mas não atrapalha, vai...

Se você hoje toma pílula, decide quando engravidar e pode ficar com a guarda (compartlhada ou não) dos seus filhos se decidir se separar, é porque mulheres lutaram por isso muito antes de você existir.

Se hoje você olha para esses movimentos e não se identifica neles, é porque os que vieram antes desses foram suficientes para você hoje viver com dignidade. Que bom.
Então que seja por uma simples gratidão ao passado que sua fala boba não distorça e não confunda outras mulheres. Só por isso.
Porque ser feminina é acolher, respeitar, amar e entender que não estar de acordo com o grito de milhares levanta uma interrogação, e não uma certeza.

Impeachment e impedimentos

São muitas as novidades o tempo inteiro e não dá tempo de respirar. A bruxa tá solta.
O Brasil, outrora país abençoado por natureza, sem desastres ambientais até há bem pouco tempo atrás, já não é mais o mesmo.
Cinco anos após nossa tsunami de rio na região serrana do Rio de Janeiro, vem o desastre de Mariana, a maior tragédia ambiental do país. Dois dias depois de Mariana, Paris sofre ataques terroristas inéditos e com maior número de mortos da história. E em meio a tudo isso e desde sempre, crianças e jovens negros e inocentes são exterminados em suas comunidades pela polícia. Duas semanas após as  tragédias de Mariana e Paris, Eduardo Cunha, pessoa que reúne as mais baixas qualidades que um deputado poderia ter, aceita o pedido de impeachment da presidente Dilma.
Por um lado, nada mais coerente do que um rato iniciar um processo de impeachment para uma presidente que governa com inúmeros ratos ( mas nenhum do quilate do presidente da Câmara), e que além disso, também possui qualidades de ratazana. Os ratos anteriores aos do PT, ( e os do PT que se diziam santos e nada mais são do que igual a todos os outros e se lambuzaram diante do poder), ficaram muito chateados quando barbudos, e gente com cara da periferia passou a ir às festas sem convidar os ratos dos quinhentos anos de poder. Que cansaço escrever isso!
Seguindo o raciocínio, a situação é de plena coerência porque  ratos se devoram. É assim que acontece.
No entanto, essa profusão de novidades não nos dá muito tempo nem para entender, às vezes, o mínimo. Ficamos com a sensação de caos, de medo, de horror, de não-entendimento.
Mas a vida não deixa de ser um ato contínuo de resistência e caminhar é preciso e entender nunca foi tão impreciso.
Nunca não gostar de um governo e reconhecer algum  mérito em um impeachment foi tão confuso, pois o encaminhamento do pedido é fruto de uma vingança pessoal e de um jogo de poder de uma vileza nunca antes vista. Tornou-se muito difícil ter uma opinião, pois ser a favor de um impeachment pode significar piorar mais ainda as coisas e se posicionar ao lado do menos pior quando esse por si só é péssimo, nos coloca em um lugar de um desconforto e mal estar quase insuportável.
Acredito que quando as coisas chegam a tal ponto de tensionamento interno e por um lado estão felizmente fora de nosso alcance, talvez seja chegada a hora da piada e da risada, quase da zombaria. Vou fazer parte da ignorância que consola e me conscientizar de meu limite como cidadã incipiente no processo, uma expectadora desse espetáculo de baixeza, de um momento político sem honra alguma, de um período de esvaziamento político e moral como nenhum outro. Mas afinal, o que poderíamos esperar de um país de duzentos milhões de habitantes com o nível educacional que temos? Qual o nível afinal de nossas discussões? Qual o congresso que teríamos após vinte anos de ditadura e um projeto político de desmantelamento da educação por mais vinte anos ao menos? (excetuando aqui as políticas inclusivas, que embora de baixa qualificação, permitiram o ingresso de pessoas que jamais tiveram acesso à educação).
Para um país de milhões de miseráveis e que secularmente se habituou às mais incríveis privações de direitos e igualdades, as pequenas migalhas de um período de governo fizeram muita diferença. E as chamadas elites precisam reconhecer que séculos de exclusão produzem miséria real para o todo.
É um saco aguentar toda essa campanha política na mídia contra o projeto de poder do PT que a si próprio se devorou.
Por isso é tão difícil se posicionar. Mas como viver não exige posição a todo e qualquer custo e ainda podemos negociar ao menos com nós mesmos o preço que teremos que pagar por essa exígua liberdade de não ter de aderir nem a um projeto nem a outro, recolho-me à minha irrestrita liberdade de pensamento em meus pequenos refúgios e celebro a vida como me for possível.
 Entre os prazeres, aproveito para beber meus vinhos ainda não sobretaxados pela Dilma.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Reduzido, invisível, explosivo

Quando o ser humano é reduzido a nada, e por anos a fio, seus laços culturais, familiares e nacionais são desprezados em função de um interesse financeiro, esse ser humano perde a razão de sua humanidade, perde a razão e a crença na civilização. Brutalizado, se desumaniza. Vira criatura de ódio e sua razão de ser passa a chamar-se vingança.
Essa é a história de quem perde a esperança e tem em si algum meio de direcionar sua libido a alguma forma de prazer. Aqui resta o poder e o domínio como únicos prazeres. Afligir dor ao outro que não comunga de seu ódio torna-se sua razão de ser.
A história contemporânea pariu essas pessoas quando elegeu o poder, o dinheiro e o petróleo como os combustíveis de sua alma.
Bestas humanas renascidas de uma vida de inferno e de uma índole de perversidade mas também de ignorância sem igual.
Essa é a gêneses do autoproclamado Califado e de todo ato terrorista, o ódio.

A maior dúvida

Existe pensamento absolutamente racional ou isso é impossivel?
Toda razão vem acompanhada de emoção?
É possível afinal responder a uma pergunta fortemente polêmica sem fazer uso de uma argumentação emocional? E não fazendo, continuamos humanos?

domingo, 22 de novembro de 2015

Domingo do Rio a Minas e Paris

Para a noite de domingo
Um gato na cama
Uma brisa fresca
Grilos cantando
Crianças dormindo
Silêncio na casa
Inquietude no coração
E amor também
E de um dia de domingo
Cantoria em família
Aniversário de 93 anos
Um vaso de flor como brinde
O sorriso e vitalidade dos 93
Crianças correndo
E o mais lindo de tudo foi o verde dos campos e montanhas tilintando depois de mais de um ano de estiagem
Eu ainda não posso terminar essa tentativa poética sem pensar em Mariana e na lama
Ainda não posso dormir ouvindo os grilos, sentindo a brisa e apreciando o silêncio sem pensar em Paris
E não pensar na doença que é a loucura de não aceitar a alegria e o prazer de viver do outro, dos outros
Vamos dormir todos com nossas boas lembranças de um domingo que muito valeu
Vamos sempre buscar poesia
Vamos pintar literatura
Vamos colocar flores nas janelas
Vamos alisar um gatinho
Vamos usar uma blusa colorida amanhã
Vamos todos testemunhar a vida e alegrar-mo-nos com ela
Vamos coroar nossos dias felizes com o espírito da tolerância
Vamos cantar
Vamos dar mais amor ainda
Vamos celebrar nosso mundo, nossa fantasia, nosso encontro
Vamos nos armar de desejo de viver.

sábado, 21 de novembro de 2015

Discordei do Dapieve

Gosto do Artur Dapieve  e de algumas de suas colunas em O Globo, embora não tenha lido muitas nos últimos tempos pois desconfio que a opção de DAPIEVI NOS ÚLTIMOS TEMPOS TENHA SIDO A DE DAR MAIS ATENÇÃO à música do que a outros temas.
Mas hoje fiquei feliz com  o título de sua coluna de ontem: " Sempre teremos Paris".
Porque sempre amaremos Paris. E teremos dentro de nós tudo o que amarmos para sempre. Não. Não é a história da Polyanna. É assim que guardo minha mãe e meu pai em mim, só como exemplos.
Mas Paris, ao contrário de meus pais, está viva. E linda e bela e de posse dos valores mais admirados pelo mundo que ama a vida: a liberdade, o vinho, a poesia, a literatura, a igualdade entre gêneros, e sim, a fraternidade que insistentemente jamais se transformará em uma fratura social. Para todos os gritos e intenções ao radicalismo que apenas aumenta o sentimento de exclusão, haverá mais franceses a lutar pelo contrário, mesmo que nesse momento eles estejam com medo e que transitoriamente venham a apoiar um grupo mais à direita conservadora. Não tenho dúvida, eles voltarão, pois serão capazes como nação de refletir sobre os próprios erros. Essa característica é admirável, e não faz parte de uma utopia minha. Faz parte da história da França.
Dito isto, preciso radicalmente discordar de Dapieve quando ele diz que em janeiro deste ano, muitas pessoas criticaram o jornal Charles Hebdo quanto às suas sátiras religiosas. Dapieve erra em dois pontos: chama esses críticos de patrulhadores do politicamente correto. Não somos. Não fomos. E sei que posso parecer arrogante ou presunçosa ao dizer isso, mas Dapieve comete um equívoco ao não discriminar as posições que criticavam essa atitude como posições não-contraditórias em condenar os ataques, mas criticar as ofensas ao Islã. Não há nessa atitude nenhum patrulhamento. Existe uma crítica. Existe uma opinião. Não há indulgência ao terrorismo praticado. Não há tentativa de justificar o ato de matar as pessoas. Existe uma crítica ao que o tema liberdade de expressão significa. Não acredito em liberdade de expressão sem reflexão, sem cuidado, sem dúvida. Desde que o mundo é mundo, nunca foi inconsequente tudo dizer. Aquelas mortes foram compreendidas como o resultado de uma criação de condições psicológicas favoráveis à loucura. Para a loucura, não há lei.
Não há defesa para eles em relação ao Charlie Hebdo. Mas fazendo uso da tão propalada liberdade de expressão, ouso dizer que aquelas charges são de mau gosto, absolutamente desrespeitosas, desnecessárias. Não acredito em liberdade de expressão que ofende tiranicamente a fé alheia, a mãe alheia, o pai dos outros, a feiúra de alguém, a sexualidade de outrem, a pobreza de muitos, a riqueza de poucos, ou seja lá o que for. Simplesmente a minha liberdade de expressão não se sobrepõe ao pedido de quem quer que seja ao me dizer:" Não diga isso. Você me ofende." É preciso parar. Porque o meu desejo de rir da cara do outro não se encontra acima de ninguém. Desculpem humoristas, piadistas, jornalistas... que tanto me fazem feliz e a milhares de todos nós, mas o seu protagonismo e talento não importam mais do que o direito de alguns grupos serem respeitados. Na verdade, vocês não precisam disso. O talento é uma arma maior e melhor do que qualquer outra.
Sendo assim, não acho nada razoável que em nome do que quer que seja, o Islã ou qualquer outra religião seja ridicularizada com veemênia, intensamente, grosseiramente e repetidamente, como o Charlie Hebdo fizeram. Qual a linha então? Não é nada difícil não ignorar a justificativa para os advérbios utilizados. Basta olhar o jornal.
O outro ponto que identifico ter sido um erro de análise do Dapieve foi ele ter relacionado os ataques de janeiro e as críticas sofridas pelo jornal à época aos ataques de hoje e à possibilidade de que agora as pessoas que criticaram o jornal venham a ter seus pontos de vista reconsiderados. Não acontecerá. Manter o ponto de vista de crítica ao jornal Charlie Hebdo apenas demonstra o fato óbvio de que nunca houve contradição. Quem no mundo tem simpatia pelo Isis, meu Deus? Aquele grupo é insano, cruel, incapaz de dialogar.
Não, meu caro Dapieve, não há anomalia ou politicamente corretice em criticar as charges ignóbeis do CH. Se não formos capazes de separar o emocional envolvido em uma questão como essa, nunca entenderemos uns aos outros. Liberdade de expressão não pode ser um dogma. E ao defender aquelas charges como liberdade de expressão inscreve-se a ideia no rol de um radicalismo ideológico dos mais profundos, porque mais uma vez teremos um princípio regendo todos os outros. Nada mais religioso do que isso.
Quando a liberdade de expressão se coloca como a conquista civilizatória mais importante entre todas as outras, ela ignora as consequências de suas atitudes e passa a se justificar por si só. Não há nada mais radical do que isso. E isso, meu caro, é a justificativa utilizada por todos os fundamentalismos. Sentem-se tão acima de todos os outros, que nada pode ser questionado.
Quando dois fundamentalistas que se negam a dialogar se encontram, o resultado é a guerra total.
Agora, o desejo de guerra total chegou aos loucos armados de ódios infinitos ( e desejo de poder infinito).
Ou conversamos entre nós e decidimos deixar de lado nossas certezas para viver nossa alegria de viver, ou nos arriscaremos a apostar nossa capacidade de riso e alegria juntos aos mortos em vida que sabem que terão que morrer conosco para vencer essa guerra, pois como já disse Russel Brand, amamos mais a vida do que a morte, e eles amam mais a morte do que a vida. Pertencer ao ISIS já é estar morto em vida. Por isso, não tenho dúvida de que em meio a essa insanidade, precisamos manter nossa capacidade de diálogo e amor ao que de melhor nossa civilização foi capaz de construir: a palavra e seu mais profundo e maior significado, o de manter a construção de uma vida livre e democrática como a utopia essencial de suporte à realidade imperativa, brutalizada e sempre vital.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Rio Dor

Eu agora só desejo o não-entendimento.
O excesso de tudo já ultrapassou o todo e polui o meu meio ambiente, que não tem aptidão necessária para o conflito do mundo de hoje.
Ninguém estava preparado.
A avalanche não é só de lama, é de tudo. O tudo é escasso, exclui o todo, viraliza lixo, esconde beleza, desencanta esperança, trafega quilômetros, mitiga devaneios, devasta poetas, chora o mundo inteiro.
Meu todo não dá conta, não fabrica certezas, não se prende a nada e assiste com uma passividade que fere a alma, tudo ao redor.
Foram os terroristas, foram o nosso eu humano que agiu ao longo do tempo para represar toda a sujeira do mundo, explodir violentamente e inundar de lixo tóxico a vida que abunda e esvaiece de podridão.
A morte do rio Doce é a metáfora mais verdadeira da vida e do mundo.
A morte de um rio é a mais perfeita metáfora da perversa moneteirização da vida.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Rede social

As redes sociais refletem com maestria o funcionamento da mente humana frente ao mundo coletivo. Redundante.
A capacidade de falar é gigante, a de ouvir, baixíssima.
Fala-se na rede social postando, comentando, escrevendo. Ouve-se na rede social lendo textos. E não menos importante, o sentido visual é dominante. Olha-se muito, fala-se menos (e quando a fala vem da própria escrita menos ainda), e ouve-se muito pouco.
É claro que muitos poderiam dizer que a rede social não se destina a esse tipo de comunicação. A qual destino ela se destinaria então? Será que nessa perspectiva não se encontra embutida uma indulgência diante da nossa cada vez menor capacidade de conversar? Afinal, se estarmos presentes e frente a frente uns aos outros encontra-se persistentemente invadido por telefones celulares e suas comunicações virtuais muitas vezes prevalecem ante a presença humana, estaríamos então fazendo o quê com a presença real?
Estamos emburrecendo e abandonando sem perceber nossa capacidade de pensar em prol do próximo post, do próximo clique, da próxima imagem bacana e da próxima tragédia cada vez mais próxima? (Saudade de sete dias atrás antes da tragédia de Mariana e a de Paris).
Os usuários adictos da internet e das redes sociais se defenderão de qualquer análise que coloca em questão seu novo vício, mas a maioria não lê mais um livro de verdade e é incapaz de permanecer em uma conversa por mais de uma hora sem olhar o celular. Sempre haverá um motivo, dirão.
Quanto maior for a conectividade virtual, menor será a conectividade real, presencial, pessoal. Quanto mais conectados, mais desconectados.
Essa hiper conexão e super informaçào de todos os lados prejudica o desenvolvimento de um olhar para o que vivemos mais concretamente em nossas vidas cotidianas, desloca nossos interesses, desacredita o mundo. Ganhamos o olhar e novas percepções de um sistema de divulgação de notícias ( mídia), cujas matérias são alocadas de acordo com interesses econômicos. Vivemos hoje o aprofundamento do paradigma econômico tão profundamente em nossas vidas, que não nos damos conta do que realmente importa. Como exemplo eu poderia citar o conceito de crescimento econômico como central no discurso hoje, como a nova verdade estabelecida. Mas antes de adotarmos esse discurso, não teríamos que nos perguntar o que é o crescimento econômico? Tocar nesse ponto é quase que o equivalente a questionar um dogma religioso. Difícil não ser atacado.
Faço a mea culpa. Não tenho medo da crítica, ( talvez por ter autocrítica). Porque também me pego mais tempo do que deveria na internet. Também sou desatenta aos meus algumas vezes em função da internet. É uma escolha minha. Mas não sou viciada e tampouco troco um bom papo por um celular. Também leio livros. Muita literatura é necessária para os momentos atuais.
Não podemos nos tornar desinterssantes uns para os outros. Precisamos estar atentos e fortes para tempos de lixo profundo na internet, para uma imprensa que tem como objetivo espalhar medo a fim de justificar mais controle sobre a vida privada e mais ganhos particulares, para um mundo violento globalmente e cada vez mais agredido e com danos permanentes em relação à natureza.
A união e a tolerância precisam prevalecer em meio a tudo isso, pois foram esses os valores que fizeram com que o mundo em meio a imensos turbilhões no passado, pudesse ingressar nesse século XXI acreditando nos valores que nos elevaram como civilização, e não naqueles capazes de concluir a nossa destruição.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Solidão

Solidão como território consciente da intimidade é incrível e talvez a maior e melhor sensação mais próxima ao que deve ser o que chamamos felicidade. No entanto, a solidão como "imperativo da realidade", é a mais atroz das experiências. De que valeria ter todo o dinheiro do mundo sem ter com quem compartilhar, sem ter alguém para amar? Para os narcisos, sem gente não é legal porque narciso não conhece a felicidade pessoal e intransferível , em geral narcisos só conhecem as satisfações momentâneas de suas fantasias de dominação. Narciso olha a mulher e pensa na conquista e então conquista e então desliga. Segue para a próxima. A próxima é sempre mais interessante. Ele é aquele que transa e dá uma olhada ou duas ou mais no espelho para se certificar se está bem na cena. São criaturas fascinantes do ponto de vista psicopatológico. Verdadeiros solitários, esvaziados, nutridos pelo vácuo de algum poder, às vezes de muito poder.
Aliás, acho que devíamos transpor O alienista para os dias de hoje. Todos dentro para saírem todos depois. Afinal, como a mentira não é mais mentira, nunca foi mentira e só a verdade salva e só a verdade perece, porque só a mentira aparece e praticamente nada acontece, que tal decretarmos e balizarmos o poder da psiquiatria e da medicina nesse momento? Será que a estrutura psiquiátrica e nossa inscrição de saber na medicina como verdade não poderia nos fazer um favorzinho e , como eles não chegarão às cadeias, será que não poderiam fazer um spa de alguns poucos anos somente, em um manicômio?
Bem... já que nossos narcisos políticos não reconhecem contas suas de milhões de dólares em um banco suíco, não seria caso de alienação mental? Não se trata de um delírio totalmente comprovado por milhões de brasileiros? Será que esse povo não merece uma assistência médica e psiquiátrica da boa, fazendo uso dos melhores antipsicóticos e indutores do sono e ansiolíticos, em doses plenas, para que eles tentem recuperar parte de suas sanidades?
Não é caso de intervenção psiquiátrica não, gente? Não. Para mau caratismo não há psicanálise ou psiquiatria que dê jeito.
Mas é só uma ideia.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Somos todas as mulheres

Minhas mãozinhas escorrem pelos meus cabelinhos algumas lágrimas de sono. Então eu encontro um rosto quente e depois de um tempo percebo que ele não é meu, e que os meus cabelinhos eram os cabelos da minha mãe que se misturavam aos meus. Eu sinto o seu corpo como um prolongamento de mim mesma e eu me angustio quando ela não está por perto. Meu corpinho pensa que o seu colo é parte do meu contentamento e eu me descubro em frio e em medo ao me descolar daquelas mãos que me embalam e me guiam no escuro daquele espaço que não sei nomear. É aos poucos, mas bem aos poucos mesmo, que eu percebo os meus pezinhos como seres independentes e sonho que os vejo quando estou acordada brincando com o arcabouço de pensamentos que invadem minhas preocupações no bercinho. Já ameaço chorar e então choro mesmo, porque as mãos que começo a reconhecer não serem minhas, ainda não estão de volta com aqueles olhos muito abertos e que parece espelhar a minha dor. Minha dor não é de fome, frio, sede. Minha dor só grita por companhia pois minha pequeneza apenas traduz parte muito pequena de mim.
Eu não sou assim mesmo, eu ainda não faço ideia do que eu sou, de quem eu sou. Eu sinto. Sentir é ser. E eu sinto o calor, o cheiro, o abraço forte, e então sinto que estar aqui é sinônimo de calor, de cheiro, de mãos, de olhar de mulher, de brilho de olhar de mulher, porque eu conto um início de vida feliz. Feliz e doloroso e inseguro e inédito e absolutamente incompreensível. Tudo me espanta. Tudo me arrepia, e somente o calor, o cheiro, o colo e o brilho dos olhos femininos são capazes de me assegurar de que está tudo bem até agora.
Eu sinto a angústia e o conforto. Mas ainda não conheço a alegria.
Porque a alegria vem do encontro, primeiro do lado de fora que ainda sinto ser dentro, e só depois e simultaneamente se configura e bem aos poucos vai indo e vindo, até eu conseguir entender o que é, o que eu sou.  Mas antes eu preciso do cuidado de minha mãe, cujas mãos demorei a descobrir que a mim não pertenciam, que a mim nada deviam, que eu brotei dela e a história dela veio antes de mim. Ai já começa a assimetria e eu posso reconhecer a impossível igualdade e antever o sonho da
igualdade que no horizonte não irá incluir meus desejos a menos que eu os inclua.

Mas até chegar lá será preciso realizar a travessia da fantasia à realidade, conjugar verbos imperfeitos e descobrir meu lugar no mundo como sinônimo de liberdade. E de dentro para fora primeiro.
Lá no meu desejo de alimentar os sentimentos e os sentidos de minha fome nasce o desejo do encontro que nasce da equívoca e responsável vinculação entre pessoa e criança, entre o afeto e o sem nome, entre aquilo que eu sou porque ela vem a mim para cuidar de sua consequencia desejável e desejante de um reasseguramento por ora infinito para que um dia, e que não seja muito longe esse dia, eu possa viver o desenlace possível e necessário à minha tão sonhada autonomia que me libera e liberta para sonhar os meus próprios sonhos.
Será imenso o caminho. Será intenso o percurso. Serão intensas minhas paixões e minhas relações como os muitos outros nascidos do toque, do olhar e do primeiro engano ao confundir meus cabelinhos com os cabelinhos de minha mãe, ao confundir minhas sensações com as dela, ao sentir meus pensamentos como os pensamentos dela, ao espanto ao decobrir esse não-pertencimento e essa
vinculação a perder de vista em meu pranto inquebrável, em meu desejo absoluto dela, em minhas
percepções encantadas e por isso entorpecidas de primeiro amor e paixão por ela.
Salvo outros casos, o primeiro amor vem da mãe, da confusão entre ser e não ser, da rede contínua e alternada de afetação, de sensação, de profunda inquietude vinda lá do fundo do desejo do amor infinito e irresponsavelmente eterno, da dor de não ser só isso para sempre, do fôlego dessa paixão avassaladora e invasora e invadida e que não deverá cindir, porque será a perdição.
Desse primitivo vir a ser e dessa experiência contraditória e imemoriável, vem os desejos mais intensos e seus segredos. Vem o desejo de independência e o ódio da dependência absoluta, fruto do gerar e gerado. Daí vem os ódios possíveis ao feminino poderoso, dono da vida e das primeiras buscas. Dono da irreflexão, do sentir profundo e dos maiores segredos.
O feminino é o senhor e a senhora do afeto no mundo. Não existe nada mais poderoso e nunca haverá. Não existe força tamanha à altura.
O feminino veio ao mundo antes da mulher e do homem.
Ele é o princípio do afeto no mundo e ele é quem conta a história dos homens no mundo.
O feminino é o idioma divino, é o ôde à criação, é a língua que falamos, é onde começa a revolução.



quarta-feira, 14 de outubro de 2015

A roupa nova da tirania

Ele amava e sofria por eles.
Ele era bom e inteligente.
Ele acreditou no inimigo, e com isso, olhava mais o outro que os seus.
Defendeu tanto a si e aos seus, que não percebeu que a sua fidelidade era alimento de predadores internos, e a sua fantasia realimentada por eles.
Quando percebeu, era tiranizado por nobres propósitos e desagregado por nobres sentimentos.
A sua libertação não ocorrera como supunha, era cada vez mais acorrentado às suas inquebráveis certezas.
Mas tudo ocorreu porque fora capturado por sua inteligência aprisionada pela desconfiança mãe do dogma e prima da religião.
Era irônico, porque ele que se dizia ateu, roeu até a serpente suas crenças. E propagou o medo e a esperança não-criativa, a filha do autoritarismo vestido de pai de todos e que já há muitos anos vem sangrando a terra através da batalha entre a certeza e a dúvida, que transforma a diferença em violência e guerra.
Assim, do amor a uma causa justa construiu-se o muro da verdade estratégica, aquela que serve, e jamais liberta.
Porque a sentimento de injustiça, lembremos, também nasce da experiência da violência, e quando vislumbra a resistência ao cotidiano e engana seus próprios propósitos, repete, às vezes de forma velha, às vezes de jeito novo, erros do passado.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Nova teoria da relatividade

Meu país está muito doente. Na verdade muitos países do mundo inteiro estão doentes.
Pensemos nas grandes economias, Estados Unidos, super louco. Ex-locomotiva do mundo e ainda comandante, mantém a venda irrestrita de armas a despeito de suas várias chacinas em escolas, universidades, empresas e igrejas. Em nome se um passado, não manda às cucuias um direito que muito mais tornou-se um revés do que qualquer coisa. Apesar de todas as evidências, mantém essa insanidade.
Vamos agora dar uma olhada na França, país onde todos falam francês...o que é muito chique..., país berço dos ideias de liberdade e igualdade, além da fraternidade, mostrando-se com poucas condições de hastear a bandeira da revolução aos diferentes. Vive um ódio em escombros, em deboche coletivo à francesa, uma ameaça real e permanente cada vez mais nascida lá mesmo depois de suas guerras em que subestimou e humilhou os povos conquistados. Bebe do próprio veneno, mas não perde a pose.
Em meio a esses pólos temos a Alemanha que após o vexame na segunda guerra mundial, decidiu tentar equilibrar-se em valores mais humanitários e contando com seu incrível potencial humano, tornou-se a maior economia da Europa. A Alemanha é sempre uma incógnita.
E tem a China, comunista, tem pena de morte, mas é bem quista por todas as economias capitalistas que adoram odiar Cuba. Parece que anda louca para mostrar seu poderio militar.
A Russia tem o Vladmir Putin, não precisa falar muita coisa. Basta lembrar que o Putin arma o Assad na Síria em mais essa guerra monstruosa. O mundo assiste a tudo sem dizer muita coisa. Segue com suas guerras.
Aqui em casa, no Brasil,a loucura também é plena. Ninguém mais sabe o que é verdade ou o que é mentira. Só sabe a verdade quem não tem dúvida alguma. Muito perigoso, pois o fascismo e suas práticas sempre vieram das certezas.
Aqui no Brasil o coelhinho da páscoa voltou e o papai Noel existe.
Tudo o que acontece é porque há uma elite malvada disposta a destruir um projeto popular.
Ai, que cansaço!...
Ai, que cansaço!

sábado, 3 de outubro de 2015

Está faltando o masculino

Muito se fala. Fala-se muito a respeito de muita coisa.
Mas falta o homem e o masculino no sentido da palavra, do significado, da ação.
Fala-se em falta de limites, em falta de palavra, em falta de legalidade.
Mas o feminino fez e faz seu trabalho de viver, e traz luz à vida, lança amor , ilumina a palavra, segue atento e luta, resultado de uma opressão histórica. Isso a gente já sabe.
Mas está faltando homem não no sentido fálico de ser, pois homem não é apenas um falo e se assim falo, é porque calar não tem mais vez.
Mas está faltando homem para dizer à bancada da bala que ser homem não é empunhar uma arma, e aquele que a desejar tomar, que venha a ser homem. Homem que é homem sabe que só pode segurar uma arma quem sabe usá-la. Homem que é homem não sai por ai defendendo interesse de empresas de armas.
Está faltando homem para dizer à bancada homofóbica que homem que é homem não faz legislação para separar as pessoas, e muito menos se incomoda com quem gosta de homem, seja homem ou mulher, porque homem que é homem gosta de ver quem se gosta junto e feliz. E não luta contra homem nenhum por motivo sexual.
Está faltando homem para honrar suas palavras. Para morrer por sua dignidade, para se indignar perante a vergonhosa injustiça contra os mais pobres e os do meio também.
Está faltando homem para dizer que vale a pena lutar.
O Brasil precisa entender Disparada de Geraldo Vandré. Aquela é uma canção de homem.
A mulher pode conter homem. E homem também contém mulher.
Eu desejo muito que nossos governantes, sejam do legislativo, executivo ou judiciário, sejam mais homens, sejam esses homens,  ou mulheres.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Perguntas básicas sem respostas evidentes para o novo século XXI:

1. Como as armas chegam aos bandidos?
2. Como as drogas chegam aos traficantes?
3. Como a Síria e o Estado Islâmico compram armas para manter uma guerra?
4. Quem são os maiores exportadores de armas no mundo?
5. Por que as balas perdidas são tão letais?
6. Quem são os maiores consumidores de drogas no mundo?
7. Por que a sexualidade continua a produzir tanta polêmica e tanta necessidade de repressão?
8. Por que o ex presidente norte americano George Bush ainda não foi condenado à prisão perpétua por crimes contra a humanidade?
9. Por que dialogar tem se tornado cada vez mais difícil em um mundo super conectado?
10. Por que tanta gente parece escolher odiar e acreditar somente em suas "verdades" a escutar o que o outro tem a dizer?
11. Por que os brasileiros se auto-depreciam tanto?
12. Por que as pessoas estão reféns da mídia em seus sentimentos?
13. Por que a mídia resolveu se especializar em se tornar "mensageira do apocalipse?" ( pergunta 13, esquisito...)
14. O mundo é mais parecido com o que está nos jornais ou a sua realidade necessita dessa visão de mundo?
15. Se nos convenceram de vez que o futuro está irremediavelmente estragado, por que valeria a pena continuar aqui então?
16. Estamos todos juntos ou é cada um por si?
17. O que você faz para melhorar o mundo em que vive? Faz algum trabalho voluntário? Procura se aprofundar em relação aos problemas da sua cidade? Paga bem aos seus funcionários, garantindo direitos trabalhistas e sendo respeitoso com as pessoas? Ultrapassa sinal vermelho? Fecha o cruzamento? Cumprimenta as pessoas? Sorri de vez em quando para elas?
18. Por que é tão fácil falar sobre a paz e tão difícil realizá-la em nosso microcosmo?
19. Por que é tão difícil falar sobre coisas tão difíceis sem ser chato?
20. Por que é mais fácil passar logo ao próximo post e não pensar na enorme velocidade com que o tempo tem passado se nem eu mesma consigo ficar muito tempo em um lugar?

Função do dia

Hoje eu acordei e via sol por detrás da cortina. Não é novidade, moro no Rio de Janeiro e o aquecimento global tem se encarregado de nos dar dias de sol e muito calor a maior parte do tempo, sem chance de sentir saudade ( do sol);
E bem de repente eu me pego a pensar: " hoje vai ser um ótimo dia pra brincar".
Quem disse isso? Eu disse.
Mas como assim? Eu sou adulta, muito adulta. Tenho 42 anos!
Se eu precisasse de provas, tinha ai a comprovação do inconsciente atemporal. Mas se eu quisesse a prova, eu não a reconheceria. Quem busca provas na subjetividade não acha evidências. Sempre haverá o sujeito cerebral a "ceticizar" a experiência do sentir e a valorizar o que enxerga em detrimento do que sente.
No entanto, antes da racionalidade dominar a minha consciência, o sentir adentrou o coração ( lá no sistema nervoso central, é claro - todo coração mora no sentir, e o sentir é registrado em várias áreas específicas do "cérebro", e é processado como pensamento no córtex cerebral, ou seja, transformado em símbolos através da linguagem, uma função superior em nossa espécie...). E quando o sentir invade a consciência antes do processo do pensar racional ou intelectual, temos a experiência sensitiva pura e simples, que pode se transformar ou não em um símbolo, ou seja, em um pensamento.
Quando não entendemos o significado desse pensamento, podemos viver a experiência da intuição, ou da fé, ou da alegria sem entendimento, ou da tristeza sem entendimento, ou uma experiência de ansiedade ou angústia. A angústia é a sensação física de uma dor psíquica que busca significado, ou seja, simbolização. Quando a mente não processa a experiência traumática ela se transforma em dor psíquica, em angústia. O corpo diz ao sujeito que sofre que necessita com muita urgência de compreensão, de um lugar para algo que de tão profundo não pôde ser pensado.
Nossa cultura e nosso mundo ocidental principalmente, busca transformar em lógica a nossa
experiência de viver. 
Como é bom deixar vir o desejo! Sem explicações, sem causas maiores do que a simples alegria de brincar. Para mim, por algum motivo que não sei, hoje é um dia bom para brincar. Mas eu aceito essa verdade mesmo sem saber de onde ela veio exatamente. Uma certeza eu tenho: se ela chegou sem racionalidade, ela deve vir de algum lugar em mim mais próximo ao que há de mais verdadeiro.
Lógica? Qual a lógica na vida? Qual a lógica na morte? 
A lógica só existe na matemática e a vida tangencia o infinito em matéria de explicação.
Como nos Irmãos Karamazov: " Deus nos deixou muitos enigmas".
Vou começar minha semana entendendo que eu preciso brincar. Que a vida sem explicação talvez me peça para que eu a beba em sua ausência de explicação, para que eu brinque ainda que o mundo diga que não. Para que eu a ame além das possibilidades.
Vamos levar nossos corações para brincar.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

E o tempo ainda é o de hoje, o único

Hoje acordei com o grito de macho dos machos do Bope.
 Explico: moro bem perto da sede do Bope, em Laranjeiras, e é muito comum ver os policiais daqui de casa assim como escutá-los no raiar do dia. Saem como guerreiros... gritam frases de efeito, coisas muito loucas e engraçadas, se não fossem verdade. Eles dizem coisas que exaltam a coragem e os objetivos de lutar contra os bandidos que encontram pelo caminho. Gritam bem alto às cinco da manhã. Eu acredito que ninguém reclame... sou vizinha do Bope... vou reclamar dos caras? Melhor não.
Aproveito essa experiência matinal e crônica para fazer uma espécie de interseção aos últimos acontecimentos aqui no Rio de Janeiro, onde arrastões acontecem à luz dos dias em finais de semana de sol, nas praias e também nas ruas. Parece inclusive que o arrastão no Humaitá foi uma reação a uma abordagem policial a um grupo de jovens pobres que vinham da zona Norte à zona Sul para irem à praia. Em sequencia quase, tivemos a agressão de jovens moradores de Copacabana a outros jovens que estavam dentro de um ônibus após sairem da praia, sem que esses jovens agredidos nada tenham feito. Se a polícia não chegasse, um rapaz de 17 anos teria sido linchado.
Há muitos anos o funk tem tentado cantar, protestar e chamar a atenção das pessoas para a realidade da favela. Basta ouvirmos "O rap do Silva", lindíssimo; ou " Eu só quero é ser feliz", ou o "Rap das armas", para nos aproximarmos um pouco daquilo que eles querem dizer e que é preciso ouvir. E ao nos aproximarmos, perdermos um pouco do medo que aprendemos a ter dos jovens pobres e expropriados de direitos muito básicos, como o de ir e vir em suas comunidades, sem o convívio frequente com a morte de amigos inocentes, ou algumas vezes nem tão inocentes, mas sumariamente desprovidos do direito de viver sem qualquer chance de julgamento (executados). Temos medo? Sim, mas não tenha dúvidas: os moradores das favelas tem muito mais.
Essa realidade faz parte de todo carioca, e cada vez mais, da maioria dos brasileiros, seja nas grandes cidades ou em cidades menores. O tráfico de drogas é um problema de saúde pública também, ainda que as pessoas insistam em mantê-lo dentro de uma esfera inócua de ilegalidade que apenas transforma o nosso cotidiano em medo e mentira. A quem interessa manter a criminalização das drogas e de seus usuários? Certamente a uma massa de gente que não conhece ou prefere ignorar a realidade, e que realmente acredita que proibições são capazes de coibir as pulsões humanas e suas necessidades, ou que, e nesse grupo encontram-se os reservistas morais, acham que sabem o que é melhor para os outros a partir de sua própria visão de mundo. Mas ok, essa é uma discussão complexa e esse não é o objetivo aqui, mas deixar de falar sobre isso produz uma ausência que não é exatamente o meu feitio.
O Rio de Janeiro, mais do que nunca purgatório da beleza e do caos, precisa se posicionar.
As coisas não irão parar por aqui.
Não adianta bloquear os ônibus diretos da zona Norte à zona Sul, Não adianta tapar o sol com a peneira. Todos estamos no mesmo barco, morrendo na praia também ao nos tornarmos cegos para a questão do tráfico de drogas e a desgraça que vem operando nas nossas vidas, cegos aos jovens pobres que são mortos e humilhados em seus cotidianos, e crentes em soluções ilusórias a respeito da segurança pública.
A segurança pública é fruto de um conjunto de políticas públicas. E a mais determinante é a educacional.
De que maneira essa juventude marginalizada ganha voz? Quais os significados, que temos o dever de  tentar descobrir, estão por trás de hordas de jovens que aterrorizam a população que não pode desfrutar de uma praia em paz? Não estariam nos dizendo que a paz para eles nunca existiu? Não existe uma denúncia que evidencia um sistema educacional incompetente e desinteressado de se tornar competente? Não evidencia uma tentativa de isolamento de grande parcela da população através de sua condenação à própria sorte? Qual seria o resultado desse histórico abandono?
Donald Winnicott em um texto lindo diz que a criança que rouba nos traz um pedido de esperança, porque ela também se sente  roubada. Ela pede ajuda. Como deve ser para esses meninos e meninas roubados de uma infância sem violência, muitos sem um bolinho de aniversário sequer ( nunca me esqueci dessa comparação fruto de histórias reais), olhar "filhinhos e filhinhas de papai  e de mamãe" bem tratados entrando e saindo de seus carros, em restaurantes, e assistindo a todo o apelo consumista ao qual estamos todos naturalizando... Como essas pessoas devem se sentir ao voltarem para suas casas? E ao voltarem, serem agredidas por esses mesmos jovens" bem tratados", como o que aconteceu em Copacabana no último fim de semana? E como eles se sentem ao serem revistados ao irem à praia? Para quem não sabe, a maioria vai revidar. Não porque tudo o que sentem é raiva, pois que  certamente  a humilhação e a tristeza são sentimentos concomitantes à raiva.
Para os que não sabem, a revolução francesa ocorreu devido ao abismo social entre as classes oligárquicas e os camponeses. Durante a revolução francesa o ódio foi tanto que mesmo as crianças e alguns bebês foram para a guilhotina, porque as lideranças da época não queriam que restasse ninguém mais " daquela laia", a oligarquia.
Aqui a história é diferente, claro. Mas manter a população pobre, que aliás é a maioria, nessa tentativa de isolamento através de uma força e um sistema policial que procura proteger a população branca moradora do asfalto, enquanto a população em sua maioria negra e pobre permanece dominada e calada em cotidianos brutalizados, possui eficácia, é claro, muito limitada. E vai explodir em algum momento. Aqui, a guilhotina é outra.
 Enquanto isso, permanecemos calados e anestesiados em nossos medos de lógica individualista, sem pensar em quem fornece as armas, na fome de olhar e de cultura e educação nas favelas, em quem protege o tráfico sob a máscara moral, e no grito desesperado dos moradores das comunidades pobres  dominadas pelo tráfico e pelas milícias.
São as soluções repressivas as que proporcionam o banho de sangue ao qual estamos habituados. Estamos? Claro que sim. Basta que o massacre aconteça do lado de lá. Porque ele acontece há muitos anos nas favelas. Mas só choca quando chega à zona Sul.
As pessoas precisam saber mais a respeito da fé pública da palavra da polícia que é suficiente para prender qualquer pessoa, e também sobre o poder do testemunho de reconhecimento, que sozinho também é suficiente como prova para manter alguém na prisão. Tem acontecido que as vítimas de delitos e crimes reconhecem muitas vezes, no calor da emoção, qualquer um. E o sujeito fica preso. É claro que toda a história muda se ele tiver como pagar um advogado. Pobres não tem, e ficam presos meses, às vezes anos, por essa prerrogativa policial que apenas serve em pleno século XXI para aqueles que vivem à margem da lei, do dinheiro, do direito, do direito de viver desde que nasceu, devido a um determinismo histórico.
É preciso estar consciente de que a polícia prende muito e de que somos o quarto país do mundo em população carcerária. E por que não, também tomar ciência de que quase oitenta por cento dos presidiários homens de nosso Estado  não possuem o nome do pai na certidão de nascimento.
É preciso de uma vez por todas fazer um esforço maior para compreender que a violência não é um fenômeno isolado, e que muito pouca gente escolheria ser bandido ou sair por ai fazendo arrastões à beira mar ao invés de aproveitar o sol e beber uma água de côco.
Esse ciclo de ódio precisa se tornar mais consciente pela população, que não pode se deixar influenciar mais e mais pelo medo, mas que é claro, tem medo.
A população mais abastada precisa se incomodar com as humilhações sofridas pelos outros. Os outros são muitos. Os outros é o outro. O outro é aquele que um dia pode sair de casa e transformar a vida da sua família em uma tragédia. E em mais uma estatística. Se esse outro não for olhado por todos como alguém importante, porque somos todos parte de uma mesma cidade, (e naturalmente, estou apenas expressando uma lógica e não falando de valores maiores do que isso), continuaremos todos a vivermos com medo e raiva uns dos outros. E ódio. Todos perdem.
Voltando ao início, eu não gostaria de ter que acordar com gritos de homens que necessitam amedrontar para se fazerem valer. Não seria preciso, em uma cidade ou um país onde não há guerra (?), que policiais ostentassem seus fuzis como armas de brinquedo ou com exaltação maior. Não podemos ter uma polícia que acorda se dizendo preparada para matar. Isso não é normal nem aceitável que se torne.
A população pobre precisa que olhemos para ela mais próximos ao que existe de mais verdadeiro: a realidade de que ela é muitas vezes mais vítima do que nós.
Vou terminar com uma frase que gosto muito e que esqueci o autor:
 " Se a paz não for para todos, ela não será de ninguém."



sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Para ser amado

Então hoje eu acordei ainda de madrugada. Não havia sequer amanhecido e a minha pungente alegria de desardomecer e de ouvir o canto dos pássaros me despertou para um dia que seria de muito cansaço, um dia da chamada preguiça, um dia em que a gente só queria ficar na cama deitado e levantar apenas para fazer aquilo que a fisiologia exigisse.
Não sei o que me despertou. Não sei o que me vem despertando há quase uma semana antes do amanhecer, mas às vezes funciono assim.
Então eu fiquei desperta quando queria ter sono o suficiente para permanecer dormindo, enquanto o meu corpo e cérebro pedia mais duas horas ao menos de sono reparador. Nada a fazer além de levantar.
Mas antes disso... eu fiz uma retrospectiva de toda a minha vida. Toda. Todinha.
Lembrei da casa onde nasci, dos apartamentos onde morei, da casa que retornei.
Tudo começou quando olhei para o meu corpo ainda deitado na cama e ele me levou para um corpo de muitos anos atrás, em que eu era criança e embora dona do meu corpo, ainda não era a dona da minha vida como sinto ser hoje. E observo que ser dona da minha vida não significa ser dona do meu tempo. E observo que acordar antes do sol nascer não significa andar adiantada. Talvez signifique a angústia de um tempo que passa mais rápido do que eu gostaria. Significa que eu não consigo viver tudo o que eu preciso no tempo que me cabe. e não significa que eu seja a pessoa de vida mais atribulada do mundo, ainda que honestamente eu não tenha tempo para nada... Talvez signifique isso tudo, a angústia de ter de viver também o indizível, o inaceitável, o mistério sem consolo, a vida em um tempo e em um espaço que agride a todo o momento, a vida em que teremos todos que conviver com a imagem do menino morto na praia de rostinho para a areia, todo vestidinho para viver, todo vestido de amor e de esperança, e morto na visão de um anjo que termina por matar a nós todos um pouco também.
Talvez seja isso. talvez seja muito mais o que me desperta quase em meio à madrugada. Talvez seja a tristeza com os rumos políticos de meu país após anos de esperança não somente em nossa vida macroeconômica, mas sobretudo em nossa possibilidade de cidadania e coletividade.
Voltamos a viver na esperança de reconstruir um estrago causado por nossa pura essência, a de uma nação que trafega pelo acostamento, aquela que não perdeu a oportunidade de pensar em como ganhar os próximos 5 anos, e não os próximos cem ou quinhentos futuros.
Talvez sejam essas coisas que me despertam ainda na madrugada, além da saudade que também me sai atropelando as emoções e cujo tempo ameniza mas não cura.
Eu vou acordar muito ainda, pois a cura para a saudade vem da esperança de ser amado sempre, e mais e mais. Por isso as pessoas sempre terão filhos. Filhos são ( mas não deveriam ser), a promessa do amor sem precedentes, a vinculação eterna, o sorriso e a nossa ressurreição. Através deles olhamos novamente as portas de nossa história e os caminhos por onde podemos reparar nossos próprios erros e ainda aqueles que sentimos que fizeram em nós.
Esse desejo irrefreável e que justifica a vida por si só é o desejo de permanecer no coração de alguém para sempre, é o reasseguramento inevitável, é o que nos devolve em casa quando adolescentes e queremos para sempre nos rebelar, quando adultos e de saco cheio das obrigações infindáveis, quando crianças e um estranho, fora ou dentro de nós, nos chama a sumir pelo mundo.
É essa a ligação de ser amado por alguém que nos faz cometer improváveis loucuras e previsíveis acertos. É esse desejo de solidão e a impossibilidade de vivê-lo que me retorna ao lugar seguro de sempre, seja a faculdade, seja a escola, a casa, os velhos amigos que já não me dizem mais. É o lugar onde eu lembro de quem eu sou, onde eu possa ter certeza de que sou amado ou de que de algum modo eu o seja.
É preciso sucumbir ao dilema para libertar-se do peso infinito de saber que não sei.
É preciso que eu entenda e sinta que eu preciso de muitas coisas para me sentir segura.
É preciso que eu entenda que viver é difícil mesmo, é complexo, e que não é possivel negar.
Mas não é preciso que eu descubra que o amar e ser amado é o que dá sentido à vida, é o que preenche o meu eu de auto-estima e é o que nos iguala a todos e nossa imprescindível e saudável sede de amor.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Essa será a semana da desinformação, a semana do menos é mais, a semana do desencontro com o outro do outro lado da lente e de um reencontro maior comigo.
Minha chegada às redes sociais foi tardia quando comparada a da maioria das pessoas. Estou no facebook há pouco mais de um ano, sendo que mantive a conta fechada por quase três meses esse ano. Havia cansado de tanta informação, tanta "falação", tantas opiniões, tantas certezas e palavras de encorajamento de outrem. Na verdade, é muito mais do que isso; é um mundo paralelo e perigoso também, pois existe uma captura de algo dentro de nós que ainda não conhecemos, e que é completamente novo inclusive do ponto de vista histórico e evolutivo.
 Muito se diz a respeito do quanto as redes sociais deram voz aos que antes não tinham espaço para se manifestar e o quanto milhares de pessoas passaram a despejar como uma espécie de esgoto seus sentimentos pejorativos a tudo o que não lhes agrada. De fato, isso me horrorizou.
A tônica da agressividade e o despreparo pela novidade apresentada a mim tomou-me em certa medida,  e também tive meus momentos de "raiva virtual", o que desencadeou em mim sentimentos de ansiedade sobre os quais eu julgava já haver resolvido. Mas como resolver algo que você nunca conheceu? A internet, como qualquer canal de comunicação que se abre, também abre em cada um de nós novas subjetividades, fazendo-nos deparar com novos desafios de linguagem que noscolocam frente a um paradigma completamente ansiogênico que é o da possibilidade de dizermos quase que instantaneamente aquilo que estamos pensando. Poucas situações podem ser mais perigosas e inconsequentes do que essa.
Vamos pensar.
Antes da internet, se fosse preciso nos comunicar com alguém de forma escrita fazíamos o uso das cartas. Se fosse alguma comunicação urgente, usávamos o telegrama, o qual continha poucas palavras.  A carta nos fazia ler e reler o que escrevíamos. Podíamos suprimir algum trecho ou reescrever, pois para postá-la precisávamos antes ir a um correio e tínhamos não raramente que
aguardar o dia seguinte ou a segunda, ou ainda, aguardar estar em um lugar onde houvesse correio,
que poderia ser só daqui a alguns dias. Tínhamos tempo para pensar no que desejávamos comunicar.
Os dias continham em si o significado do tempo da espera, pois esperar era parte da realidade de um jeito que não existe mais.
 Precisávamos aguardar chegar em casa para fazermos uma ligação para saber de alguém... Precisávamos torcer muitas vezes para que essa pessoa estivesse em casa naquele momento. Precisávamos criar condições de desejo dentro de nós para encontrar alguém e para esperar encontrar alguém. Mais uma vez o tempo e sua espera ecoava dentro da gente.
Os domingos eram silenciosos nas ruas e a maioria das lojas fechavam nesse dia. Tínhamos que esperar a segunda.
Não faz muito tempo, também era necessário esperar nove meses para conhecer o sexo do bebê. Nove meses demoravam... Havia espera. Quem desejasse saber se seu bebê estava bem e qual seria  o seu sexo sabia muito bem o que significavam nove meses.
Também houve um tempo em que era necessário esperar a lua de mel para se relacionar sexualmente
com alguém. A espera intensa e o desejo também.
Também posso facilmente lembrar da espera pela festa de aniversário, pelos presentes de Natal, pela
volta às aulas, pelas férias.
É claro que ainda há espera. É claro que ainda há desejo. Sempre haverá.
Mas é diferente. Toda a nossa percepção do tempo, da espera, do desejo de estar com o outro, mudou.
Todos os nossos encontros com amigos e familiares são hoje sistematicamente interrompidos por um mundo sempre conectado e que tem demonstrado cada vez mais dificuldades em não sê-lo.
Estamos perdendo muitos megabites de olhares e de conexões essencialmente humanas nessa dinâmica. Estamos perdendo a dimensão do tempo e da pausa de reflexão necessária antes de darmos nossas opiniões. Estamos nos perdendo ao estarmos mais preocupados em demonstrar nossas certezas através das redes socias do que ao entendimento da complexidade dessas novas relações que já nos tem roubado a dimensão do tempo, os olhares, e sem que percebamos, irá também roubar nosso desejo e potencial criativo se não formos capazes de redimensionar sua importância em nossas vidas.
Por essas razões essa será a semana da desinformação. Vou trazer mais para perto minha meditação, o
apreço ao silêncio, a negação das certezas, a inconclusão.
Vou aguardar não saber o que estarão pensando as pessoas nesse momento de duras certezas e incertezas políticas contido em um tempo que parece ter desaprendido a esperar.
Se não me for possível esperar e escutar os meus silêncios, não saberei mais se o que sinto, penso e escrevo refletem aquilo que se encontra mais dentro daquilo que sou e ecoarei talvez um grito que não é meu, não por solidariedade, o que sempre será legítimo e absolutamente necessário,  mas por indiferença pela precariedade de minha escuta interior, a única que é capaz de me revelar a única verdade que interessa. A minha. A de cada um.

Cheiros

Que delícia! Senti cheiro de merendeira!
Trouxe em um saquinho 3 maçãs e uma banana e ao abri-lo veio um cheirinho dos meus cinco anos.
Recebi. Esse presente de um passado que não volta mas retorna na memória só depois de ter sido percebido por um sentido qualquer. A percepção que nos conecta ao mundo de fora nos retorna ao de dentro e nos leva a nossa íntima viagem interior. Fui à escola daquela época, lembrei de um sorriso que realmente não sei a quem pertence. Talvez a mim, talvez a minha mãe. Sei que ele deve ser de algum lugar do feminino.
Vieram as esperanças no futuro. O cheiro da merendeira é o cheiro do meu futuro.
E se hoje cheguei ao futuro, como sinto isso tudo, esse retorno ao passado inesperado?
(A lembrança foi maravilhosa.)
Eu deduzo que aos cinco anos já reconhecia que o futuro só seria possível se houvesse uma merendeira junto a mim e ao meu percurso junto à escola. Só o significado de um lanche dá sabor ao futuro incompreensível, a escola que gerará escolhas, ao dia em que nos tornamos capazes de preparar o próprio lanche.
Fica como marca de memória e de vida o amor ao cheiro de merendeira, ao futuro sem mágoas sufocantes, a um estado de viver de ternura e cuidado, que por ser assim, e só pode ser assim, deixa o legado da esperança e da futura tolerância que irá abrir espaços quando o coração quiser endurecer.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Itália

Volto da Itália dia 5 de agosto. Portanto, hoje faz uma semana que, maravilhada, deixei a Itália.
 Foi fantástico pegar o avião, ter um pequeno ataque de pânico ao decolar e estar à janela onde o piloto fez sua máxima inclinação e me permitiu naqueles minutos infinitos, ter a certeza que minha vida ficaria lotada naquele solo italiano.
Ah, eu decolei...! E cheguei ao Charles de Gaulle aliviada por estar em...Paris! Quanta felicidade...ter vivido dias na Toscana e em Veneza e posar em terra francesa! Comi massas maravilhosas, cheirei,( sem querer, é claro), suvacos peçonhentos, tomei sorvete italiano e café italiano e sob o sol da Toscana e de Veneza me lembrei muito de Bangu. Senti saudade dos motoristas de táxi do Galeão ao pedir informações em Florença, lembrei com carinho dos funcionários do Detran enquanto tentava me localizar nas ruelas de Veneza e apelava aos cidadãos locais para me ajudar.
As filas de táxi ao desembarcar em qualquer cidade também me deixaram comovida. Os europeus faziam questão de não facilitar em nada a vida dos idosos e dos adultos com crianças ( também tive a oportunidade de conviver com europeus em geral durante uma semana em um navio italiano). Eles também fazem questão de passar na sua frente e furar todas as filas possíveis, especialmente os franceses.
Então, quando eu desembarquei no Charles de Gaulle, me senti finalmente acolhida e acarinhada pelos parisienses. Lindo. (É preciso ter vindo de um lugar muito punk para respirar aliviado por ter chegado a Paris por esses motivos!)
Não consegui ( e é sério), encontrar nenhum homem bonito na Itália. Eles eram tão cavalos, tão ogros e mal educados, e além disso o calor era tanto que sinceramente, não sobrava espaço. Não consegui ver. E olha que a fama é mundial.
Mas quer saber? Massas? A maioria é ótima, mas nada que não encontremos em bons restaurantes em qualquer capital do Brasil. Café e sorvete idem. Pão? Nada demais. Pizza? Nem todas são boas. Queijos e vinhos? São bons. Saudade do feijão e arroz e farofa e saladinha...
Mas sobretudo saudade de tudo o que é nosso foi o que eu senti. E nosso no sentido da brasilidade que tudo mistura e integra. No melhor sentido brasileiríssimo embora os últimos tempos tenham construído uma parede de sentimentos desagregadores e excludentes que aos olhos da história sempre foram nossos. Mas também é bom que falemos justamente das boas características nossas e nesse quesito mistura, somos campeões.
 A saudade é do jeitinho brasileiro bacana, aquele que mistura o gingado à cultura e livra da esperteza do um sobre todos e o transforma em menos um se assim for preciso.
Deu saudade foi do nosso interesse pelo outro que aqui chega e que costumava trazer as boas novas lá das europas, daquela gente aculturada e de onde o mundo se fez mundo muito antes deles aportarem por aqui. Afinal, faz apenas 515 anos que essa terra foi invadida, por eles.
Os europeus são os verdadeiros bárbaros do mundo que assolaram a terra com seus modos superiores de colonização. Devastaram a África e agora querem que seus habitantes sejam muito felizes por lá. Eles barbarizaram tudo o que tocaram em solo alheio, com excessão das terras escolhidas para fincarem suas bandeiras.
Eu entendi melhor o funcionamento do mundo com essa viagem.
É realmente triste que o brasileiro se sinta tão estrangeiro por aqui e idealize tanto a terra de seus antepassados, perdendo tempo precioso em desqualificar seus conterrâneos e perpetuando a mente colonizada e eterna e infantilmente insatisfeita com seu país, antes de verdadeiramente buscar compreender sua história, única, como é a história de todo país ou pessoa.

sábado, 11 de julho de 2015

Acordando

Acordar é fácil. Dormir não.
Dormir é fácil. Acordar não.
Dormir o sono sonhado não é fácil. Acordar o dia sonhado muito menos.
Levantar pra valer é consequência de sonho. De desejo irreprimido que fez valer sonhar e trazer à vigília palavras de sonho e realidade.
Começa no sonho e acorda na realidade. Começa na realidade e acorda no sonho.
Só é possível se há sonho. Mas também somente se houver realidade.
O mundo que sonha e que não faz sentido antecipa o tempo da realidade.
Nossa prisão está do lado de fora, na razão.
E nossa razão de viver encontra-se do lado de dentro.
Nossa ciência só enxerga o lado de fora e apenas lá explica, quando explica.
Mas nosso sono e sonho ofegantes pertencem ao mundo de dentro, o do sonho, e junto à realidade irão colorir e sombrear os nossos dias.
O dia começa e me ponho a pensar.
O sono chega e lá vou eu a sonhar.
E o sol vem nascendo e a lua dormindo e os sonhos crescendo e a luta se abrindo.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Palavras sobre a esquerda caviar

O filósofo RC inventou o termo esquerda caviar baseado na defesa da ideia de que se você for um pessoa com ideias de mundo à esquerda e as expressa politicamente através do voto em candidatos de esquerda, você deveria se comportar como... Como?
Isso mesmo. Como devemos nos comportar mesmo?
 O argumento de RC é baseado em uma lógica afirmativa que busca transformar em contradição e o pior, em incoerência, o que não é. Assim, votar em candidatos de esquerda e acreditar em políticas inclusivas, assim como rejeitar veementemente a ideia de Estado Mínimo não tira, e o mais importante, não contradiz o direito de ninguém a ter em sua vida, aspectos materiais de qualidade, como beber um bom vinho, ter um bom carro ou viajar ao exterior. Ou ( a anti-lógica que esse sujeito busca perpetrar é tão perversa), muito menos, o direito a quem não tem essas possibilidades materiais, a sonhar com eles.
A tentativa de transformação de um pensamento agregador e não-excludente em uma contradição procura colocar as pessoas em uma posição defensiva de explicação do óbvio. E explicar o óbvio, convenhamos, não é fácil. Então vou citar alguns exemplos que bem poderiam ser utilizados como sinônimos ao" Se você pertence a um nível sócio econômico elevado  e bebe um vinho sofisticado, como você pode votar em um partido de esquerda?" Outra pérola: " Se você gosta de ficar em bons hotéis no exterior, como você pode apoiar o bolsa família?";
Posso fazer um paralelo com: " Se você é bonito, por que você tem amigos feios?"; ou: " Mas se você é especialista em pizzas, por que come torta de chocolate também?"
E para complementar o raciocínio a fim de compreender um argumento tão nocivo e desconstrutivo, e antes de tudo "profundamente raso", poderíamos também: " Por que, se você é pobre, gosta de pessoas ricas?" Ou: " Por que, se você é pobre, deseja ter dinheiro?". Essa é a pergunta que se esconde por trás da teoria da tal esquerda caviar. Para que tudo fique em seu lugar e não se mova. Mas sobretudo, para que pobres não queiram o que não tem, e que ricos ( ou a esquerda caviar), não
queiram entender os pobres. Muito menos dividir alguma coisa ou ajudar.
Essa definição inventada pelo citado filósofo é corroborada por um outro filósofo, Felipe Pondé, que considera o livro de RC "imprescindível para o entendimento do Brasil". Esse filósofo utiliza a teoria de Nitzche a respeito do ressentimento para explicar o Brasil. Demais, não? Diz que as pessoas, em especial os brasileiros, são um povo infantilizado que aguardam um Estado Pai para cuidar deles. Sem entrar no mérito dessa questão, e sim no uso dos argumentos, percebo que tais colocações estão a serviço não de uma construção de uma ideia, mas sim da demolição de uma outra, que é a de uma construção social dentro do país em que vivemos, com todos os problemas que temos.
Buscar desconstruir com argumentos que partem de um pressuposto falso, que é a ideia da contradição e da incoerência onde ela não existe, é o princípio da negação do desejo do outro em se reafirmar como sujeito também através de sua experiência com o outro. Esse princípio de negação esteve presente na germinação de todo princípio totalitário.
São pessoas como essas que tem ganho cada vez mais espaço na grande mídia, onde uma espécie de buraco se agiganta e se transforma em abismo provocado pelo vazio das esquerdas que hoje possuímos, provocado pelo enorme rombo moral, ideológico e subjetivo que inunda o nosso país.

país.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Entre as mulheres da cidade

Descia do elevador quando encontrei minha médica oftalmologista e reclamava com ela a respeito da minha nova condição de consumidora de óculos, sobre o espectro do envelhecimento, sobre o alvorecer irresignado do tempo e das nossas novas condições biológicas que atestam a nossa mortalidade e muda nosso lugar subjetivo no mundo. Ontem éramos a juventude, hoje somos a maturidade, amanhã seremos a velhice. Seremos?
Ela me sorriu e eu realmente pensava que ela tivesse dez anos a menos. Parece que a bondade e o brilho pessoal confere juventude e vivacidade a alguns. Como ela.
Ela, que há dois anos perdeu sua única filha de 27 anos de uma doença rara. Ela, que mudou-se para uma outra cidade para cuidar melhor da filha. Ela, que me atende com um sorriso nos lábios sempre, com carinho e espaço para ouvir um pouco mais do que em geral oftalmologistas ouvem. Então ela me conta que enfrentou, em abril desse ano, um outro desafio. Câncer de mama bilateral. Precisou retirar ambas as mamas. E mais uma vez com um sorriso nos lábios, ela me conta essa história. Diz que ama a vida, ama estar aqui, e que vale muito a pena. Diz que os graus a mais não são nada, porque vale muito a pena apreender os significados de viver. Eu sorri de volta muitas vezes, encantada com o encontro casual na saída do elevador.
Então eu segui para meu compromisso de vida, posto que uma amiga me esperava para juntas assistirmos ao grupo Mulheres de Chico. Eis que me dirijo aos subterrâneos da cidade pelo metrô e me junto ao Passeio Público carioca e sigo em direção ao Teatro Rival. Lá encontro minha amiga e o show começa cerca de trinta minutos depois. Mulheres de rosa e vermelhos como tons predominantes encontram- se no palco portando diversos instrumentos e microfones; chocalhos, baixo, tambores, cuícas, cavaquinho... Coisa linda de ver. E inédita.
Como assim? Eu, em toda a minha vida jamais assisti a um grupo musical onde todos os componentes fossem mulheres.
Como os homens se sentiriam?
Como deve ser ver o mundo como homem? Não sei. Sei que assistir a esse grupo foi muito diferente para mim. Ali estavam mulheres como eu, como minha amiga, como minha oftalmologista, como todas nós, que provavelmente nunca paramos para pensar em como deve ser olhar o mundo ao contrário. Sempre olhamos o mundo da única forma possível, onde o feminino é a regra a a excessão em muitas atividades da vida cotidiana.
Meu sentimento foi de profundo amor e gratidão, além de identificação, a todas as mulheres que um dia me tocaram afetivamente e positivamente. Pensei em sua força, em seu feminino, em nossa exclusão.
Quando duas crianças que estavam presentes no show foram convidadas a subir ao palco e as integrantes deram as mãos a elas, senti a instintiva força maternal e de cuidado que caracteriza a todas nós. As duas crianças, uma de seus sete anos e a outra não maior do que três anos, ainda que não completamente à vontade, sentiram-se seguras e cantaram e dançaram no palco. De algum modo
puderam se sentir amparadas e não exibidas ou invadidas. Será que permaneceriam se o grupo fosse exclusivamente masculino e sem nenhum integrante familiar? Acho difícil.
Essa visão da arte através da mulher protagonizando um show musical em homenagem ao aniversário de um homem, Chico Buarque, que é o homem que todas as mulheres gostariam de ter tido e o homem que todos os homens gostariam de ter sido, ou vice e versa..., possui capacidade transmutadora. Faz parte do mundo possível e aberto a todos. Um mundo que historicamente sente-se ameaçado em sua força bruta por essa força enternecida formada pelo feminino.
Eu sinto muito orgulho e felicidade por ser mulher. Sei que a luta é grande, mas já valeu a pena. E
acho que nessa batalha, o melhor está por vir.
Vou comprar um vestido rosa.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Estúpidos do mundo: Desuni-vos!

Apenas um pequeno comentário fruto da onda fundamentalista que a todos os países e cultura invade:
Um ôde a todos os idiomas diferentes e um arrepio ao inglês universal; torcer intimamnete para que os ignorantes não aprendam nenhum outro idioma e não falem inglês nativo. A esperança está na ignorância, assim como a destruição.
Mantenham- se afastados, gente mesquinha e incapaz de enxergar além dos próprios interesses. Fiquem longe!
E os outros, tornem- se cada vez mais fortes e inquebráveis.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Meu feminino

Eu decido o que eu faço com o meu corpo.
Tu decides o que tu fazes com o teu corpo.
E nós não decidimos o que ambos fazemos com nossos próprios corpos.
Porque eu sou eu e tu és tu, não podemos saber o que faríamos se estivéssemos um na pele do outro, ou uma na pele da outra.
Viva o corpo de cada mulher. Viva o direito de cada mulher decidir qual destino dará ao seu corpo, e somente o seu.
E que em nome desse direito ela se reconheça no sofrimento de todas as mulheres.
Salvem todas as mulheres.

Cool

E virou "cool" falar mal do PT. Faz parte do pacote do politicamente correto do tempo atual brasileiro. Mas essa fala, que ultrapassa a crítica, direito que todos temos de fazer, e transforma-se em ofensa, virou rótulo sem conteúdo. Direito a momentos de raiva, todos temos; e talvez mais ainda diante de tempos tão contraditoriamente apaixonados e superficiais; mas manter-se na posição infantilizada de sujeito que se sente no direito de ofender seus opostos, é praticar a intolerância valendo-se do conforto de caber na posição do politicamente correto do momento vigente. Esse viver reativo denuncia a intolerância e não dá lugar à reflexão e à elaboração de ideias. Empobrece o debate. Dissemina preconceito e o ódio. Impede olhar o outro e suas diferenças, que é a base de todo preconceito.
E sem perceber, esse sujeito tornou-se mentalmente corrompido.

Avião germânico

Em meio à tragédia na queda do avião da Lufthansa, em que a caixa preta revelou a intencionalidade do co-piloto em provocar a queda do Airbus, penso em um detalhe que em nada acrescenta aos fatos , mas que elimina especulações desnecessárias e preconceituosas.
O co-piloto era alemão. Morava em uma mansão com os pais, muito ricos, na Alemanha. Parece não haver dúvidas quanto à intencionalidade do ato.
Isso nos poupa as especulações que colocariam como suspeitas possibilidade de terrorismo ou incompetência ou coisa alguma, mas que seriam ofuscadas por uma nacionalidade outra como a turca, a brasileira ou a que seria mais detalhada e investigada entre todas elas, a árabe ou ligadas a ela.
O piloto germânico dispensa essas especulações. Era branco, bonito, rico, europeu, inteligente e alemão (sim, sendo redundante).
Qualquer teoria é perigosa e inútil a esse respeito.
Mas fico com aquela pulguinha atrás da orelha me assoprando:" São os ventos do mundo supostamente perfeito que desabam e revelam suas feridas, é a antítese da negação de todos os fatos construídos para que o mundo se enquadre em um lugar de exatidão inalcançável e inabordável ao se tratar de doença mental, loucura e maldade. Não há prevenção que resista a um mundo que de forma onipotente procura impor sua visão de segurança."
O mundo perfeito desabou.

Violências

Quando a violência vem de onde menos se espera, ou seja, do lugar onde deveria vir a proteção e o cuidado, a experiência é ainda mais violenta.
Quando essa violência utiliza as armas da legalidade, é mais violenta ainda.
Quando essa mesma violência manipula a situação de violência a fim de que seu estrago assuma ares de reparo, temos também um caso de perversão.
Essa violência não é moral nem imoral.
Quando um grupo de pessoas busca tornar invisível através de um conjunto de poder o ato violento, temos um tecido social corrompido.
E quando os bons silenciam a violência em função do medo, da inércia ou da anestesia, é porque aquilo que pode nos trazer esperança também se perdeu.
O ser humano não foi feito para praticar o bem. O bem é uma consequência do mal. O mal foi necessário para que homens e mulheres se expandissem sobre a terra, conquistando e delimitando territórios, domesticando a natureza, e a sua própria natureza.
O bem é o avanço, é o além da sobrevivência instintual, é o receber de um olhar amoroso que um dia, valeu a pena. É a retribuição por ter sido visto e reconhecido como alguém que gerou sentimentos em outro alguém e por inato retorno, passou a acreditar que valia a pena retribuir a compaixão e a amorosidade.
O mal é a permanência na incapacidade de olhar o outro, é a estabilidade na vida instintual que a todos devora pelo caminho, é a denúncia de que foi incapaz de amar e ser amado em verdade, é a crença na função desesperada de ir ao encontro à vida através da voracidade.
Assim os seres humanos tem vivido, em uma eterna gratificação instintual, em uma incapacidade de amar brutalizada por um conjunto social materializado e desconectado de uma essência verdadeiramente humana, natural, amorosa e vital.

Para rir é preciso poder

Só há uma forma de sair dessa vida tendo vivido mais do que morrido aos poucos: encarando a fatalidade da morte como a nossa melhor salvação.
 Não é maravilhoso saber que ao final de toda essa batalha, todo esse desespero em viver, toda a tentativa de não morrer extendendo ao máximo através das virtudes orgânicas e filosóficas nossa histórica persistência ora como espécie e sujeito e hoje como produto na face dessa terra, tenha ao seu encontro final a tranquila face da morte que a todos espreita e espera?
Veja que justo: não importa o credo, a cor, a raça, etnia, condição social ou cultural, a morte estará aguardando.
Assumir frente aos infortúneos de viver a ironia da finitude e a humildade mortal torna-se um objetivo em si.
Tomemos nossos limites, fracassos amorosos, financeiros, familiares e os transformemos em humanidade declarada fruto das inúmeras contradições e teorias de que dispomos.
Vamos pegar tudo isso e transformar em nosso. Vamos nos apegar às fragilidades e misérias e nos declarar homens e mulheres factíveis e não fictícios, como temos sido.
Pegue a sua história e ria de quem riu de você. Pegue a sua arrogância e sorria intimamnete ao lembrar dos anos em que realmente pensou que poderia mais do que realmente era possível. Use o bom humor e receba esses erros como filhos digníssimos de seu passado. Encare o presente com afinco, religando filhos antigos aos que hoje moram em você.
Cante a sua dor através de nossos letristas maravilhosos, e se tiver intimidade com algum outro idioma, cante em outra língua também. E se não tiver, não importa. Escolha a música que fale ao seu coração e que transcenda ao entendimento.
Porque queridos, o que há por vir pouco obedece aos nossos comandos, a existência é bastante provisória e não tem data certa de partida.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Erasmo

Eu amo o Erasmo Carlos.
Pra mim, ele é o rei.

(Não que eu não ame o Roberto, quem não o ama bom sujeito não é..., mas Erasmo é o rei e Roberto é o príncipe).

Salve a dupla!

terça-feira, 9 de junho de 2015

Rodrigo hoje em O Globo

texto em página central do filósofo e pensador rodrigo constantino, sim, minúsculas nas iniciais, sobre o diálogo entre o próprio e "uma esquerdista".
Pensei: vou ler, é legal piada pela manhã. Mas parei. Sou sensível. Senti nojo.
Essa é a única qualidade desse sujeito enquanto escreve: causar repúdio e a reconstatação de que a pobreza dos argumentos desse quadrúpede consegue ganhar semanalmente a página do principal jornal do Rio de Janeiro.
Saudades eternas do JB.

sábado, 6 de junho de 2015

As pessoas estão com fome

Precisamos rever tudo, toda a nossa concepção de vida, cidade, solidariedade.
Algo muito sério e de significado evidente deve estar ocorrendo para que crianças estejam empunhando facas para roubar um celular. Não existe um assalto. Existe um ataque.
Por que pessoas estão atacando outras dessa maneira? Eu acredito que a resposta esteja por ai: desespero.
Eu me recuso a um olhar que monstrualiza essas crianças e adolescentes. É claro que há pessoas más, crianças más, adolescentes maus. Mas são minoria! Porém se esses ataques ganham o cotidiano como forma de ganho imediato, estamos todos, doentes como sociedade. E se essa sociedade não percebe a dor de pessoas que passaram a ganhar espaços nos jornais através de um permanente ataque, e passa a exigir das autoridades maiores punições a essas pessoas, ela permanece em sua ignorância e em seu desejo de não olhar para o outro. Esse estado de coisas só pode ser o resultado de uma sociedade amplamente ignorante, individualista e corrompida em seus valores de humanidade. Tudo isso denuncia sua própria conivência com tudo o que ela diz mais repudiar: a violência.
Esses jovens nos colocam face a face, faca a faca, com a nossa condição de pertencimento a uma coletividade que a todos abarca, pobres, ricos, classe média.
Somos, necessariamente, um todo.
Precisamos descer de nossos prédios e adentrar as comunidades pobres buscando entendê-los, estar com eles. Eles precisam de nós, e nós precisamos deles.
É preciso reagir com humanidade a situações de brutalidade que envolvem crienças e jovens invisibilizados por todos nós.
Se essas pessoas não forem ouvidas e suas básicas necessidades não forem contempladas, estaremos todos reféns de todo tipo de violência.
Reproduzindo aqui uma frase que li essa semana e que me comove sempre que a recordo: " Se a paz não for para todos, ela não será de ninguém."

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Quase desmaiei-me de emoção

Eu sei que o verbo desmaiar não é acompanhado do pronome! Mas resolvi escrever assim nesse post.
Algumas emoções são tão intensas que só mesmo fazendo uso de loucuras gramaticais seria capaz de expressá-las.
Rio-me tanto da burocracia brasileira para não me desmaiar de desespero às vezes. Hoje quando sai para ir ao Detran sabia que a humilhação faria parte da minha relação cidadã com o ÓRGÃO. O órgão governamental funciona tão bem quanto um coração com fração de ejeção de 30% e insuficiência mitral, aórtica ou as duas. É uma pena que os órgãos do governo não possam realizar algum exameograma que não subestimasse potenciais situações de gravidade.
Mas não foi tão grave assim. Basta voltar lá e fazer tudo de novo. Não há qualquer problema nisso.
Não quero ser muito mal humorada, mas a burocracia brasileira foi feita para não funcionar. É ruim para todomundo, e nem por isso muda. A tecnologia aliada à nossa burocracia, piora o estado de coisas. É impressionante.
O mundo, a vida, o universo! precisam estar preparados, e não estão, para a vida louca cotidiana.
Poderemos começar um diário assim no cabeçalho: " hoje não aconteceu nenhuma coisa louca ou absurda".
E o pior talvez, é que os jovens bem instruídos hoje, e isso eu falo do Rio de Janeiro capital e colégios privados classe média, média-alta, estão despreparados para lidar com um cotidiano urbano tão doentio. A maioria cresceu em uma espécie de bolha doméstica e social e não está emocionalmente , razoavelmente  preparada para lidar com os enormes desafios que virão.
Mas eu espero estar errada, porque as perspectivas das gerações mais velhas sobre as mais novas nunca foram as melhores.


domingo, 31 de maio de 2015

FHC do mundo todo igual

Semana passada o PSDB apresentou seu programa na televisão. Não assisti.
No entanto, FHC dizendo "nunca se roubou tanto como hoje", foi patético. Não sei se FHC tem razão ou não.  Uns dizem que sim, outros dizem que não. Eu fico com a impressão de que hoje se rouba mais.É difícil não ter essa impressão, afinal, só se noticia a bandidagem petista, a do PSDB é sempre encoberta. Não há santos ou inocentes nessa história, certo?
Mas um ex-presidente ir à televisão falar mal do governo atual me lembra uma ex-mulher reclamando da atual de seu ex; ou vice -versa, o ex falando mal do atual da ex.
Não seria mais elegante FHC ficar nos bastidores, nos seus artigos de jornal, e jamais falar mal assim do governo atual? Fica feio. Assim como é horroroso o que Lula faz ao conclamar o povo a sair na rua e brigar.
Quando um país precisa e tem seus ex-presidentes fazendo reclamações que podem parecer rasteiras, pois para acusar é preciso provar dentro das alegações, chegamos a um nível de baixaria difícil de imaginar.
 Quando falamos que o projeto do PT é o poder pelo poder e FHC sai em um programa de TV falando o que falou, ele e o PSDB em nada parecem se diferenciar do PT em seus projetos de poder.

Fifa FDP

Essa semana o mundo foi surpreendido com uma notícia linda.
Em meio a milhares de ameaças à nossa integridade como um todo, eis que surge a notória prisão de parte de uma das quadrilhas mais , com o perdão da palavra, escrotas, do mundo.
A Fifa esteve aqui no Brasil por um bom tempo e conseguiu, entre suas piores proezas, destruir o Maracanã e colocar em seu lugar um estádio padronizado, igual a tantos outros, batizado com o mesmo nome- acho que pegaria mal passar a se chamar Joseph Blatter Rio Stadium.
O meu, o nosso Maracanã de outrora, perdeu a metade de seus lugares quase, passou a cobrar muito caro pelos ingressos, passou a ser quase outra coisa não fosse a paixão do brasileiro pelo futebol.
Sinto quase uma dor no peito ao lembrar daquele imenso e único estádio de futebol e olhá-lo hoje com suas cores e desenhos padrão-fifa. Como a cultura de um povo e sua história pôde um dia ser menos importante que um padrão? Como pudemos gastar tanto dinheiro para nos auto-sacanear e diminuir? Por que permitimos isso? Todos sabem a resposta. Dinheiro.
O mundo se tornou isso. Um planeta onde a força da grana hoje destrói mais do que constrói coisas belas. Afinal, o tempo de recuperação se encurta e a intensidade da destruição aumenta.
Como carioca e brasileira, senti na pele a força dessa entidade maligna ao destruir o nosso Maracanã, com o aval dos nossos governantes corruptos eleitos por nós.
Eu desejo que todos sejam condenados a muitos anos de prisão. E que o Blatter não seja poupado.
Desejo que a copa do mundo na Russia e no Catar sejam um fracasso.
E desejo, acima de qualquer coisa dessa ordem de coisas, que o futebol se eleve como o esporte popular que é, que jamais perca o brilho.
Não há mal que dure para sempre.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Bruta vontade de viver

Hoje me deu uma bruta vontade de viver.
Sonhei com dois amigos que me instigam a viver.
Outrora jovenzitos e ireesponsáveis pelo mundo, hoje maduritos e responsáveis mundo afora.
Porém, ah...vida! A essência é perene pois que o tempo também.
Ficam algumas conservações das coisas. Permanecem nossas almas e pessoas bem por fora da curva, embora burgueses desde criancinhas se alguém de fora hoje nos olha e vê três médicos.
 Meu sonho não foi meu somente. Foi nosso. Eles estavam lá não como personagens de um sonho meu, e que portanto, eu poderia dizer que eles também sou eu e eu sou eles. Meus sentimentos falam deles. Eles também estavam lá.
E me traziam memórias e sensações de outro tempo, uma outra eu, um outro eles. Simultanemente nós, ao mesmo tempo outros nós. Outros todos.
A alma desperta e o sonho fica. Quase ofegante de saudade, mas constricta em meu mundo interno sob controle, sublimei o que poderia virar angústia pela falta e tornei comunicação nossas ausências.
Ao contato, a felicidade.
Ai que vontade de viver!
Sair por ai a Grumari com eles
Comer um peixe lá no restaurante de cima
Descer pra Lapa já à noite
Beber todas as que eu não conseguiria acompanhar
E retornar sublime a 2015 sem nenhum arranhão
A vida de volta como agora.
Mas que nenhum tempo volta e nenhum sonho acaba
Disponho-me a sonhar e a escrever poesia
 Pois que a vida é imperativa
E a realidade, nem sempre.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Uma história de ilusão

Ou uma história da ilusão.
Essa poderia ser a história real quando contada de um outro ponto de vista.
Não vivemos uma história de construção da história.
A história é também a história da destruição contada a partir dos vencedores.
A história é a história da indústria das armas, da usura sem freios, da dominação sem fim, a não ser o próprio fim de domínio.
Contar a história é assumir um ponto de vista cujo adjetivo ainda não foi inventado, ao menos na língua portuguesa. Porque a história real é a história da vitória da mentira sobre a verdade. E a verdade é contada pelos sobreviventes. Em geral, são os mais fortes.
Por outro lado, há a história que ainda resiste a esse profundo desencanto, mas que também não deixa de ser real. É talvez a história de quem já leu filosofia ou se deixou converter em uma subjetividade sensibilizada não somente pelo sofrer, mas também pelo encanto de viver.
A verdadeira hitória foi contada pelos poetas, escritores, artistas.
A história só pode virar história se houver um poeta capaz de senti-la e contá-la, senão ela vira outra coisa.
 Parte das muitas histórias mal contadas.

Maldade, perdão e dúvida

As ruas do Rio de Janeiro me pareceram vazias nesse fim de semana.
Será que a cidade está de luto?
Na última quinta feira o médico Jaime Gold foi morto a facadas em plena Lagoa Rodrigo de Freitas às 18 horas. Tudo muito triste. Não o conhecia, mas o fato dele ser médico do Hospital do Fundão, onde eu estudei e me formei, e a proximidade com algumas pessoas que o conheciam tornou tudo pior. Trabalho no Jardim Botânico, vivo ao redor da Lagoa e já andei muito de bicicleta por lá. A Lagoa é nosso cartão postal e todos aqui no Jardim Botânico são íntimos de algum modo, dela.
Há pouco tempo, no máximo um mês, conversávamos aqui no JB sobre os assaltos e os esfaqueamentos, e falávamos que o reforço no policiamento era circunstancial até a próxima vítima. Rapidamente aconteceu. É revoltante.
Mas o que é, exatamente, revoltante? ( além da morte, é claro).
Não sabemos onde colocar nossa revolta.
Sempre que reclamamos de falta de segurança e policiamento, nos esquecemos do por que da existência da polícia. Os crimes são cometidos por falta de policiamento ou por falta de segurança? O que é uma coisa e o que é outra? Não seriam a mesmas coisa?
 O que afinal aconteceu para que nossa cidade precise de um policial a cada esquina para nos proteger de criminosos, a maioria desses, menores de idade e armados com facas? E agora, Jose?
Quem cometeu esse crime? Como o crime foi cometido?
Pela descrição que li nos jornais, ele apunhalou o médico pelas costas e, com o médico caído no chão, o esfaqueou no abdomen. O que é isso, afinal?
Será que um crime dessa brutalidade pode se justificar através de uma teoria de desamparo familiar e do Estado? Sinceramente, não creio. Infelizmente não creio.
Maldade é maldade, será sempre maldade.
Aos sociólogos será exigido muito cuidado nessa análise. Tipificar um crime cometido , provavelmente, por um desamparado de todos os lados. É preciso ter muito cuidado com a indulgência.
A pessoa que cometeu esse crime bárbaro seria criminosa em qualquer cultura, sob as melhores condicões.
Temos agora a dificílima tarefa de compreender esse estado social de coisas, discriminar o crime, não nos deixarmos levar pelo ódio, que a todos cega e impede de pensar.
Redução de maioridade penal é vingança social característica de uma sociedade que não quer pensar sua legião de pobres e favelados como gente que vive à margem de toda a estrutura, em condições indignas. falar em redução da maioridade significa querer permanecer na escuridão e acreditar em um mundo que se resolve com soluções punitivas.
Reinserção social para um jovem que comete esse crime? Não creio também. Infelizmente entendo que esse jovem está irreversivelmente desumanizado. E essa é a outra questão.

Os dois centavos

     Situação comum: Você tenta pagar alguma coisa com dinheiro no Rio de Janeiro. Você dá uma nota. Qualquer nota, qualquer uma, de cinquenta, de vinte, de dez, de cinco ou de dois reais! O sujeito sempre pergunta: Tem dez centavos? Tem cinco centavos? Tem um real? Tem vinte e cinco centavos?
Situação comum 2: Você compra algo que custa 3 reais e 48 centavos. Quanto você receberá de troco em centavos? Nunca 52 centavos, certo? E quando você pede os centavos? Você é um ET, não é mesmo? E deve ter surgido sabe-se lá de onde, das profundezas da antipatia, do quinto dos infernos, do abismo da chatice do mundo. Se for  mulher, deve ser mal amada, sozinha, infeliz; se for homem deve ser bicha ou corno.
       Ser brasileiro tem esse caráter implícito: uma passividade em nome de uma boa vizinhança cortês  ; uma dissimulação de compreensão do outro atrás do balcão em nome de uma pseudo superioridade. Eu compro e esse sujeito ganha muito pouco, portanto não posso exigir nada dele. E o funcionário deve olhar e pensar: como alguém pode ser tão miserável por causa de dois centavos?
      Não são os dois centavos.
      Os dois centavos significam grandes empresas precificando seus produtos com valores quebrados incompatíveis com a moeda que circula. Significa que elas ganham em cima de cada trocado. Existe a legislação que protege o consumidor que obriga que a empresa, quando desprovida de troco, pague valor maior ao consumidor.
Eu realmente estou cansada dessa passividade à brasileira.
 Experimente dever dois centavos a um banco por dez a anos. Quanto ficaria a conta final?
Mas não só por isso. Se o brasileiro não consegue reivindicar seus centavos, o que não dizer de contas maiores, direitos maiores?

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Extorquidos pelo governo

Estou com vontade de criar uma página no facebook com esse título. Para isso, terei que retomar alguma atividade no facebook, o que eu não gostaria. No entanto, parece que a única arma de que dispomos é a palavra. Acredito que em pouquíssimo tempo eu teria muitos seguidores. Se é que já não existe a mesma página.
As arbitrariedades tributárias que parecem acometer ao governo Dilma devem ser enormes. Eu posso imaginar o número de vítimas por ai.
Tente ter uma pessoa jurídica. Tenha uma pessoa jurídica. O que é isso para você? Quantos impostos a pagar sua empresa recebe regularmente sem que o dono, o contador, o advogado...ninguém! saiba do que se trata. A arma do governo é antiga, o poder, o papel, o timbre, a cobrança, a incrível facilidade que deve ser a de gerar boletos e boletos com as mais indevidas cobranças.
É claro que também estou falando de mim.
Agora mesma encontro-me às voltas com dívidas já pagas, comprovadamente pagas, mas que a justiça, embora haja provas de pagamento, mantém a cobrança. Diz assim: "Não reconheço". Eu fico com o ônus da prova. Preciso provar que paguei. Mas provei. E então? Então não reconheço, diz o governo. E agora, José?
Agora vivemos o quê? Estaríamos na idade média?
Parece que o fenômeno é o seguinte: O governo federal está quebrado. E o que faz? Manda seus cobradores efetuarem o máximo possível de cobranças possíveis aos pequenos e médios empresários. Afinal, os grandes são protegidos pelo nosso capitalismo de estado.
Qual o estado de coisas gerado? A sensação de ser roubado pelo governo produz o quê? Como é possível ter um negócio no Brasil se você não for amigo do rei?
Mas Maquiavel está vivo e se você não percebe a grande diferença entre o governo dos pobres e o governo dos ricos você se transformou em um burguês que esqueceu os anos tenebrosos de FHC.
Aff! Quando as pessoas perceberão que o governo petista não gosta nem de pobre nem de rico?
O governo do PT gosta de governar. Mandar.
E quem for obstáculo, que sobreviva.