quarta-feira, 18 de março de 2009

A reinvidicação do diagnóstico

"Doutora, muito prazer, eu sou bipolar."

"Pois não, muito prazer, sou unipolar."

"Mas como assim?"

"Nada. Só uma brincadeira."

Moral da história: "Melhor um diagnóstico fabricado na internet pois respaldado pela indústria do consumo, do que entender que é infeliz sem doença alguma. E que então, não tem remédio."

A montanha

E agora...
O que fazer se a montanha é minha?
"Não poderá ignorá-la..."

É que eu ganhei uma montanha na semana passada.
Olhei para ela e sua vastidão e pensei: por que não?
Ela vai ser minha daqui para frente.
Tomei-a para mim.

Então hoje sou proprietária de uma montanha.
Ela fica logo atrás do meu quarto de sonhos.
Os sonhos são aqueles que eu invento durante à noite e acordo às vezes um tanto amedrontada, às vezes esquisita, às vezes em paz.
Lá no meu quarto eu fabrico acontecimentos e acesso algumas imagens que ficam guardadas aqui na cabeça. Ora pensante, ora burra.
Afinal, todomundo tem direito à estupidez.

No meu sonho coube a montanha e agora eu a sinto tão minha que quase me senti culpada por não a ter olhado com a assoberbação devida.
Minha montanha querida: tu és linda mesmo. Verde,verde. Cantante pela manhã por passarinhos e à noite pelos grilos, melindrosos!
Tu és minha e de todos, mas eu sinto (como todas as crianças sentem), que eu peguei primeiro.

quarta-feira, 11 de março de 2009

O cara mais incrível que conheci

Hoje eu li uma entrevista na revista "Quem" com o Caio Junqueira, e ele disse o seguinte a respeito do pai, morto em novembro do ano passado, o também ator Fabio Junqueira: "Meu pai foi o cara mais incrível que conheci."
Sempre fico emocionada quando leio esse tipo de coisa, afinal, é o meu material de trabalho e também é boa parte da minha lente no mundo. Pais, mães, filhos, complexos, vinganças, medos. É com isso que eu lido no meu dia-a-dia, na minha clínica diária.
Por exemplo: dia desses fui visitar em uma clínica psiquiátrica uma paciente de 53 anos, alcoólatra. Ela começou a me falar sobre sua vida, sobre sua história com o álcool, o casamento ruim que se desfez, o ex-marido que nela batia mas que a ajuda até hoje... Enfim, sobre ela mesma. Já no início ela diz: "Meu pai me abandonou quando eu tinha 12 anos e nunca mais apareceu. Mas eu o perdoei. Não o vi nunca mais. Mas soube de seu paradeiro, só não consegui vê-lo a tempo antes de morrer. Acho que o contato comigo e com a minha irmã precipitou a morte dele, pois foi um mês após vinte e cinco anos de ausência."
Será que era por isso que ela bebia demais? Possível. Além disso, os alcoólatras são deveras sensíveis. Como suplantar a ausência de um pai amoroso e que um dia vai embora sem dizer adeus e sem ter morrido? Como entender esse abandono? Como curar essa dor? Na minha humilde opinião, não tem cura. Jamais. Tem controle. A tristeza do desamparo e do abandono não sara nunca...
Um dia eu também conheci um cara inesquecível. Ele se chamava Fabio e era meu pai. Fez uma viagem sem volta e sem conseguir segurar uma curva derrapou até encontrar a morte 18 dias depois, em um CTI. Isso foi há 21 anos.
Meu pai tinha um olhar lindíssimo, sedutor. Adorava rock, como eu. Adorava uma cerveja, como meu irmão. Adorava tecnologia, como muita gente hoje; mas há 30 anos atrás ele já mexia em telejogo, circuitos, jogos de luz. Me amava loucamente e me chamava de princesa... Foi meu pai quem me ensinou a me amar, a me valorizar como mulher, a acreditar que valia a pena conhecer um homem que me amasse de verdade e me respeitasse. Eu devo a ele essa noção fundamental de amor-próprio. Eu devo a ele parte de minha auto-imagem. E acredito que foi por isso que pude viver boas experiências afetivas, além de fazer uma escolha acertada em um momento de maior maturidade.
Meu pai pode até não ter sido o cara mais incrível que conheci, mas foi o mais definitivo. O único que poderia ter dado a mim essa capacidade de acreditar que um amor só é possível quando nos colocamos em um lugar de merecimento e altivez. Meu pai me conferiu doçura. Uma menina sem um pai assim cresce sem mel... E pode até acreditar que merece qualquer coisa.
Ele se foi. Mas nesse momento ele está aqui me ajudando a contar essa história.