segunda-feira, 8 de julho de 2024

Uma amizade

 'As 7 horas da manhã de um dia de julho, o de hoje, agradeci as palavras na forma de mensagem de voz de uma amiga. Uma amiga recente tem me estimulado a escrever.

Lembro-me de Rilke e sua resposta a um jovem escritor a respeito de como saber se podemos ou não sermos escritores, e ele diz:"sentir que não se  pode viver sem escrever". Jamais esqueci essa lição, renovada, porém intimamente conhecida.

Meu desejo mais profundo talvez seja o de traduzir em palavras uma percepção de mundo não apenas renovada, mas um tanto revolucionada. É uma palavra forte demais para descrever, mas sinto tudo tão transformado à minha volta e dentro de mim, que uma pulsão de tradução opera continuamente.

Eu inscrevo a minha vida em uma visão de mundo à esquerda que faz uma virada de quase 360 graus em direção à direita por mera ausência de outra definição. Dentro de mim há imensa dificuldade de me definir como alguém conservadora ou de direita, uma vez que não sinto assim.

Acredito na liberdade individual e na igualdade de direitos entre as pessoas, o que me parece cínico até, ao dizer, porque desprezo a sinalização de virtude dos tempos de hoje e me parece óbvio demais que todas as pessoas sejam iguais em direitos.

Também me parece óbvio que a igualdade de direitos não signifique a supremacia de um determinado grupo sobre outro e que  um direito venha a  se converter em vantagem.

Meu total desencanto com a esquerda vem da tentativa patética de conversão de direitos em vantagens e da ideia desonesta de que um grupo, seja étnico ou outro, deva receber uma cota especial de atenção qualquer, em razão desse pertencimento. Essa prática transformou a esquerda em uma seita de hipocrisia. Não respondem à incoerência básica de seu preceito: as pessoas são iguais em direitos e deveres ou não?

Toda a política identitária se transformou em um projeto de poder em que as gerações mais novas se encontram capturadas na crença de defender a justiça social.

No mundo real, essa armadilha psicológica incapacitou as novas gerações a enxergar o mal, sendo capazes de defender um grupo terrorista ao interpretarem como resistência as piores humilhações e violência televisionada que um povo civil já sofreu.

Chegamos ao ponto de protestos pelo mundo em nome do amor a um povo que desconhecem e que jamais amaram, contra vítimas reais de uma guerra de narrativa e propaganda que instrumentaliza as melhores intenções e ignorância.

Pensar sobre essas coisas me faz querer entender o mundo e em que pé estamos.