sábado, 23 de agosto de 2008

Nome próprio

Hoje eu assisti ao filme cujo nome é o título da postagem. Fala sobre uma escritora brasileira de um blog, acho que um dos mais lidos no Brasil. O nome dela no filme é Camila Lopes. Camila é uma mulher jovem, muito inteligente, muito literária, bastante literal. Camila vai fundo em suas emoções, escreve belissimamente, cheia de poesia, pintura, cores, mundos e desejos em seus versos apaixonados. Camila é corajosa, e dona de um sentimento de liberdade capaz de deixar perplexo o mais comum dos mortais e atraído o mais romântico dos homens. A sexualidade de Camila é libertária, ousada, amoral. Ela não tem medo de viver o seu desejo. Ao contrário, vai de encontro a ele como quem parte para uma partida qualquer. Joga com sua exuberância e a agudeza de seus sentidos. Vibra com o desafio. Camila não tem limites para seus desejos.
Ela não compreende a ira de seu namorado quando a flagra transando na cama com um homem desconhecido. Camila compreende a atitude de Felipe, o namorado, como o resquício latino-americano do ciúme inadequado aos parceiros que vivem não pela fidelidade em si, mas pela paixão que um ao outro devotam, e o compartilhar de seus corpos não possui relação com o "projeto" inicial de viver a dois. Esse "projeto", segundo Camila, justifica a vazão de seu desejo, de sua entrega a um outro homem. Desejo por puro desejo. Ela reaje à rejeição do namorado qualificando-o ou o desqualificando de : "machista, puto, traidor". Traidor porque traiu o projeto de irem além, de compreenderem que uma transa não representa nada além de uma transa, e de que o amor é que vale. Mas o amor de Felipe não resistiu ao ver a namorada na cama com outro homem. Ele diz a ela: "Foda-se Camila, me esquece.Você é uma piranha." Ela xinga Felipe de vários nomes, e sustenta que foi ele quem a traiu, porque traiu o "projeto".
Ainda no filme ela se envolve com o namorado de uma amiga, afinal, surgiu o desejo. Desejo de sentir-se viva, desejada a cada dia, sentir-se fêmea, viver sua voracidade pelo mundo, para o mundo, com o mundo. Esta é sua posição no mundo, uma mulher que vive instintualmente grande parte de seus sentimentos. Talentosa e sem qualquer embaraço, escreve tudo em seu blog.
E o blog virou filme, um bom filme que fala não somente de uma mulher ímpar, mas diz também de toda uma época em que resguardar os sentimentos e a intimidade estão meio fora de moda.
Camila é uma escritora talentosa cujos desejos tiveram maior importância do que a preservação de amizades, respeito mútuo, e de sua própria intimidade. Ela possui a arrogância dos inteligentes que desdenham dos mortais comuns, que simplesmente trabalham, estudam e lêem bons livros; fazendo ( ou tentando fazer), dos homens, seus objetos de diversão, em nome próprio, em nome do desejo. Quando um cara meio almofadinha chega para ele puxando um papo bobo e começa assim: " Eu sou de Ribeirão Preto...", ela logo diz: "Não há nada em Ribeirão Preto que me faça ter vontade de conhecer alguém de lá." Sincera a Camila. Como eu disse ela está mais interessada em expressar seus sentimentos do que ouvir sentimentos alheios aos dela.
Há um certo momento em que ela se apaixona por Daniel, e vive 3 dias de ardente paixão em seu apartamento. Porém, sem que ela saiba, seu objeto de amor já tem no coração sua eleita, e Camila é pega na perplexidade ao se ver esquecida e preterida. Ela enfurece ao não compreender a rejeição, pois demonstra desconhecer que suas doces palavras e talentos de paixão ardente serviram provavelmente para alimentar a fantasia de seu fã-paixão, e que 3 dias de ardente amor e paixão não desconstróem e não desconstruíram o "projeto" de Daniel, que era o de continuar a viver muito bem e feliz com Aurora, a mulher a quem devota seu amor. Camila na verdade, imbuída de uma idéia equivocada a respeito de seus próprios poderes femininos parece não se convencer de que estes não foram suficientes para tirar Daniel de seu horizonte. Ela novamente encontra-se em ira pura, e diz: "Eu não vou ser vítima desse cara. Ele é quem vai ser minha vítima." Mais uma vez ela se engana, porque nas relações de grande intensidade afetiva e sexual só perde ou ganha quem entende a relação como partida a vencer ou perder. E só perde no amor quem embarca no sentido contrário aos próprios sentimentos, só perde no amor aquele que vive a disputa. E disputar amor é qualquer outra coisa, menos amor.
Camila é muito jovem e sua busca de emoções aliada à sua fina inteligência poderão levá-la a um direcionamento diferente de seus afetos. Ela poderá um dia descobrir que pode ser "foda" como ela gosta de ser sem precisar dizer que está acima dos sentimentos mundanos do ciúme, da posse, das retaliações. Talvez ela venha a descobrir que irá pagar um preço muito alto toda vez que entender que seus desejos estão acima dos desejos das pessoas que com ela convivem. Mas esse entendimento costuma vir com o tempo e a maturidade, e não aos vinte anos.
De toda forma, interessante assistir a um filme onde o mais importante foi ter mostrado uma mulher como ela é, com seus prós e contras; sem a preocupação politicamente correta e entediante de fazer um filme onde todos entendam quase tudo, onde o personagem principal seja reto em caráter, ou um bandido sedutor. Camila é uma mulher bonita, escreve bem, e virou filme.
Camila Lopes, uma mulher interessante.