Alguns pacientes ficam na nossa memória.
Havia um, que dizia assim todos os dias: " Pelo amor de Deus, doutora!!!", sempre que eu lhe dizia que ele não teria alta. Hoje eu avalio melhor o quanto aquilo era cruel. Uma internação em um hospital psiquiátrico naquelas condições, o quanto para ele era difícil ficar ali.
Não sou contra a internação psiquiátrica, é bom deixar claro. Mas admito e reconheço o equívoco dessa prática como conduta terapêutica por si mesma, como uma finalidade. A internação se justifica em alguns casos, e que hoje são (ou deveriam ser), uma pequena parcela da população psiquiátrica. Situações como mania aguda, risco de suicídio, catatonia; dificilmente serão bem conduzidas fora do hospital, mas não é impossível.
Uma amiga psicóloga e estudiosa da área me disse certa vez: "Eu tenho vontade de perguntar para algumas pessoas: Você internaria seus pais ou um filho seu em um manicômio?". Questão interessante.
O paciente de que falo arrancou todos os dentes. Com a ajuda de um dentista que aceitava extrair seus dentes a dez reais cada um. Toda vez que ele entrava em crise, arrancava um dente. Até que ficou sem nenhum. E o dentista deve ter faturado uns trezentos e cinquenta reais com ISSO. Esse paciente também acreditava estar contaminado pelo vírus do HIV. Tinha feito vários exames, todos negativos, mas delírio é delírio. Não pode ser mudado através de argumentos da razão. Sua mãe uma vez me disse: " Doutora, o exame veio assim: Não-reagente; então ele me disse (o paciente): Tá vendo, mãe? Eu estou tão grave que não reajo mais!".
Uma outra paciente foi inesquecível para mim. Ela me chamava de "Eve de Brussel", quando estava maníaca. Foi uma de minhas primeiras pacientes. Uma vez, no meio dos seus delírios de grandeza, de sua agitação e euforia, ela me disse: " Você acha que isso é de verdade? Por que você acha que eu faço tudo isso, me pinto assim, falo alto, rio de tudo...? Eu faço tudo ISSO porque eu sou uma pessoa muito triste!". Eu, iniciando no mundo da psiquiatria, fiquei pasma. E hoje também ficaria. Porque entrar em contato com a alma das pessoas é a experiência mais fascinante que pode existir.
A loucura não me abala, e o sofrimento psíquico me mobiliza.
Eu digo que entrar nesse mundo psi é perder a inocência. Oferecer a alma para se compreender e compreender o outro, que sofre, ou não.
O inconsciente não admite hipocrisia, moralismos, tampouco a ética. Mas admite gostar e não gostar da mesma pessoa, desejar morrer e desejar viver.
Entende que a natureza mental humana não é boazinha, e não se surpreende tanto com o fato do mundo ser um lugar às vezes tão complicado.
Meus pacientes me ensinaram muito sobre isso, sobre suas naturezas, seus lados bons, maus...
Ler a teoria e viver com eles a realidade. Inesquecíveis.