quarta-feira, 13 de abril de 2016

Às vezes escrever é uma necessidade biológica

Meu país vive uma confusão política, ética e moral, únicas. Como toda conjuntura.
Faço da poesia e da literatura meus refúgios éticos, minha intimidade afetiva e assim, procuro povoar minhas sensações através das interpretações literárias e filosóficas de gênios atemporais.
Acordar e ler o jornal tornou-se um bom motivo para voltar a dormir e nunca mais querer sair da cama.
A presidente Dilma vive um processo de impeachment. E eu não irei aqui procurar explicar essa loucura. Mas alguns fatos são reais: a câmara dos deputados, cuja porcentagens de envolvidos em denúncias de corrupção supera os 30% irá julgar uma presidente não acusada de crime algum. Em contrapartida, a inaptidão de Dilma é tamanha, que a situação chegou a esse auge de contradições e diferenças tão semelhantes, que se tornaram irreconciliáveis. Para alimentar a fogueira das vaidades e incoerências, os partidos mais corruptos e parceiros do PT estão um a um, debandando do governo, abandonando o barco mesmo, ao verem o barco naufragar. Esses partidos foram o sustentáculo do governo durante todos os 13 anos do PT no poder. Assinaram a maioria dos atos juntos, diríamos.
Há expressiva parcela intelectual que condena o impeachment e o nomeia golpe. É um golpe.
É mais um golpe.
Quem golpeou primeiro? A própria Dilma, ao cometer um estelionato eleitoral inesquecível e imperdoável. Maniqueísmo? Quem começou?
Dilma foi um acidente. Fico triste por ela ser a primeira mulher presidente do Brasil e ter vivido essa presidência através da origem de um homem, o Lula, colhendo os frutos de seu segundo mandato presidencial que obteve à época 87% de aprovação.
Hoje Dilma possui menos de 10% de aprovação, sendo a menor da história.
Nossa imprensa é lamentável? Infelizmente é.
Mas não foi a imprensa quem praticou o estelionato eleitoral de 2014 e fez uso dos subsídios governamentais para a energia e a gasolina, aumentando-os substancialmente em menos de 6 meses após as eleições.
Também não foi a imprensa quem deu cargos aos sindicalistas amigos a fim de administrarem os fundos de pensão das estatais.
Podem dizer que os outros governos também agiram assim. Não sei! Qual o tamanho do rombo nas contas públicas? Tenho a impressão de que o aparelhamento do estado nunca foi tão acintoso. Lembro do bom funcionamento dos Correios, assim como da presença de algum nível de moralidade na coisa pública antes do PT. Não posso auferir a coisa. Mas tenho a impressão de que nunca a coisa pública foi tão esculhambada, tão usada, tão manipulada. E tenho muito medo do vício desenvolvido a partir desses tempos de total descolamento ético impulsionado pelo partido que tocava exatamente nessa ferida a fim de ganhar notoriedade.
O PT demonstrou absoluta incoerência, absoluta rendição de seus princípios, e na minha opinião, a maior e mais incrível capacidade de manipulação política que eu já vi.
Eu amei o Lula por quase uma vida inteira.
Aos 16 anos fiquei 3 horas em uma fila para que eu tirasse meu título de eleitor para votar no Lula.
Fiz de Lula e do PT minhas esperanças.
Quando hoje eu vejo o Lula fazendo uso das velhas estratégias de discurso e lembro desse mesmo discurso enaltecendo o Sarney, a Roseana, o Collor, o Renan...apertando a mão do Maluf em São Paulo para eleger o Haddad...não me resta qualquer dúvida de que ele é capaz de tudo.
Lula é um perverso narcisista irretocável.
Quando Sergio Moro vazou os áudios e levou Lula, coercitivamente, a depor, eu chorei.
Minha velha veia petista e que um dia amou essa figura de fato não aceitou, o que não será jamais aceitável, essa conduta aética e abusiva por parte desse juiz. naquele 16 de março, Sergio Moro reativou antigos aliados petistas que já haviam julgado esquecer Lula e o PT, pois a injustiça sempre acorda aqueles que lutam pela justiça. Naquele momento, não mais importavam os últimos 13 anos de conluios e baixa política proveniente do subsolo e topos petistas, tratava-se de uma clara caçada política merecedora de uma resposta daqueles que mantém-se ligados aos ideais de esquerda que muitos julgam como desprezíveis e fora de seu tempo, e gostariam que já estivessem esquecidos há muito tempo. Mas cá entre nós, isso sim é uma utopia, a de que o homem irá abandonar as próprias utopias. Não. Vou insistir em lutar pelo que acredito, assim como muitos que se sentem como pertencentes a um pensamento à esquerda.
Assim, fui no dia 18 de março à Praça XV. Vou dizer: as festas vermelhas são maravilhosas. Samba, diversidade, utopia viva.
Acreditar na Dilma? Acreditar no Lula?
Isso é o que menos importa.
Também menos ainda acredito no Congresso Nacional, no Senado, no Temer, no Cunha.
Eu acredito que a Dilma merece esse impeachment, mas que o Brasil não merece esse golpe.
Entre uma turma e outra, pouca coisa mudará na prática.
Se Dilma ficar, ela irá abrir mão de tudo para se manter. Irá trair mais uma vez seus eleitores. Irá vender o que restar do Brasil e for possível vender. Ela não tem palavra nem tem capital político para defender bandeiras feministas fundamentais, por exemplo.
Temer será uma temeridade. Também.
Mas ao menos eu vou parar de ler todas as manhãs esses jornais manipuladores choramingando a alta do dólar. O PT deixará aos poucos a vitrine do noticiário. Todos serão mais felizes.
O Brasil vai voltar aos poucos a ser o país corrupto de sempre, sem manchetes nos jornais denunciando a corrupção. A Lava Jato irá deixar de ser manchete aos poucos, também.
Os que amam odiar o PT estarão mais calmos, mais felizes e irão viver um certo dever moral de sentirem-se mais felizes e otimistas. O PT voltará a oposição e os movimentos sociais voltarão com muito mais força, pois suas lideraças esvaziadas do aparelhamento petista voltarão à ativa. A esquerda obrigatoriamente terá de reinventar-se e unir-se.
Coxinhas repousarão. Petistas reagirão.
Dada a inconsistência e fragilidade intelectual da direita brasileira, ela irá aos poucos e em um processo mais rápido que o da esquerda, se enfraquecer.
Voltaremos a ser felizes para sempre como o fomos na roupa mais ajustada de um país do futuro que abrandou a ética, reinventou a relatividade com a esquerda n o poder, e adiou mais uma vez, por algumas décadas, seu tão propalado futuro.
Dessa vez, porém, não sei se teremos tempo para caminhar até lá.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Um dia na vida e na morte de cada um

Meu marido, companheiro, amigo e amor da minha vida está em Paris vindo de Bruxelas há 3 dias. Ele estava em um congresso médico naquela cidade antes de seguir para Paris.
Ontem acordei com uma ligação dele, preocupado em me dar logo a notícia para que eu soubesse que estava tudo bem em Paris.
Além do pequeno susto inicial ( o de receber um telefonema logo cedo pela manhã dele em viagem, o que não aconteceu em nenhum dia), fui tomada por um certo desconforto e tristeza. Afinal, nossa vulnerabilidade é testada a todo instante quase. Cada vez mais sabemos o quanto vivemos em um mundo de completas incertezas.
E então eu fui aos poucos deslizando nas passagens da semana iniciadas na segunda, um dia antes desse telefonema.
Soube da morte de uma criança de 12 anos. Por que uma criança saudável de 12 anos morre em uma semana após sentir uma dor no joelho e ser vista por dois médicos em dias diferentes? Por que esse menino morreu em casa subitamente? Ele vinha sendo medicado com analgésicos. A mãe fez o que poderia ter feito. Procurou atendimento médico para o filho. Ele não melhorou. Procurou de novo. E ele morreu em casa.
Esse menino morava em Engenheiro Pedreira, distrito do município de Japeri, Rio de Janeiro. Era um menino de família economicamente empobrecida.
Como médica e mãe de um menino de quase 12 anos, fiquei muito triste. Mas não de tristeza somente fui tomada ao saber dessa perda. Senti revolta. Desconhecendo a história e tendo apenas os elementos que me foram contados, era provável que essa criança tivesse um quadro de osteomielite no joelho, que não foi tratada nem diagnosticada. E eu me pergunto: "Ninguém desconfiou?"
Parece que não. Sendo assim, há muita coisa errada há muito tempo a acontecer.
Nesse mesmo dia ainda, uma paciente conta durante a sessão, que sua empregada não pôde ir trabalhar hoje. E por que? Porque na comunidade onde ela morava, em um de nossos subúrbios aqui nno Rio de Janeiro, estava havendo uma troca de tiros entre a polícia e os bandidos. E o que
acontece? Ninguém sai. Ninguém entra. Não soube dessa troca de tiros. O jornal OGlobo nem mais se dá ao trabalho de noticiar algo dessa natureza. Tornou-se tão banal a violência nas comunidades pobres do Rio, que publicar uma notícia dessas não tem peso ou interesse.
Então eu me pergunto: Qual a diferença entre morar em Bruxelas, em Paris ou no Rio? A diferença é que aqui, assim como na maioria das outras capitais desse país, estamos mais inseguros.
A vida continua a passar como um raio. E o fim pode estar em qualquer lugar, em qualquer momento.
Mas o que mais me toca é a vida que se perde pelo descuido, pela provável falta de estudo e sobra de ambição, que simplesmente reforça a invisibilidade de um sem-número de pessoas, milhões delas aqui no Rio, transformadas em nada, em puro material de campanha política ou material de estudo de médicos recém-formados ou mal- formados ou ambos, que navegam pelos retumabantes domínios de uma desfaçatez inefável, inescrupulosa. Essa realidade do erro médico é a realidade do povo invisível transformado emcoisa nas mãos de pessoas imaturas e  tão despreparadas ao ponto de deixarem passar uma dor em um joelho de um adolescente de 12 anos que retorna ao posto após a prescrição analgésica não surtir efeito. Vem cá, não despertou uma outra curiosidade? Vem cá, não pensaste em outro diagnóstico, cara pálida que deixou morrer uma criança não por falta de recurso, nem por falta de mãe, mas por ter caído nas mãos de seguido médicos desinteressados de seu sintoma?
Eu sinto vergonha desses médico. Que estudassem mais!
Eu sinto vergonha desse sistema de saúde, não do SUS, do qual tenho orgulho pelo tanto que é capaz de fazer com tão pouco a receber. Eu sinto vergonha e horror como um todo a um sistema que há muito tempo mercantilizou a saúde e transformou médicos e pacientes em objetos de consumo.
Acreditem, é bom lançar os dados da sorte, porque em nenhuma emergência, mesmo nas mais sofisticadoas, com raras excessões, as pessoas estão livres da incompetência dos médicos que as atendem. Há bons médicos? Claro que há. Mas é preciso conhecer para não precisar jogar dados. E em muitos dos que estão no SUS estão entre os melhores. Ainda. Porque no andar da carruagem da sangria desatada nos nossos melhores hospitais universitários, poucos bons médicos estarão presentes no futuro. E quando eu digo bons, eu me refiro aos que priorizam o contato humano e ainda assim mantém- se alinhados ao bom estudo e formação.
A população leiga não imagina a precariedade na formação médica de muitas escolas, abertas graças às novas concepções mercadológicas que nasceram com o século XXI, um século que em parte emburreceu ao adotar a cegueira economicista para a ordem das coisas científicas e médicas em geral. Esqueceu do ser humano. Priorizou a setorialidade da vida e o fez com o consentimento assim como com o alheiamento de grande parte das populações que tem passado os últimos 20 anos mais preocupadas em como pagar a prestação do carro do que com o mundo em que habitavam e naquilo que este estava e vem se transformando.
Chegamos em 2016 repletos de guerras, medos, lixo, temperaturas elevadas, calotas polares derretendo, vidas sendo ceifadas aqui, em Bruxelas, em Paris. Umas por guerra e ódio. Outras por profunda indiferença e descompromisso.
Foi pra isso que tivemos e temos que correr tanto?
Onde se encontra o tão profanado amor? Ele deve estar nos livros, nos filmes, e de lá ele nos alimenta em nossa tocante necessidade de ilusão.