Marcelo descobriu que é portador do vírus da Aids há menos de 2 meses. Ele tem 28 anos. Cantar e dançar é o seu trabalho. Nunca havia feito exame para o HIV porque sempre confiou nos parceiros. Não usava camisinha porque confiava. Não fez teste antes porque além disso tinha medo.
Seus olhos me permitem conhecê-lo desde a infãncia apesar de tê-lo conhecido hoje. Eles solicitam carinho e atenção. Eles pedem para que seja olhado e escutado, mas que sobretudo seja compreendido.
Ele nunca conheceu o pai, e apanhou a vida toda do padrasto, alcoólatra.
Drama demais? Pode parecer que sim, mas histórias como essa são muito comuns.
Ouço inúmeras vezes: "Nunca conheci meu pai." São Marias e Joões, Marcelos. Todos doentes da alma ou do corpo, ou dos dois.
Todos em algum momento me remontam à suas infâncias e eu posso vê-los correndo pedindo afeição e reconhecimento. Nada além daquilo que em teoria todo ser humano deveria ter. Carinho, afeto, respeito e conhecimento de sua origem.
Mas eles não alcançam essa simples sabedoria de si mesmos.
Mais tarde, pessoas como eu os ouve falar no pai, que "é o dono do hospital todo"; no pai "que um dia foi embora e nunca mais quis saber de mim", no pai " que morreu matado", no pai "que a mãe não fala". O pai que todos precisam. Bom ou ruim, todomundo tem (ou teve) um. Desconhecido ou presente.
Quando você tiver a impressão de saber como alguém era quando criança, é muito provável que esse alguém esteja lhe pedindo ajuda.
Um abraço carinhoso em todos os Marcelos, em todas as Marias, em todos os Joões...