O ethos moderno auto intitulado humanista, encontrou duas maneiras eficazes de oferecer seus produtos ideológicos: um leque colorido de opções de preferências sexuais instáveis e a reconfiguração da ideia de direito e com isso, do próprio direito.
Dois métodos são utilizados, ambos falaciosos: a ideia de que uma pessoa pode escolher sua preferência sexual diariamente ou até mudá-la diversas vezes ao dia, e a ideia de que a existência em si mesma configura uma série de direitos. São duas diretrizes capazes de arregimentar as pessoas mais frágeis, ou seja, crianças e adolescentes, e construir como consequência, um exército de pessoas jovens incapazes.
As questões sexuais transformaram-se em uma outra dúvida, não aquela em que todo ser humano se encontra ao longo de toda a sua vida, que é a dúvida e também a batalha em torno de quais caminhos cada pessoa deve engendrar a fim de experimentar um prazer sexual inalienável e capaz de impulsionar o sujeito a formar bons vínculos, encontrar quiçá um parceiro ou parceira e dentro de determinada parceria vivenciar os prazeres de um encontro sexual inesquecível e por vezes duradouro. Pois é na intimidade onde encontramos felicidade. Encontros fugazes sexuais tão propagados como arrebatadores são raramente o que dizem ser.
Transformar, através da corrupção da linguagem, o desejo pelo encontro do que na psicanálise chamamos de objeto sexual, em uma identidade, é um caminho equivocado e incorreto se buscamos conversar com os jovens.
Encorajar crianças e adolescentes em uma direção em que a aquisição de direitos não é inerente, mas sim um processo de busca pessoal é o caminho possível. A posição subjetiva de direito natural ao nascimento, infantiliza quem precisa crescer e enfrentar o cotidiano, fragilizando o jovem que aprende que privilégios são exclusivamente materiais, quando na realidade todo adulto irá necessitar em algum momento revisar sua história pessoal e examinar o quão privilegiado foi de fato, em termos dos cuidados paterno e materno que recebeu. Reconhecer os buracos nesse processo e sobreviver aos próprios traumas pessoais decorrentes não de uma condição sócio econômica em si, mas de seu processo pessoal de superação a eles, será a sua principal tarefa subjetiva. Dar ao jovem a ideia de que a sociedade deve a ele algo e que sua identidade sexual é um processo construído socialmente é não apenas distorcer a realidade como oferecer uma solução fictícia para um caminho absolutamente pessoal. Ao final, cabe a cada ser humano reconhecer sua cota de responsabilidade por si mesmo e lutar bravamente e solitariamente pela busca de uma parceria amorosa. A sociedade não deve nada a ninguém no que diz respeito à felicidade sexual, com exceção é claro, das sociedades em que as pessoas não podem escolher livremente seus parceiros.
Mas não vivemos em um país onde os pais ou o Estado escolhe os parceiros sexuais de seus cidadãos, portanto cabe a cada um, sem exceção, buscar a parceria sexual que melhor lhe aprouver. Não existe política de cotas para essa competição. No ringue da intimidade e do prazer, a competição é livre e é cada um por si.
Nessa história de selvageria social ,às vezes, encontramos romance. E nesse mesmo ringue social as mulheres são as mais vulneráveis. Mulheres são o sexo mais frágil a ser considerado. Somos mais fracas fisicamente e algumas vezes carregamos no nosso corpo uma das consequências da relação sexual na forma de uma gravidez, desejada ou não. Na estatística da realidade, 85 a 95% dos homens adultos saudáveis têm força física suficiente para matar uma mulher com as próprias mãos se assim o desejarem, o que posiciona a mulher em um lugar bastante vulnerável na sociedade. Em 2024 tivemos entre 1459 e 1492 vítimas de feminicídios no Brasil, o que representa uma média de cerca de 4 mulheres assassinadas por dia, uma taxa média nacional de aproximadamente 1,34 a 1,4 casos por 100 mil mulheres. Quanto ao estupro de meninas e mulheres, tivemos cerca de 70 mil casos de estupros em 2024, uma média de aproximadamente 190 ocorrências por dia, sendo 76,8% das vítimas menores de 14 anos.
Na experiência da vida, do sexo e da morte, nascer fêmea, é realidade biológica na veia, literalmente. Nascer mulher não é uma escolha no arco íris da falsa compaixão. Viver como mulher, menos ainda. Mas nada nem sentimento algum nos une tanto quanto a absoluta falta de opção quanto à experiência da violência e da morte. Nisso, homens e mulheres enfrentam o destino de suas anatomias.
99% dos casos de violência sexual são cometidos por homens, o que deixa clara a natureza da violência sexual assim como da natureza de morte por assassinato. 90% dos crimes de assassinatos de mulheres foram cometidos por homens. Quando os homens são as vítimas, esses crimes também são cometidos por 90 a 95% de homens. A violência, seja sexual ou não, é estatisticamente masculina, proveniente de homens adultos em mais de 90% dos casos.
Uma sociedade ou um país que desprotege e desampara suas mulheres e crianças, expondo-as a espaços reservados à mulheres e crianças, como banheiros e vestiários, em nome da inclusão de homens trans identificados, faz uma escolha consciente? E que fique claro que pessoas trans não são violentas por nenhuma natureza. Homens são inequivocadamente, em termos estatísticos, muitíssimo mais violentos que as mulheres, e todo o padrão de violência segue de acordo com o marcador sexual, não importando se a pessoa transicionou ou não para outro gênero.
Mulheres e crianças não podem abrir mão de seus espaços separados por sexo não por capricho, não por desejo. Não estamos falando da dimensão da vontade, mas sim do modo da proteção e do cuidado, mas sobretudo do modo dos direitos humanos das mulheres e das crianças. Abrir mão do direito à proteção das mulheres e das crianças em nome de um grupo de homens trans identificados, é aplicar a exclusão do princípio da equidade para uma verdadeira opressão psicológica e física do grupo humano mais vulnerável que existe, mulheres e crianças. Ao exigirem a obediência reflexa das mulheres, os militantes transativistas atuam através de inegável misoginia ao negarem às mulheres o direito de expressarem não somente seus medos, mas suas vergonhas em seus espaços de intimidade. Aplica-se a lógica da servidão voluntária à uma causa que não pode ser nossa, desqualificando qualquer debate, perseguindo mulheres que se opõem, de modo perverso, cruel e covarde.
Há muito tempo nós mulheres temos sido rotuladas de várias formas ao reagirmos e confrontarmos a dominância masculina, e essa provavelmente não será a última vez. Não há novidade no ar: um movimento masculinista e poderoso busca infligir às mulheres seus aspectos coercitivos, sua força econômica brutal, suas ameaças de pena de prisão até, para que as mulheres não falem por seus filhos nem por si mesmas.
Mas não vai funcionar. Vamos falar e enfrentar, porque essa é uma luta de vida e mulheres são nutridoras e geradoras da vida, e não iremos nos calar.
E já passou da hora dos adultos retomarem seu lugar na sala. A vida é difícil, competitiva, e a busca pela felicidade na esfera da intimidade é um movimento pessoal. Não vale invadir espaços historicamente conquistados em nome de uma suposta inclusão. Isso é intelectualmente falso e transforma uma luta inicialmente justa, a luta de espaços para pessoas trans, em um movimento verdadeiramente supremacista ao ignorar a condição humana de mulheres e crianças.
Ser mulher e enfrentar a vida como mulher não é opcional.