Eu nunca gostei particularmente de Israel, o país. Desde o dia 7 de outubro de 2023 isso mudou. Como assim não gostava de Israel? Por que isso mudou?
Talvez Israel fosse o último resquício da esquerda em mim. Mas nunca chegou a ser sério, porque nunca fui uma radical em relação ao ódio. Eu sou radical no amor, e devido à essa radicalidade, não apenas não me furto a diferenciar o bem do mal, como manifesto se for preciso aquilo que penso e sinto, porque acredito que o triunfo do mal reside no calar entre os que gostariam de dizer algo e que são levados por conforto ou medo de aborrecimentos maiores. Além disso, não gostar de judeus estava para como não gostar de americanos, de ingleses, de argentinos ou franceses. É quase uma brincadeira que faz parte do meu mau humor, implicar com alguém ou alguma coisa por nada em absoluto, então atribuo a qualquer coisa. Nos tempos de hoje, uma brincadeira vira coisa séria. Pessoas não sabem reconhecer metáforas e acabam por considerar a piada e o riso algo capaz de causar estragos irreversíveis. Só rindo.
Nunca entendi nada sobre o Oriente Médio e entendia que a situação dos palestinos em Gaza era resultado do apartheid provocado por Israel, além de também acreditar que os israelenses tratavam os palestinos como os nazistas os trataram. Eu sei. É grave. Gosto de ser honesta e realmente não tenho medo da verdade, ao menos a verdade histórica.
Até que aconteceu o dia 7 de outubro e eu soube a respeito das atrocidades cometidas em Israel. Ter o conhecimento desses fatos produziu em mim um giro de 360 graus. Como assim entraram e mataram crianças, estupraram mulheres e quebraram o quadril delas e riam e debochavam? Como assim queimaram pais na frente dos filhos e vice versa? Como assim arrancaram um bebê do ventre de uma mulher grávida, sequestraram crianças, idosos, mataram jovens em uma rave, jovens lindos que celebravam a vida? Como assim 400 mortos em um único kibutzin? As pessoas que ali viviam plantavam comida orgânica, eram militantes pela paz, ajudavam palestinos a se tratarem nos hospitais israelenses, ou simplesmente eram famílias inteiras que viviam suas vidas. Famílias inteiras foram mortas. Como assim? O tamanho dessa violência abriu uma enorme ferida em mim e tornou evidente um ataque de um ódio feroz e de pura bestialidade. O dia 7 de outubro foi a experiência mais trágica que um povo já viveu, foi a maior expressão de ódio e violência de que se tem notícia, onde os terroristas do Hamas foram substituídos por demônios de forma humana, desprovidos de qualquer senso de humanidade, possuídos por uma força de pura destruição e horror. Como alguém poderá ser o mesmo depois de ter conhecimento desses fatos? Não há de existir qualquer justificativa nesse mundo para que um povo seja submetido a tanta violência. E foi através desse horror despertado em mim que eu procurei saber. E qual foi a minha pergunta?: "Que ódio é esse?". É preciso fazer essa pergunta para entender o dia 7 de outubro e antes de tudo, saber de antemão a resposta: Nada é capaz de justificar. Nada.
Fui buscar as respostas para a minha pergunta.
Uma observação importante: evidentemente eu conheço a história do holocausto e sei que 6 milhões de judeus foram mortos durante a Segunda Guerra mundial. O holocausto foi um processo ordenado e sistemático de assassinatos de judeus, além de deficientes, homossexuais, ciganos, comunistas. O dia 7 de outubro foi um ataque terrorista. Não havia uma guerra. Ainda. O holocausto e o dia 7 de outubro tem em comum o ódio aos judeus. A única diferença entre eles é que os nazistas buscavam esconder seus crimes, o Hamas filmou e divulgou com alegria e orgulho, prometendo outros 7 de outubro. São menos sofisticados que os alemães.
Eu aprendi sobre o conflito e sobre Israel através do meu sentimento de compaixão e indignação perante o que aconteceu. Minha indignação é como mulher, mãe, filha, amiga, brasileira, cristã, mas também como psiquiatra e psicanalista. Acreditar que Israel não tem o direito de defender o seu país porque há mortes de civis é no mínimo, curioso e ingênuo; afinal, quem no mundo gosta de guerra? Quando olhamos as mortes de civis em gaza e comparamos com todas as outras guerras que acontecem nesse momento no mundo e vemos jovens pelo mundo ocidental demonstrando simpatia pelo Hamas é porque algo deu muito errado na nossa sociedade. Quando as mesmas pessoas resolvem protestar de indignação pela guerra travada entre Israel e Hamas, eu me pergunto onde elas estavam quando 40 mil palestinos foram mortos na Síria.
Não existe protesto por amor. Os que protestam não amam os palestinos. Eles odeiam Israel.
Eu aprendi, afinal, o que é o antissemitismo depois do dia 7 de outubro. E essa foi uma das mais importantes lições da minha vida.
Reconhecer o antissemitismo é abrir os olhos para a origem do mal e para a inesgotável capacidade humana para o mal. É não targivesar quando a questão se apresenta em relação ao que é certo ou errado. É olhar para o dia 7 de outubro e compreender de uma vez por todas que nenhuma política de Estado é responsável por tamanha bestialidade a qualquer comunidade humana, é separar o que é humanizador do que é diabólico, é não se misturar ao injustificável em nome de qualquer relativização de barbárie.
Sem sombra de dúvida Israel, como qualquer Estado, pode ser criticado, mas à luz da verdade, que tal? Israel é o único Estado no mundo que luta para não ser destruído por seus vizinhos. Diante dessa particularidade, já seria o caso de dar alguns passos pra trás a fim de tentar entender melhor o que está em jogo nessa guerra, não? Qual outro inimigo de que se tem notícia invade um território não com o objetivo de conquistar mas sim de destruir o próprio povo da forma mais infame possível? Quem seria capaz de apontar um outro país nessas condições? Israel não possui outra opção a não ser destruir o Hamas.
No mar mediterrâneo, Israel não dará seus últimos suspiros, combaterá o bom combate e conquistará seu direito de ser livre. E que o Hamas seja responsabilizado até o último homem de seu exército covarde e bestial.
Que Israel seja livre, inclusive dos atuais políticos que não o enobrecem.