segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Por que Fernando?

Falar do nome de um filho significa falar um pouco da história de seus pais.
Eu fui por muito tempo Fernanda. Ou melhor, até o meu registro acontecer, o que significou para meu pai um momento de poder e escolha, pois os pais são aqueles que registram os filhos em nosso país, cabendo a eles decisões finais.
Por essa razão (possivelmente herdada de nossa história patriarcal), fui registrada Fabíola e não Fernanda, dado que meu pai preferiu satisfazer o desejo de sua própria mãe, e não o da minha.
Minha mãe queria Fernanda, minha avó paterna, Fabíola. Venceu o patriarcado.
Nasci Fernanda e cresci Fabíola.
Mas um dia ganhei um passarinho, um canário belga, e dei a ele o nome de Fernando. Virou o Fernandinho.
Amei o Fernandinho uma vida inteira, e um dia ele se foi. Não sem antes ter colocado um ovinho e ter-se revelado Fernanda, depois de muitos anos Fernando. Para mim, ele foi muito mais Fernando do que Fernanda. Aliás, ele foi todo Fernando... Lembro-me de seu canto maravilhoso e de minha pouca interrogação a respeito da privação de liberdade que aquela criaturinha que eu tanto amava vivia em seu cotidiano. Acho que não era momento para tais perguntas. O que eu queria mesmo e precisava era amar o Fernandinho.
Muitos anos depois, já em minha segunda gravidez, ocorreu-me o nome Fernando para o bebê que eu havia acabado de conhecer o sexo. Sem que eu fizesse qualquer ligação com a história aqui contada, o nome ressurgiu e um dia eu me lembrei a razão.
Ser mãe significa muitas coisas, e uma delas diz daquilo que restitui nosso próprio feminino.
Homenageei a escolha de minha mãe.
Meu pai já havia sido, através de meu próprio nome.
Dedico a eles, meu pai e minha mãe, o meu amor, nestas lembranças.



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