Logo pela manhã conheci Maicon. Seus olhos refletiam uma das maiores alegrias e contentamentos que já vi. Eram suaves e doces. Ele quase não sorrria, mas seus olhos demnostravam um contentamento em existir. Ele precisava ficar no colo de sua mãe para sustentar seu pescoço e também para sentar-se. Sua cabeça era maior na região frontal e causava estranheza a qualquer observador por sua diferença no mundo. Ele já tinha 1 ano e 5 meses,no entanto seu desenvolvimento era muito aquém. suas mãozinhas eram de enorme delicadez e el conseguia segurar objetos e se interessar por eles. maicon estava interessado no mundo à sua volta; preso em seu corpinho frágil, depende. Para sempre dependente. Para sempre criança. Porém, aquela alegria infantil e perturbadora deixava claro para mim que ali vivia uma criança e uma alma tão inquieta quanto a de todas as outras crianças. Maicon fez com que eu tivesse vontade de cuidar dele. E me fez também acreditar na abissal igauldade entre todas as crianças. Me fez pensar, entristecer, querer ligar para os meus amigos para celebrarmos a vida e nossos breves istantes juntos e ainda o breve instante que é viver. Maicon me deu motivos para acreditar em tudo o que eu faço, em tudo o que fazemos.
Logo depois encontrei Daniel, um rapaz de 14 anos que apresenta pelos no rosto e um nítido stop no desenvolvimento. Ele era um garoto sem qualquer problema até os 11 anos quando uma fraqueza progressiva nas pernas o fez procurar um médico. Hoje ele anda vagarosamente e cai algumas vezes ao dia. Possui uma distrofia muscular progressiva. Quando lhe foi solicitado sentar-se ao chão e levantar-se sem apoio, ele não conseguiu.
Eu sei que as pessoas ficam doentes, mas preciso aprender a aceitar que as crianças ficam doentes, nascem doentes e morrem antes de se tornarem adolescentes ou jovens. Dói-me intensamente olhar o olhar das crianças doentes. Elas não entendem e são duplamente dependentes. Dói-me profundamente ver seus pais e mães, muitos sem dinheiro para comprar os remédios ou o diheiro da passagem, acompanhá-los humildemente,também sem muito entender seus limites e esperanças.
As crianças são o futuro. Mas essas crianças contradizem essa frase tão necessária a nos encher de esperança. Com elas vão-se também um pouco da minha alegria, mas um outro sentimento também inunda o meu coração: o de que a vida não é feita só de alegrias e o de que nós, profissionais de saúde, devemos estar cada vez mais comprometidos com a vida e seus cuidados.
Ao Maicon e Daniel meu respeito e amor.