segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Kibutzin

 Eu nunca gostei particularmente de Israel, o país. Desde o dia 7 de outubro de 2023 isso mudou. Como assim não gostava de Israel? Por que isso mudou?

Talvez Israel fosse o  último resquício da esquerda em mim. Mas   nunca chegou a ser sério, porque nunca fui uma radical em relação ao ódio. Eu sou radical no amor, e devido à essa radicalidade, não apenas não me furto a diferenciar o bem do mal, como manifesto se for preciso aquilo que penso e sinto, porque acredito que o triunfo do mal reside no calar entre os que gostariam de dizer algo e que são levados por conforto ou medo de aborrecimentos maiores. Além disso, não gostar de judeus estava para como não gostar de americanos, de ingleses, de argentinos ou franceses. É quase uma brincadeira que faz parte do meu mau humor, implicar com alguém ou alguma coisa por nada em absoluto, então atribuo a qualquer coisa. Nos tempos de hoje, uma brincadeira vira coisa séria. Pessoas não sabem reconhecer metáforas e acabam por considerar a piada e o riso algo capaz de causar estragos irreversíveis. Só rindo.

Nunca entendi nada sobre o Oriente Médio e entendia que a situação dos palestinos em Gaza era resultado do apartheid provocado por Israel, além de também acreditar que os israelenses tratavam os palestinos como os nazistas os trataram. Eu sei. É grave. Gosto de ser honesta e realmente não tenho medo da verdade, ao menos a verdade histórica.

Até que aconteceu o dia 7 de outubro e eu soube a respeito das atrocidades cometidas em Israel. Ter o conhecimento desses fatos produziu em mim um giro de 360 graus. Como assim entraram e mataram crianças, estupraram mulheres e quebraram o quadril delas e riam e debochavam? Como assim queimaram pais na frente dos filhos e vice versa? Como assim arrancaram um bebê do ventre de uma mulher grávida, sequestraram crianças, idosos, mataram jovens em uma rave, jovens lindos que celebravam a vida? Como assim 400 mortos em um único kibutzin? As pessoas que ali viviam plantavam comida orgânica, eram militantes pela paz, ajudavam palestinos a se tratarem nos hospitais israelenses, ou simplesmente eram famílias inteiras que viviam suas vidas. Famílias inteiras foram mortas. Como assim? O tamanho dessa violência abriu uma enorme ferida em mim e tornou evidente um ataque de um ódio feroz e de pura bestialidade. O dia 7 de outubro foi a experiência mais trágica que um povo já viveu, foi a maior expressão de ódio e violência de que se tem notícia, onde os terroristas do Hamas foram substituídos por demônios de forma humana, desprovidos de qualquer senso de humanidade, possuídos por uma força de pura destruição e horror. Como alguém poderá ser o mesmo depois de ter conhecimento desses fatos? Não há de existir qualquer justificativa nesse mundo para que um povo seja submetido a tanta violência. E foi através desse horror despertado em mim que eu procurei saber. E qual foi a minha pergunta?: "Que ódio é esse?". É preciso fazer essa pergunta para entender o dia 7 de outubro e antes de tudo, saber de antemão a resposta: Nada é capaz de justificar. Nada.

Fui buscar as respostas para a minha pergunta.

Uma observação importante: evidentemente eu conheço a história do holocausto e sei que 6 milhões de judeus foram mortos durante a Segunda Guerra mundial. O holocausto foi um processo ordenado e sistemático de assassinatos de judeus, além de deficientes, homossexuais, ciganos, comunistas. O dia 7 de outubro foi um ataque terrorista. Não havia uma guerra. Ainda. O holocausto e o dia 7 de outubro tem em comum o ódio aos judeus. A única diferença entre eles é que os nazistas buscavam esconder seus crimes, o Hamas filmou e divulgou com alegria e orgulho, prometendo outros 7 de outubro. São menos sofisticados que os alemães.

Eu aprendi sobre o conflito e sobre Israel através do meu sentimento de compaixão e indignação perante o que aconteceu. Minha indignação é como mulher, mãe, filha, amiga, brasileira, cristã, mas também como psiquiatra e psicanalista. Acreditar que Israel não tem o direito de defender o seu país porque há mortes de civis é no mínimo, curioso e ingênuo; afinal, quem no mundo gosta de guerra? Quando olhamos as mortes de civis em gaza e comparamos com todas as outras guerras que acontecem nesse momento no mundo e vemos jovens pelo mundo ocidental demonstrando simpatia pelo Hamas é porque algo deu muito errado na nossa sociedade. Quando as mesmas pessoas resolvem protestar de indignação pela guerra travada entre Israel e Hamas, eu me pergunto onde elas estavam quando 40 mil palestinos foram mortos na Síria. 

Não existe protesto por amor. Os que protestam não amam os palestinos. Eles odeiam Israel.

Eu aprendi, afinal, o que é o antissemitismo depois do dia 7 de outubro. E essa foi uma das mais importantes lições da minha vida.

Reconhecer o antissemitismo é abrir os olhos para a origem do mal e para a inesgotável capacidade humana para o mal. É não targivesar quando a questão se apresenta em relação ao que é certo ou errado. É olhar para o dia 7 de outubro e compreender de uma vez por todas que nenhuma política de Estado é responsável por tamanha bestialidade a qualquer comunidade humana, é separar o que é humanizador do que é diabólico, é não se misturar ao injustificável em nome de qualquer relativização de barbárie.

Sem sombra de dúvida Israel, como qualquer Estado, pode ser criticado, mas à luz da verdade, que tal? Israel é o único Estado no mundo que luta para não ser destruído por seus vizinhos. Diante dessa particularidade, já seria o caso de dar alguns passos pra trás a fim de tentar entender melhor o que está em jogo nessa guerra, não? Qual outro inimigo de que se tem notícia invade um território não com o objetivo de conquistar mas sim de destruir o próprio povo da forma mais infame possível? Quem seria capaz de apontar um outro país nessas condições? Israel não possui outra opção a não ser destruir o Hamas.

No mar mediterrâneo, Israel não dará seus últimos suspiros, combaterá o bom combate e conquistará seu direito de ser livre. E que o Hamas seja responsabilizado até o último homem de seu exército covarde e bestial.

Que Israel seja livre, inclusive dos atuais políticos que não o enobrecem.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Uma mãe

 Hoje estive com uma mãe do alto de seus oitenta e poucos anos saudosa da filha morta em um acidente aéreo há 15 anos junto a mais duas amigas. Juntas iriam passear por uma das capitais mais lindas da Europa.

Essa mãe cuidou dos dois filhos adolescentes da filha desde então, precisando manter-se firme e atenta. Dois anos depois da perda da filha, seu marido e pai da filha, também partiu devido a um câncer. Segundo a mulher, fruto da dor da perda da filha, o que não é nada difícil compreender.

Ocorre que essa mulher me fez chorar junto à ela, sem que ela percebesse meus olhos ligeiramente marejados. Toda vez em que me encontro diante do amor e da dor dos outros, dor verdadeira, sinto junto. Algo acontecesse nessa hora onde os olhos penetram nesse ponto profundo de humanidade que nos liga de volta ao outro que a nós fala e confia.

Ela me procura por não sentir vontade de viajar com as amigas, por querer ficar em casa ao invés de se divertir. Ela se sente culpada por desfrutar da companhia dos filhos da filha, quando a filha é quem deveria estar usufruindo.

Ela sente falta da companhia feminina uma vez que são quatro os netos, o filho, e somente uma neta, então ela se vê rodeada de meninos e sente a ausência de sua melhor companhia feminina, a filha que se foi.

Me contou que não quis abrir o caixão embora a tenham perguntado. Pra quê? Ela me pergunta. Sabia que talvez pudessem ser ossos, uma vez que a filha foi uma das últimas a ser encontrada. As duas amigas foram umas das primeiras. 

Como era mar e a filha amava o mar, a mãe entendeu que não haveria problema em seu corpo sem vida no mar, ficar. Não fez questão, ainda que muitas famílias tenham feito.

Ela não entende porque tanta tristeza está aqui presente com ela. Parece mesmo que o lado que sobreviveu precisou se dissociar do lado que junto com a filha, morreu.

E ela me contou o que a fazia ter forças: um sonho. Em uma sala, a filha estava sorrindo muito rodeada por uma luz e ela correu imediatamente para abraçá-la, quando ela sobe ao teto (ao céu?), reluzente e sorrindo plenamente, dizendo (sem falar) que estava muito, muito bem. Foi o único sonho em 15 anos. 

Meu momento de maior compaixão à essa mãe foi quando ela se sentiu culpada por estar entre os netos, por sentir que quem deveria estar ali era a filha dela, e não ela. Mas o que fazer diante de realidade impossivelmente real assim?

As linhas escritas foram feitas para guardar um pouquinho de um momento em que duas mulheres, distantes por suas naturezas, buscam compreender a dor e vislumbrar qualquer lampejo de consolo que, em nosso caso, pertence exclusivamente ao universo feminino onde mães e mulheres se encontram.

Como mulher, eu digo que há coisas nesse universo, coisas dos sentimentos, que somente a companhia de mulheres e suas palavras são capazes de compreender.

O feminino possui algo do sagrado quando uma mulher vive o amor de mãe.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

Hallow

 Descobri o aplicativo católico de orações e meditações maravilhoso chamado Hallow.

Minha ligação com o catolicismo é bastante antiga e remonta aos meus mais tenros anos de infância. Tenho lembranças de mim, dentro da igreja, desde os 5 anos. E ao menos em minha memória, pareço guardar a música daquele tempo.

Adentrar nas orações e mergulhar na divindade do Espírito Santo é, sem sombra de dúvidas, um caminho de fé e humildade. Toca-me profundamente o Evangelho de Mateus assim como Romanos capítulo 12, quando a mim é dito para buscar conhecimento e não acreditar que, desse modo, encontrarei compreensão. 

O mundo ao redor em seus mistérios inspira medo, fascínio, encanto, admiração, espanto, horror, calor, frio, desejo, desejo de saber, desejo de sentir, desejo de desbravar, desejo de destruir, desejo de ver, de entender, de encontrar, reencontrar, explorar. 

Eu realmente acreditei que a ciência e a filosofia me dariam as respostas que eu precisava para encontrar a paz, através do conhecimento. Mas o saber não me trouxe paz, e no lugar da paz percebi-me desencantada, cansada, horrorizada.

Depois de tantas teorizações e justo após essa revolução tecnológica digital, diante desse mundo hiperconectado de modo automático, artificial e amplamente desligado das conexões verdadeiras, falsamente conectado, horrorizei-me. Vi e vejo gentes de todos os lugares do mundo odiando umas às outras, presas à ideologias, capazes de demonstrar compaixão apenas aos que se sentem ligados em suas tão propaladas bolhas ideológicas, tanto mais a cada dia; pessoas e pessoas mais loucas, mais neuróticas, mais utilitárias, desumanizadas, e profundamente infelizes.

Esse retorno ao lugar de conforto à uma infância que me deu tanta esperança no mundo, aos cânticos e cantos que atravessam o espírito hipócrita e pusilânime desse tempo, remonta meu espírito à esperança cristã de amor ao próximo, de verdade, de iluminação. Para isso foi preciso superar meu deserto de onipotência e arrogância, de minhas defesas intelectuais. 

Eu não sei. Não sabemos de onde viemos e sequer para onde iremos. Desconhecemos o antes e o depois da vida. Deveríamos ser mais humildes ao perceber esse universo à nossa volta, pragmático em nosso destino e implacável em nos manter em absoluta ignorância. 

A minha fé e religiosidade não são obedientes por natureza. Muito pelo contrário. Eu vivi divorciada do cristianismo durante 75% da minha vida. Minha obediência é tão somente à minha consciência, e minha consciência é o fruto dos valores que somam todo o amor que  vivi e tudo o que pude aprender sem medo de desobedecer.

Renasço dessa caminhada através do meu deserto pessoal, pronta para o reencontro com o amor de Cristo, renovada de esperança, reencontrada junto à Igreja Católica onde estive desde pequena.

Minha maturidade me ensinou a não exigir perfeição dos homens, dos amigos, das mulheres, de ninguém. Toda igreja é feita por seres humanos imperfeitos e nenhuma religião deveria carregar o ônus da perfeição.

Amar é libertar.

Perdoar é receber.

Obrigada, Senhor Jesus Cristo, por me ensinar o amor e o perdão.

Obrigada, Igreja Católica e também Igreja Batista do Leme, por me receberem de braços abertos.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Toda vez é isso

 Toda vez em que venho aqui vejo que não escrevo praticamente nada. Mas é que leio tanta coisa incrivelmente maravilhosa por aí. 

Meu maior trauma vem do futuro e do presente. ele é feito do que não li e do que não escrevi. Tenho tanta coisa a dizer mas acho que não é preciso e nem preciso aquilo que tenho a dizer. Se há tanta gente mundo afora que escreve divinamennte bem, por que eu deveria escrever alguma coisa? De que maneira posso contribuir para o mundo? Mas esse projeto, é tão grande! Mas diga-me eu, aqui, eu mesma, sozinha nesse blog que não é lido por ninguém: por que não posso se eu sei que devo? devo a mim mesma essa inclinação literária e deveras apaixonada pelo mundo das letras e de por toda a indignidade e dignidade nele contidas.

O fato é que o mundo nunca foi para mim tão espetacularmente enfadonho e encantador. O encanto está na borboleta azul de ontem que sobrevoava a pequena montanha em frente ao meu quarto, e a indignidade está em não fechar esse ciclo de desentendimentos pelo mundo que eu gostaria de compreender literariamente.

O mundo lá do lado de fora da minha casa está louco, mas tão louco que sequer vale a pena contar. Só piora.

Guerra em Israel, na Ucrânia, o bêbado insultando a memória dos judeus, um verdadeiro horror; o último opositor ao Putin mortinho da silva, (pena que o mortinho da silva aqui foi o Nalvany), Trump calhando de se reeleger nos EUA (oi?). Isso mesmo, meu caro não-leitor, tudo está virado. Talvez alguém tenha pensado que eu escrevo sobre os anos 80 na guerra Israel Líbano, ou sobre o holodomor na Ucrânia nos anos 30.

 Mas é só o ano de 2024 mesmo.