segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Perguntas básicas sem respostas evidentes para o novo século XXI:

1. Como as armas chegam aos bandidos?
2. Como as drogas chegam aos traficantes?
3. Como a Síria e o Estado Islâmico compram armas para manter uma guerra?
4. Quem são os maiores exportadores de armas no mundo?
5. Por que as balas perdidas são tão letais?
6. Quem são os maiores consumidores de drogas no mundo?
7. Por que a sexualidade continua a produzir tanta polêmica e tanta necessidade de repressão?
8. Por que o ex presidente norte americano George Bush ainda não foi condenado à prisão perpétua por crimes contra a humanidade?
9. Por que dialogar tem se tornado cada vez mais difícil em um mundo super conectado?
10. Por que tanta gente parece escolher odiar e acreditar somente em suas "verdades" a escutar o que o outro tem a dizer?
11. Por que os brasileiros se auto-depreciam tanto?
12. Por que as pessoas estão reféns da mídia em seus sentimentos?
13. Por que a mídia resolveu se especializar em se tornar "mensageira do apocalipse?" ( pergunta 13, esquisito...)
14. O mundo é mais parecido com o que está nos jornais ou a sua realidade necessita dessa visão de mundo?
15. Se nos convenceram de vez que o futuro está irremediavelmente estragado, por que valeria a pena continuar aqui então?
16. Estamos todos juntos ou é cada um por si?
17. O que você faz para melhorar o mundo em que vive? Faz algum trabalho voluntário? Procura se aprofundar em relação aos problemas da sua cidade? Paga bem aos seus funcionários, garantindo direitos trabalhistas e sendo respeitoso com as pessoas? Ultrapassa sinal vermelho? Fecha o cruzamento? Cumprimenta as pessoas? Sorri de vez em quando para elas?
18. Por que é tão fácil falar sobre a paz e tão difícil realizá-la em nosso microcosmo?
19. Por que é tão difícil falar sobre coisas tão difíceis sem ser chato?
20. Por que é mais fácil passar logo ao próximo post e não pensar na enorme velocidade com que o tempo tem passado se nem eu mesma consigo ficar muito tempo em um lugar?

Função do dia

Hoje eu acordei e via sol por detrás da cortina. Não é novidade, moro no Rio de Janeiro e o aquecimento global tem se encarregado de nos dar dias de sol e muito calor a maior parte do tempo, sem chance de sentir saudade ( do sol);
E bem de repente eu me pego a pensar: " hoje vai ser um ótimo dia pra brincar".
Quem disse isso? Eu disse.
Mas como assim? Eu sou adulta, muito adulta. Tenho 42 anos!
Se eu precisasse de provas, tinha ai a comprovação do inconsciente atemporal. Mas se eu quisesse a prova, eu não a reconheceria. Quem busca provas na subjetividade não acha evidências. Sempre haverá o sujeito cerebral a "ceticizar" a experiência do sentir e a valorizar o que enxerga em detrimento do que sente.
No entanto, antes da racionalidade dominar a minha consciência, o sentir adentrou o coração ( lá no sistema nervoso central, é claro - todo coração mora no sentir, e o sentir é registrado em várias áreas específicas do "cérebro", e é processado como pensamento no córtex cerebral, ou seja, transformado em símbolos através da linguagem, uma função superior em nossa espécie...). E quando o sentir invade a consciência antes do processo do pensar racional ou intelectual, temos a experiência sensitiva pura e simples, que pode se transformar ou não em um símbolo, ou seja, em um pensamento.
Quando não entendemos o significado desse pensamento, podemos viver a experiência da intuição, ou da fé, ou da alegria sem entendimento, ou da tristeza sem entendimento, ou uma experiência de ansiedade ou angústia. A angústia é a sensação física de uma dor psíquica que busca significado, ou seja, simbolização. Quando a mente não processa a experiência traumática ela se transforma em dor psíquica, em angústia. O corpo diz ao sujeito que sofre que necessita com muita urgência de compreensão, de um lugar para algo que de tão profundo não pôde ser pensado.
Nossa cultura e nosso mundo ocidental principalmente, busca transformar em lógica a nossa
experiência de viver. 
Como é bom deixar vir o desejo! Sem explicações, sem causas maiores do que a simples alegria de brincar. Para mim, por algum motivo que não sei, hoje é um dia bom para brincar. Mas eu aceito essa verdade mesmo sem saber de onde ela veio exatamente. Uma certeza eu tenho: se ela chegou sem racionalidade, ela deve vir de algum lugar em mim mais próximo ao que há de mais verdadeiro.
Lógica? Qual a lógica na vida? Qual a lógica na morte? 
A lógica só existe na matemática e a vida tangencia o infinito em matéria de explicação.
Como nos Irmãos Karamazov: " Deus nos deixou muitos enigmas".
Vou começar minha semana entendendo que eu preciso brincar. Que a vida sem explicação talvez me peça para que eu a beba em sua ausência de explicação, para que eu brinque ainda que o mundo diga que não. Para que eu a ame além das possibilidades.
Vamos levar nossos corações para brincar.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

E o tempo ainda é o de hoje, o único

Hoje acordei com o grito de macho dos machos do Bope.
 Explico: moro bem perto da sede do Bope, em Laranjeiras, e é muito comum ver os policiais daqui de casa assim como escutá-los no raiar do dia. Saem como guerreiros... gritam frases de efeito, coisas muito loucas e engraçadas, se não fossem verdade. Eles dizem coisas que exaltam a coragem e os objetivos de lutar contra os bandidos que encontram pelo caminho. Gritam bem alto às cinco da manhã. Eu acredito que ninguém reclame... sou vizinha do Bope... vou reclamar dos caras? Melhor não.
Aproveito essa experiência matinal e crônica para fazer uma espécie de interseção aos últimos acontecimentos aqui no Rio de Janeiro, onde arrastões acontecem à luz dos dias em finais de semana de sol, nas praias e também nas ruas. Parece inclusive que o arrastão no Humaitá foi uma reação a uma abordagem policial a um grupo de jovens pobres que vinham da zona Norte à zona Sul para irem à praia. Em sequencia quase, tivemos a agressão de jovens moradores de Copacabana a outros jovens que estavam dentro de um ônibus após sairem da praia, sem que esses jovens agredidos nada tenham feito. Se a polícia não chegasse, um rapaz de 17 anos teria sido linchado.
Há muitos anos o funk tem tentado cantar, protestar e chamar a atenção das pessoas para a realidade da favela. Basta ouvirmos "O rap do Silva", lindíssimo; ou " Eu só quero é ser feliz", ou o "Rap das armas", para nos aproximarmos um pouco daquilo que eles querem dizer e que é preciso ouvir. E ao nos aproximarmos, perdermos um pouco do medo que aprendemos a ter dos jovens pobres e expropriados de direitos muito básicos, como o de ir e vir em suas comunidades, sem o convívio frequente com a morte de amigos inocentes, ou algumas vezes nem tão inocentes, mas sumariamente desprovidos do direito de viver sem qualquer chance de julgamento (executados). Temos medo? Sim, mas não tenha dúvidas: os moradores das favelas tem muito mais.
Essa realidade faz parte de todo carioca, e cada vez mais, da maioria dos brasileiros, seja nas grandes cidades ou em cidades menores. O tráfico de drogas é um problema de saúde pública também, ainda que as pessoas insistam em mantê-lo dentro de uma esfera inócua de ilegalidade que apenas transforma o nosso cotidiano em medo e mentira. A quem interessa manter a criminalização das drogas e de seus usuários? Certamente a uma massa de gente que não conhece ou prefere ignorar a realidade, e que realmente acredita que proibições são capazes de coibir as pulsões humanas e suas necessidades, ou que, e nesse grupo encontram-se os reservistas morais, acham que sabem o que é melhor para os outros a partir de sua própria visão de mundo. Mas ok, essa é uma discussão complexa e esse não é o objetivo aqui, mas deixar de falar sobre isso produz uma ausência que não é exatamente o meu feitio.
O Rio de Janeiro, mais do que nunca purgatório da beleza e do caos, precisa se posicionar.
As coisas não irão parar por aqui.
Não adianta bloquear os ônibus diretos da zona Norte à zona Sul, Não adianta tapar o sol com a peneira. Todos estamos no mesmo barco, morrendo na praia também ao nos tornarmos cegos para a questão do tráfico de drogas e a desgraça que vem operando nas nossas vidas, cegos aos jovens pobres que são mortos e humilhados em seus cotidianos, e crentes em soluções ilusórias a respeito da segurança pública.
A segurança pública é fruto de um conjunto de políticas públicas. E a mais determinante é a educacional.
De que maneira essa juventude marginalizada ganha voz? Quais os significados, que temos o dever de  tentar descobrir, estão por trás de hordas de jovens que aterrorizam a população que não pode desfrutar de uma praia em paz? Não estariam nos dizendo que a paz para eles nunca existiu? Não existe uma denúncia que evidencia um sistema educacional incompetente e desinteressado de se tornar competente? Não evidencia uma tentativa de isolamento de grande parcela da população através de sua condenação à própria sorte? Qual seria o resultado desse histórico abandono?
Donald Winnicott em um texto lindo diz que a criança que rouba nos traz um pedido de esperança, porque ela também se sente  roubada. Ela pede ajuda. Como deve ser para esses meninos e meninas roubados de uma infância sem violência, muitos sem um bolinho de aniversário sequer ( nunca me esqueci dessa comparação fruto de histórias reais), olhar "filhinhos e filhinhas de papai  e de mamãe" bem tratados entrando e saindo de seus carros, em restaurantes, e assistindo a todo o apelo consumista ao qual estamos todos naturalizando... Como essas pessoas devem se sentir ao voltarem para suas casas? E ao voltarem, serem agredidas por esses mesmos jovens" bem tratados", como o que aconteceu em Copacabana no último fim de semana? E como eles se sentem ao serem revistados ao irem à praia? Para quem não sabe, a maioria vai revidar. Não porque tudo o que sentem é raiva, pois que  certamente  a humilhação e a tristeza são sentimentos concomitantes à raiva.
Para os que não sabem, a revolução francesa ocorreu devido ao abismo social entre as classes oligárquicas e os camponeses. Durante a revolução francesa o ódio foi tanto que mesmo as crianças e alguns bebês foram para a guilhotina, porque as lideranças da época não queriam que restasse ninguém mais " daquela laia", a oligarquia.
Aqui a história é diferente, claro. Mas manter a população pobre, que aliás é a maioria, nessa tentativa de isolamento através de uma força e um sistema policial que procura proteger a população branca moradora do asfalto, enquanto a população em sua maioria negra e pobre permanece dominada e calada em cotidianos brutalizados, possui eficácia, é claro, muito limitada. E vai explodir em algum momento. Aqui, a guilhotina é outra.
 Enquanto isso, permanecemos calados e anestesiados em nossos medos de lógica individualista, sem pensar em quem fornece as armas, na fome de olhar e de cultura e educação nas favelas, em quem protege o tráfico sob a máscara moral, e no grito desesperado dos moradores das comunidades pobres  dominadas pelo tráfico e pelas milícias.
São as soluções repressivas as que proporcionam o banho de sangue ao qual estamos habituados. Estamos? Claro que sim. Basta que o massacre aconteça do lado de lá. Porque ele acontece há muitos anos nas favelas. Mas só choca quando chega à zona Sul.
As pessoas precisam saber mais a respeito da fé pública da palavra da polícia que é suficiente para prender qualquer pessoa, e também sobre o poder do testemunho de reconhecimento, que sozinho também é suficiente como prova para manter alguém na prisão. Tem acontecido que as vítimas de delitos e crimes reconhecem muitas vezes, no calor da emoção, qualquer um. E o sujeito fica preso. É claro que toda a história muda se ele tiver como pagar um advogado. Pobres não tem, e ficam presos meses, às vezes anos, por essa prerrogativa policial que apenas serve em pleno século XXI para aqueles que vivem à margem da lei, do dinheiro, do direito, do direito de viver desde que nasceu, devido a um determinismo histórico.
É preciso estar consciente de que a polícia prende muito e de que somos o quarto país do mundo em população carcerária. E por que não, também tomar ciência de que quase oitenta por cento dos presidiários homens de nosso Estado  não possuem o nome do pai na certidão de nascimento.
É preciso de uma vez por todas fazer um esforço maior para compreender que a violência não é um fenômeno isolado, e que muito pouca gente escolheria ser bandido ou sair por ai fazendo arrastões à beira mar ao invés de aproveitar o sol e beber uma água de côco.
Esse ciclo de ódio precisa se tornar mais consciente pela população, que não pode se deixar influenciar mais e mais pelo medo, mas que é claro, tem medo.
A população mais abastada precisa se incomodar com as humilhações sofridas pelos outros. Os outros são muitos. Os outros é o outro. O outro é aquele que um dia pode sair de casa e transformar a vida da sua família em uma tragédia. E em mais uma estatística. Se esse outro não for olhado por todos como alguém importante, porque somos todos parte de uma mesma cidade, (e naturalmente, estou apenas expressando uma lógica e não falando de valores maiores do que isso), continuaremos todos a vivermos com medo e raiva uns dos outros. E ódio. Todos perdem.
Voltando ao início, eu não gostaria de ter que acordar com gritos de homens que necessitam amedrontar para se fazerem valer. Não seria preciso, em uma cidade ou um país onde não há guerra (?), que policiais ostentassem seus fuzis como armas de brinquedo ou com exaltação maior. Não podemos ter uma polícia que acorda se dizendo preparada para matar. Isso não é normal nem aceitável que se torne.
A população pobre precisa que olhemos para ela mais próximos ao que existe de mais verdadeiro: a realidade de que ela é muitas vezes mais vítima do que nós.
Vou terminar com uma frase que gosto muito e que esqueci o autor:
 " Se a paz não for para todos, ela não será de ninguém."



sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Para ser amado

Então hoje eu acordei ainda de madrugada. Não havia sequer amanhecido e a minha pungente alegria de desardomecer e de ouvir o canto dos pássaros me despertou para um dia que seria de muito cansaço, um dia da chamada preguiça, um dia em que a gente só queria ficar na cama deitado e levantar apenas para fazer aquilo que a fisiologia exigisse.
Não sei o que me despertou. Não sei o que me vem despertando há quase uma semana antes do amanhecer, mas às vezes funciono assim.
Então eu fiquei desperta quando queria ter sono o suficiente para permanecer dormindo, enquanto o meu corpo e cérebro pedia mais duas horas ao menos de sono reparador. Nada a fazer além de levantar.
Mas antes disso... eu fiz uma retrospectiva de toda a minha vida. Toda. Todinha.
Lembrei da casa onde nasci, dos apartamentos onde morei, da casa que retornei.
Tudo começou quando olhei para o meu corpo ainda deitado na cama e ele me levou para um corpo de muitos anos atrás, em que eu era criança e embora dona do meu corpo, ainda não era a dona da minha vida como sinto ser hoje. E observo que ser dona da minha vida não significa ser dona do meu tempo. E observo que acordar antes do sol nascer não significa andar adiantada. Talvez signifique a angústia de um tempo que passa mais rápido do que eu gostaria. Significa que eu não consigo viver tudo o que eu preciso no tempo que me cabe. e não significa que eu seja a pessoa de vida mais atribulada do mundo, ainda que honestamente eu não tenha tempo para nada... Talvez signifique isso tudo, a angústia de ter de viver também o indizível, o inaceitável, o mistério sem consolo, a vida em um tempo e em um espaço que agride a todo o momento, a vida em que teremos todos que conviver com a imagem do menino morto na praia de rostinho para a areia, todo vestidinho para viver, todo vestido de amor e de esperança, e morto na visão de um anjo que termina por matar a nós todos um pouco também.
Talvez seja isso. talvez seja muito mais o que me desperta quase em meio à madrugada. Talvez seja a tristeza com os rumos políticos de meu país após anos de esperança não somente em nossa vida macroeconômica, mas sobretudo em nossa possibilidade de cidadania e coletividade.
Voltamos a viver na esperança de reconstruir um estrago causado por nossa pura essência, a de uma nação que trafega pelo acostamento, aquela que não perdeu a oportunidade de pensar em como ganhar os próximos 5 anos, e não os próximos cem ou quinhentos futuros.
Talvez sejam essas coisas que me despertam ainda na madrugada, além da saudade que também me sai atropelando as emoções e cujo tempo ameniza mas não cura.
Eu vou acordar muito ainda, pois a cura para a saudade vem da esperança de ser amado sempre, e mais e mais. Por isso as pessoas sempre terão filhos. Filhos são ( mas não deveriam ser), a promessa do amor sem precedentes, a vinculação eterna, o sorriso e a nossa ressurreição. Através deles olhamos novamente as portas de nossa história e os caminhos por onde podemos reparar nossos próprios erros e ainda aqueles que sentimos que fizeram em nós.
Esse desejo irrefreável e que justifica a vida por si só é o desejo de permanecer no coração de alguém para sempre, é o reasseguramento inevitável, é o que nos devolve em casa quando adolescentes e queremos para sempre nos rebelar, quando adultos e de saco cheio das obrigações infindáveis, quando crianças e um estranho, fora ou dentro de nós, nos chama a sumir pelo mundo.
É essa a ligação de ser amado por alguém que nos faz cometer improváveis loucuras e previsíveis acertos. É esse desejo de solidão e a impossibilidade de vivê-lo que me retorna ao lugar seguro de sempre, seja a faculdade, seja a escola, a casa, os velhos amigos que já não me dizem mais. É o lugar onde eu lembro de quem eu sou, onde eu possa ter certeza de que sou amado ou de que de algum modo eu o seja.
É preciso sucumbir ao dilema para libertar-se do peso infinito de saber que não sei.
É preciso que eu entenda e sinta que eu preciso de muitas coisas para me sentir segura.
É preciso que eu entenda que viver é difícil mesmo, é complexo, e que não é possivel negar.
Mas não é preciso que eu descubra que o amar e ser amado é o que dá sentido à vida, é o que preenche o meu eu de auto-estima e é o que nos iguala a todos e nossa imprescindível e saudável sede de amor.