O sol radiante cobria toda a paisagem de Ana. O calor irradiava sobre seus braços, pernas, colo. Impulsionadas pela força do cenário, veias, músculos, mamilos, lóbulos, ventre, púbis, períneo e cavidades, arredias à irrealidade das satisfações das ilusões, rápida e demoradamente, entregavam-se à confortável sensação do corpo inteiro de Ana, que saltitante, magnética até, aproximava-se da beira do cais onde o amante aportara a fim de desbravar-lhe aquele vestido cor de pena clara, de tecido leve praiano, que adornava seu corpo exuberante de vida e beleza. Uma mulher assim não se deixa em pleno solo, em pleno abandono naquele balneário fustigado pelo sol e calor e adocicado e embevecido por essa história de paixão e sensualidade.
Ana e o amante conheceram-se antes do pôr-do-sol, e quando de antes do nascer do dia, seus olhos não mais poderiam desviar-se , nunca mais. Uma noite inteira de conversas inteiras, uma noite inteira de desconversas profundas, uma noite inteira que apenas o ócio da paixão seria capaz de realizar nos olhos de dois jovens amantes.
Enquanto aportava, Ana sonhava. E o amante, de dentro do barco, tomava Ana pela mão e calmamente a adentrava; quando lá, minuciosamente lhe tirava o vestido, a beijava inteira, para que ela o entregasse em retorno certas carícias que somente uma dona muito apaixonada poderia entregar. E ali restaram, restaram. Até que o pio de uma gaivota lá do alto os despertasse, tirando-lhes o sono da volúpia para que devolvessem à vida a continuidade desejada por essa tal alteridade gerada quando acredita-se amar.
O despertar fez Ana e o amante correrem para a sorveteria do cais e pedirem um sorvete de chocolate e creme como completude ao prazer. Ligados à carne estavam e assim decidiram permanecer.
Os amantes escolhem a volúpia e aproveitam a fase da paixão como uma distração necessária, como combustível inflamável capaz de desvirtuar todas as virtudes. A paixão pelo amante foi a primeira transcendência da vida de jovem adulta de Ana. Nunca mais foi a mesma. Ninguém jamais é.
Encontraram-se assim por quatro meses, quando o amante sorriu de um jeito que desencantou Ana.
Com a sensação de um passado recente descabido e as memórias sorridentes das alegrias vividas, Ana deixou o balneário e não mais voltou ao cais.
Para trás, o deleite ostentado. Para frente, a experiência dos grandes prazeres que algumas mulheres tem a felicidade de carregar na memória.
Os olhos não mais precisaram desviar-se de fato. Nunca mais se olharam.