O filme está na minha cabeça.
Não gosto quando escuto falar muito de um filme antes de assisti-lo. Prefiro a surpresa de me encontrar de repente, diante de um grande filme. A surpresa então foi maior ainda, porque sabia de antemão que era bom, e me surpreendi bastante. Tudo é bom no filme. Roteiro, direção, atores, música (fantástica). Além de tudo, é a adaptação de um livro, o que torna a façanha maior ainda. Selton Mello realmente causa um impacto inesquecível com sua atuação, mas outros atores, inclusive uns que aparecem uma única vez também. Para fazer um filme daqueles é preciso muito, muito talento. Muita competência. Incrível.
Não me arriscarei a fazer uma análise do personagem, e sem querer de forma alguma diminuir as qualidades fantásticas do filme, acho que posso afirmar que Lourenço ( o personagem principal), é facilmente compreendido à luz da psicanálise. Quem já leu "O homem dos ratos", nas obras de Freud sabe disso. Acredito que a facilidade de compreeensão da dinâmica do personagem, só qualifica ainda mais o filme. Afinal, uma coisa é saber que algumas pessoas encontram-se fixadas na fase anal, possuem características obsessivas proeminentes... outra coisa é contar isso, mais ainda é filmar, de forma magistral, isso. Não penso como Arnaldo Jabor que a humanidade um dia pode vir a ser aquilo, ou que aquele pode ser o retrato de um amanhã. A humanidade é aquilo ali desde que existe. Lourenço não é um produto da modernidade, ele é um representante ultra-legítimo de uma humanidade que sempre viveu tangenciando entre a merda e a grandeza, entre a estupidez quando de frente a algo por demais desejado, e a mesma estupidez diante de alguma coisa que lhe faz sentir mal. Só uma característica de Lourenço realmente divide os homens: sua incapacidade de sentir pelo outro. De grandeza, Lourenço não tem nada. Ainda assim, ganha a nossa empatia. Talvez pela oportunidade que ele nos dá de reconhecer nele nossas miudezas mais mesquinhas. Talvez. Mas também por essa condição nossa, humana, de gostar também de gente ruim quando olhada de perto.