segunda-feira, 4 de abril de 2016

Um dia na vida e na morte de cada um

Meu marido, companheiro, amigo e amor da minha vida está em Paris vindo de Bruxelas há 3 dias. Ele estava em um congresso médico naquela cidade antes de seguir para Paris.
Ontem acordei com uma ligação dele, preocupado em me dar logo a notícia para que eu soubesse que estava tudo bem em Paris.
Além do pequeno susto inicial ( o de receber um telefonema logo cedo pela manhã dele em viagem, o que não aconteceu em nenhum dia), fui tomada por um certo desconforto e tristeza. Afinal, nossa vulnerabilidade é testada a todo instante quase. Cada vez mais sabemos o quanto vivemos em um mundo de completas incertezas.
E então eu fui aos poucos deslizando nas passagens da semana iniciadas na segunda, um dia antes desse telefonema.
Soube da morte de uma criança de 12 anos. Por que uma criança saudável de 12 anos morre em uma semana após sentir uma dor no joelho e ser vista por dois médicos em dias diferentes? Por que esse menino morreu em casa subitamente? Ele vinha sendo medicado com analgésicos. A mãe fez o que poderia ter feito. Procurou atendimento médico para o filho. Ele não melhorou. Procurou de novo. E ele morreu em casa.
Esse menino morava em Engenheiro Pedreira, distrito do município de Japeri, Rio de Janeiro. Era um menino de família economicamente empobrecida.
Como médica e mãe de um menino de quase 12 anos, fiquei muito triste. Mas não de tristeza somente fui tomada ao saber dessa perda. Senti revolta. Desconhecendo a história e tendo apenas os elementos que me foram contados, era provável que essa criança tivesse um quadro de osteomielite no joelho, que não foi tratada nem diagnosticada. E eu me pergunto: "Ninguém desconfiou?"
Parece que não. Sendo assim, há muita coisa errada há muito tempo a acontecer.
Nesse mesmo dia ainda, uma paciente conta durante a sessão, que sua empregada não pôde ir trabalhar hoje. E por que? Porque na comunidade onde ela morava, em um de nossos subúrbios aqui nno Rio de Janeiro, estava havendo uma troca de tiros entre a polícia e os bandidos. E o que
acontece? Ninguém sai. Ninguém entra. Não soube dessa troca de tiros. O jornal OGlobo nem mais se dá ao trabalho de noticiar algo dessa natureza. Tornou-se tão banal a violência nas comunidades pobres do Rio, que publicar uma notícia dessas não tem peso ou interesse.
Então eu me pergunto: Qual a diferença entre morar em Bruxelas, em Paris ou no Rio? A diferença é que aqui, assim como na maioria das outras capitais desse país, estamos mais inseguros.
A vida continua a passar como um raio. E o fim pode estar em qualquer lugar, em qualquer momento.
Mas o que mais me toca é a vida que se perde pelo descuido, pela provável falta de estudo e sobra de ambição, que simplesmente reforça a invisibilidade de um sem-número de pessoas, milhões delas aqui no Rio, transformadas em nada, em puro material de campanha política ou material de estudo de médicos recém-formados ou mal- formados ou ambos, que navegam pelos retumabantes domínios de uma desfaçatez inefável, inescrupulosa. Essa realidade do erro médico é a realidade do povo invisível transformado emcoisa nas mãos de pessoas imaturas e  tão despreparadas ao ponto de deixarem passar uma dor em um joelho de um adolescente de 12 anos que retorna ao posto após a prescrição analgésica não surtir efeito. Vem cá, não despertou uma outra curiosidade? Vem cá, não pensaste em outro diagnóstico, cara pálida que deixou morrer uma criança não por falta de recurso, nem por falta de mãe, mas por ter caído nas mãos de seguido médicos desinteressados de seu sintoma?
Eu sinto vergonha desses médico. Que estudassem mais!
Eu sinto vergonha desse sistema de saúde, não do SUS, do qual tenho orgulho pelo tanto que é capaz de fazer com tão pouco a receber. Eu sinto vergonha e horror como um todo a um sistema que há muito tempo mercantilizou a saúde e transformou médicos e pacientes em objetos de consumo.
Acreditem, é bom lançar os dados da sorte, porque em nenhuma emergência, mesmo nas mais sofisticadoas, com raras excessões, as pessoas estão livres da incompetência dos médicos que as atendem. Há bons médicos? Claro que há. Mas é preciso conhecer para não precisar jogar dados. E em muitos dos que estão no SUS estão entre os melhores. Ainda. Porque no andar da carruagem da sangria desatada nos nossos melhores hospitais universitários, poucos bons médicos estarão presentes no futuro. E quando eu digo bons, eu me refiro aos que priorizam o contato humano e ainda assim mantém- se alinhados ao bom estudo e formação.
A população leiga não imagina a precariedade na formação médica de muitas escolas, abertas graças às novas concepções mercadológicas que nasceram com o século XXI, um século que em parte emburreceu ao adotar a cegueira economicista para a ordem das coisas científicas e médicas em geral. Esqueceu do ser humano. Priorizou a setorialidade da vida e o fez com o consentimento assim como com o alheiamento de grande parte das populações que tem passado os últimos 20 anos mais preocupadas em como pagar a prestação do carro do que com o mundo em que habitavam e naquilo que este estava e vem se transformando.
Chegamos em 2016 repletos de guerras, medos, lixo, temperaturas elevadas, calotas polares derretendo, vidas sendo ceifadas aqui, em Bruxelas, em Paris. Umas por guerra e ódio. Outras por profunda indiferença e descompromisso.
Foi pra isso que tivemos e temos que correr tanto?
Onde se encontra o tão profanado amor? Ele deve estar nos livros, nos filmes, e de lá ele nos alimenta em nossa tocante necessidade de ilusão.