sábado, 17 de março de 2018

Guerra aos pobres

Primeiro existia um país aonde os descendentes europeus escravizavam os negros e seus descendentes, africanos.
Quase quatrocentos anos depois, esses africanos e descendentes foram libertados da situação de escravidão. Abandonados à própria sorte, muitos construíram suas moradias nos morros e terrenos considerados sem donos.
Nenhuma política social especialmente voltada a essas pessoas foi feita desde então.
Somado a isso, a educação pública oferecida ao povo em geral, brancos e negros, foi quase que delegada à própria sorte, e os que puderam pagar por uma educação melhor, foram para as escolas pagas. Ou seja, descendentes de europeus em sua maioria.
Com o passar dos anos, a população saltou de cinquenta milhões, aos duzentos milhões, e esse país se tornou um dos três campeões mundiais em desigualdade social.
O povo negro, esquecido, abandonado, manteve-se em hoje as chamadas favelas, cercados pela polícias, pelas milícias e agora, pelo exército. Vivem situações de guerra em suas ruas, dentro de seu próprio país, e suas crianças e moradores sào deixados à própria sorte de suas balas perdidas. Morrem toda semana nessa guerra civil, em nome do combate ao crime e às drogas. E as pessoas que hoje procuram defendê-los, em geral as que tiveram alguma chance de estudar e de entender a relação entre pobreza e criminalidade, são acusadas de defensoras de bandidos, mesmo depois de mortas.
Existe algo aqui nesse país tão enraizado na escravidão que mal consegue ser visto de tão óbvio.
Marielle, você viverá para sempre dentro de milhares de corações.
Obrigada, linda mulher, e nos perdoe se for possível.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Na miragem de uma postagem

Eu tenho tantas ideias durante o dia, são tantas as coisas que se passam pela minha cabeça;
ultimamente eu preferi simplesmente o sabor da viagem ao calor da produção, mas sinto muito não ter produzido, nunca ter produzido nenhum artigo científico; dediquei à vida os prazeres, e são eles a contemplação, o aprendizado, as viagens, a cozinha, a música, os bate-papos. Meu amor pela escrita costuma ser derrotado pela chance de um bom papo. Então eu me especializei em um bom papo.
Já sei o final da história: dediquei à mim mesma o prazer do intelecto e o compartilhei dentro de minha clínica e meus círculos de amizade. Sei que ao final de tudo terei um sabor incrível da vitória de ter vivido em mim; pouco saberei desse sentimento de minusculinização do ego chamado necessidade de produzir. Resolvi guardar todas as minhas ideias para mim! Ah! Afinal, ninguém lê mesmo... Aff!
Mas a verdade é que ter dois filhos e gostar de viver não me permitiu sobrar tempo algum para produzir nada materialmente falando. Mas tenho curtido muito até aqui.
Não quero e não vou abrir mão das minhas manhãs de sábado em família, do meu café demorado, das minhas caminhadas pelo parque Guinle sem hora para chegar, para ao final, escrever qualquer coisa. Eu preferi e escolhi o fôlego de um descompromisso para com o papel, o trabalho que pára no papel, para me dedicar integralmente aos pequenos prazeres cotidianos.
Acho que lá na hora final terei sido mais feliz que a maioria.
 as apesar desse texto poder ter sido terminado na frase anterior, quero dizer que também através do princípio do prazer eu escolhi retornar aos estudos em psicanálise. E estou mais ligada do que nunca nisso.
Acho que vou publicar meu primeiro artigo finalmente.
Aos 45 anos. Viva.

terça-feira, 6 de março de 2018

Cordovil na paisagem

Naquele lugar do meu passado onde há muito eu não moro mais, encontram-se muitos de meus sonhos, alguns amigos, medos outros de fora e dentro de mim.
Lá eu ainda tenho os meus que há algum tempo não estão aqui.
Lá eu vejo e sinto o meu pai e o meu avô adentrando a casa com as mãos com três balas juquinhas para mim e para o meu irmão, cada.
Lá eu ainda sinto a alegria com a chegada dos siris vivos e o nosso banquete incrivelmente gostoso depois. É dentro desse passado que eu me lembro também das sopas de siri no Palanca Negra em Parada de Lucas, sem medo de tiros, sem medo de nada. Eu estava com o meu pai e a minha mãe.
Lembro da sensação do calor saindo do asfalto da rua, das nossas brincadeiras de rua, do vôlei, das bombinhas que eu colocava nas caixas de correio dos vizinhos da rua. Lembro do gosto da pizza de sardinha da festa junina da igreja. A melhor do mundo até hoje. Dos ensaios da quadrilha do meu irmão, e dele levando todo o bolo incrível de côco que eu fiz pros amigos.
Que saudade insuperável do verão na psicina, também a melhor do mundo até hoje, na minha casa de Cordovil!
Que saudade do cheiro de creolina para a limpeza...daquela coinha sem janelas, quente pra cachorro !
Meu Deus, quanta saudade!
E como eu não posso voltar, escrevo!