segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Ser mãe ou não ser

Eu gostaria de entender melhor o nível emocional das pessoas e o objetivo de alguns jornais como a BBC Brasil publicarem uma matéria no site congratulando uma jovem de 25 anos por ter realizado o desejo de uma laqueadura tubária sem nunca ter tido filhos. Gostaria de entender a celebração de um método de esterilização de uma jovem mulher que é claro, tem todo o direito de decidir se quer ter filhos ou não e que ninguém, evidentemente, tem qualquer coisa a ver com isso.
No entanto, a celebração de uma decisão irreversível em seu jovem corpo, decisão essa regida na base de sua intimidade, ser compartilhada publicamente como uma conquista, me espantou.
Como médica, qualquer intervenção definitiva em alguém me causa sobressalto. Observo com ressalva a avidez em resolver problemas que não existem ou que irão impactar profundamente um jovem.
Os desejos são mutantes. Eles não são permanentes. O desejo de ter filhos ou não também se modifica. Mas não estou pensando que ela pode se arrepender de sua decisão. Penso na notícia e no papel de uma mídia que parece ignorar a responsabilidade para com aquilo que ajuda a divulgar como libertário ou genuinamente progressista. Pareceu-me uma propaganda e não uma matéria com o intuito de informar. Sabe por que? Porque desinforma. Porque glamouriza uma decisão bastante polêmica, confundindo um método de esterilização com anticoncepção. Essa foi minha impressão.
Podemos e devemos ter controle sobre nossos próprios corpos sem abdicar de uma função reprodutiva essencialmente humana e feminina, como a possibilidade de ser mãe em um futuro que poderá ser muito distinto do presente, ao ponto de transformar uma certeza aos 25 anos em uma dúvida aos 30.
Espantar-me com a notícia significa que o desejo de ser mãe também é mutante, e negar a uma mulher a dúvida sobre seu próprio desejo de maternidade aos 25 anos não é desrespeitar o direito de controlar sua saúde reprodutiva, mas questionar de fato se a celebração de algo dessa ordem não é ao contrário, desproteger a mulher de seu legítimo desejo de um dia vir a ser mãe.

domingo, 14 de abril de 2019

Comida

Eu cozinho para que a saudade não me devore.
Hoje eu comi bastante arroz.
 E percebi a saudade que me comia por dentro. A única forma de não ser deglutida era deglutir o arroz, o sabor do que posso ter em mim para que o desejo  impossível não me consuma. Eu não posso me perder em meio à tentação de uma necessidade vital impotente. Viagens no tempo ainda não existem, só mesmo dentro de um certo aparelho mental feito para amar e lembrar é que acontecem. Onde tempo e espaço se fundem, apenas buracos negros a tudo sugam.
Angústia.
O buraco negro como retorno ao fim.
Não há espaço para filosofia hoje.
Só há os gatos e aquela ternura que deles emana e também a alegria dessa trivialidade felina.
Poucas palavras e menos angústia em meu peito.
Para muito afeto, para muito tudo.
Para a saudade sem coração, feita fusionada e separada por obrigação do sangue, para virar memória embotada.  Já a saudade feliz permanece junto ao coração não por domesticação, mas por fina elaboração de um tempo onde  a memória em si não viu a necessidade de separação, pois anda de mãos dadas à própria história.
Assim dito, posso através dos sabores em mim, viajar ao tempo de outrora onde eu era infeliz e feliz à minha maneira, aprisionada à esperança da alegria, prisão essa que me abriga até agora. Um aprisionamento consentido para dar as mãos àquela menina também de outrora, que sabia saber  da saudade que o destino lhe reservava e que somente a alegria engarrafada, feita da promessa do único sentido capaz de guiar a existência, lhe era capaz de prover o ânimo mais necessário que arraigado, impositivo e zombeteiro para que nem tudo fosse apenas feliz ou apenas sério, a centelha de dúvida como ingrediente principal do sabor de memória a ser servido aos domingos, quando da redenção da semana que se inicia e do término absoluta daquela que se foi.
A saudade é um prato antigo do qual nos servimos nas horas vagas diante de um gesto de amor de qualquer fonte que nos pegue de surpresa.

quarta-feira, 6 de março de 2019

Bolsonaro divulga homem fodendo a si próprio

Perdoem-me o palavreado, mas o presidente da república praticou a proeza do auto-envenenamento. Há um suicídio político em curso.
A oposição, coitada, nem precisa se dar ao trabalho.
Os bolsonarianos vivem em seu próprio mundo de ignorância sem limites junto a um poder considerável e, transitório, como todo poder.. Não entendem nada de sociedade, história, e essas coisas que juntas, permitem certa compreensão do conjunto da sociedade. Não entendem de evolução alguma, seja das espécies, dos costumes ou  das sociedades. Vivem atrelados a seu território mental que não deveria ter ultrapassado Rio das Pedras. Os Bolsonaros são a cara de um churrasquinho bem baixo-nível em meio aos palavrões com os quais estão habituados. São gente que representa o que de pior esse país já pariu: acreditam na força bruta, na deselegância da palavra, na porrada e na falta de diálogo, como estratégias de viver o mundo, a vida. Só foram possíveis graças à nossa degradação educacional e moral, em muito promovidas pelos governos petistas anteriores, que lideraram verdadeira guerra cultural a priori bem como mediocrizaram todo e qualquer pensamento que considerasse a meritocracia algo importante.
A atual degradação nacional na qual nos encontramos é ainda uma consequência das sucessivas baixarias que vem nos acompanhando há pelo menos 14 anos. O fanatismo atual, sorte não ser majoritário (por enquanto), é o resultado de nossas escolhas e má escolhas.
Quanto desalento!!

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

O Rio o, Verão e as pessoas do Rio

Sou uma carioca que levou uma vida inteira para gostar da própria cidade.
Nunca a achei a mais linda do mundo, pois foi a única cidade que conheci durante os meus vinte primeiros anos, por exemplo, com a excessão de uma ida a São Paulo aos 15 anos e uma outra ao sul de Minas também aos 15.
Tive dificuldades aqui. Nâo sei ainda dizer se foram inerentes à cidade, mas algumas foram sim. Como por exemplo, ter crescido no subúrbio e perceber do outro lado da cidade, um preconceito também inerente à minha condição de suburbana. Isso sempre acompanhou os que desbravaram os territórios. Sempre houve uma diferenciação entre os da zona sul e os da zona norte.
 Nesse momento me lembro de uma vez, já moradora da zona sul, há uns 15 anos atrás, em uma loja no shopping da Gávea junto ao meu filho, quando uma mulher talvez na minha faixa etária, também mãe de uma criança que estava na loja, me disse assim: "essa loja lembra o Magic Kingdom, não é?"; ou seja, ela me identificou como alguém que, "naturalmente", conhecia o Magic Kingdom. Eu nem sabia do que se tratava. Olhei pra ela e acho que  perguntei: "Ah?", ao que ela me disse, dessa vez me olhando de outro modo, sem aquele olhar e fala de suposta intimidade por crer que compartilhávamos o mesmo mundo: " Vc não conhece o Magic Kingdom?"; e eu "Não". Isso é um pouco do exemplo da superficialidade da zona sul.

Felizmente o subúrbio é bastante valorizado culturalmente no Rio de Janeiro e no Brasil, e devemos isso ao carnaval. Mas é o protótipo da malandragem do surfista da praia do Rio, da garota bronzeada e bela, dessa cultura praiana e espontânea que dizem ser uma espécie de emblema nosso, que domina o imaginário. Posso dizer que como carioca nascida no subúrbio, que nunca pegou onda e não vivia essa descontração praiana mítica, que minhas experiências de maneira geral com as pessoas da zona sul e essa galera descontraída, sempre foi a mais superficial possível. De maneira geral, conheci pessoas mais irresponsáveis que a média pra idade, mais drogadas que a média também. Não sei o que fazem da vida hoje. Não sei.

Cariocas reclamam de tudo, mas principalmente do tempo. Reclamam do calor, da chuva, do frio, do vento. Eu às vezes penso que é uma metáfora da frivolidade: é preciso que esteja de um jeito muito certinho e perfeito pra ser bom. Mas quanto a isso, incluo os brasileiros em geral, não em relação ao tempo, mas em relação aos anseios de um país incrível e seu eterno egoísmo na vida social. Mas isso é outra história.
Tudo isso pra dizer que estamos em janeiro, as temperaturas nas alturas, e o povo segue reclamando como se isso fosse novidade pra alguém. Eu nasci aqui, eu cresci aqui, e todo janeiro é assim. Todo. E as pessoas reclamam e reclamam. Ok, todos tem esse direito, mas eu fico perplexa com a insistência em martelar um assunto que está além de qualquer possibilidade. É mais fácil mudar a economia do país do que o calor no Rio de Janeiro em janeiro...
Acho que as pessoas desperdiçam seu tempo precioso de vida reclamando. Essa atitude mental torna tudo mais difícil, pior.
Eu proponho que planejem no próximo ano suas férias, sua vida, de forma a lidarem melhor com o calor nosso de todos os anos. Há o calor, mas também a maravilha das praias, o choppinho gelado, o samba maravilhoso, o pôr do sol no Arpoador, a floresta da Tijuca, Guaratiba, praias lindas...Grumari... Há muito de beleza aqui, muito de espontâneo e livre que realmente encanta as pessoas. E não diga que a grana tá curta e que você não pode planejar o seu próximo verão, porque seria um péssimo começo. Todos nós precisamos planejar a vida, com mais ou menos dinheiro, até mesmo porque o tempo não pára, a vida insiste, e o calor também continuará por aqui.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Puro deleite

O sol radiante cobria toda a paisagem de Ana. O calor irradiava sobre seus braços, pernas, colo. Impulsionadas pela força do cenário, veias, músculos, mamilos, lóbulos, ventre, púbis, períneo e cavidades, arredias à irrealidade das satisfações das ilusões, rápida e demoradamente, entregavam-se à confortável sensação do corpo inteiro de Ana, que saltitante, magnética até, aproximava-se da beira do cais onde o amante aportara a fim de desbravar-lhe aquele vestido cor de pena clara, de tecido leve praiano, que adornava seu corpo exuberante de vida e beleza. Uma mulher assim não se deixa em pleno solo, em pleno abandono naquele balneário fustigado pelo sol e calor e adocicado e embevecido por essa história de paixão e sensualidade.
Ana e o amante conheceram-se antes do pôr-do-sol, e quando de antes do nascer do dia, seus olhos não mais poderiam desviar-se , nunca mais. Uma noite inteira de conversas inteiras, uma noite inteira de desconversas profundas, uma noite inteira que apenas o ócio da paixão seria capaz de realizar nos olhos de dois jovens amantes.
Enquanto aportava, Ana sonhava. E o amante, de dentro do barco, tomava Ana pela mão e calmamente a adentrava; quando lá, minuciosamente lhe tirava o vestido, a beijava inteira, para que ela o entregasse em retorno certas carícias que somente uma dona muito apaixonada poderia entregar. E ali restaram, restaram. Até que o pio de uma gaivota lá do alto os despertasse, tirando-lhes o sono da volúpia para que devolvessem à vida a continuidade desejada por essa tal alteridade gerada quando acredita-se amar.
O despertar  fez Ana e o amante correrem para a sorveteria do cais e pedirem um sorvete de chocolate e creme como completude ao prazer. Ligados à carne estavam e assim decidiram permanecer.
Os amantes escolhem a volúpia e aproveitam a fase da paixão como uma distração necessária, como combustível inflamável capaz de desvirtuar todas as virtudes. A paixão pelo amante foi a primeira transcendência da vida de jovem adulta de Ana. Nunca mais foi a mesma. Ninguém jamais é.
Encontraram-se assim por quatro meses, quando o amante sorriu de um jeito que desencantou Ana.
Com a sensação de um passado recente descabido e as memórias sorridentes das alegrias vividas, Ana deixou o balneário e não mais voltou ao cais.
Para trás, o deleite ostentado. Para frente, a experiência dos grandes prazeres que algumas mulheres tem a felicidade de carregar na memória.
Os olhos  não mais precisaram desviar-se de fato. Nunca mais se olharam.


Feliz ano novo, feliz tudo

Início de ano e reinício de decisões que contornam a minha existência, impulsionam a partida para comemorar a chegada, se somam aos amores que existem em mi, significam todo um passado em nome de um futuro. Que o presente seja digno do passado e arduamente responsável em relação ao futuro.
Sempre tive o sonho de escrever. Escrever qualquer coisa. Graças à internet, eu tenho esse blog que só eu leio.
Vou começar escrevendo um outro blog para falar da vida como psiquiatra?
Que tal?