Hoje eu conheci Rafael e Pedro.
Rafael é um homem de uns 35 anos, diz a respeito de si mesmo "ter perdido o interesse por mulheres" tornando-se homossexual por esse motivo. Usa cocaína semanalmente "para conseguir beber e não dormir". Diz mais ou menos assim: "Desconheço esse negócio de onda por cocaína. Cocaína apenas te deixa mais disposto, mais alerta, mais engrandecido. O cara que faz uma bobagem não pode atribuir à cocaína. Faz porque pensava em fazer..." Rafael viveu em Recife até os 18 anos e não possui qualquer sotaque pernambucano. Parece jamais ter pisado os pés por lá. Sua mãe ainda vive em Recife com seu padrasto. O pai ele nunca conheceu, mas foi registrado por ele devido à pressões de sua mãe. Nesse momento eu disse a ele: "Que bom que sua mãe fez isso. " E num tom de brincadeira e dentro do contexto acrescentei: "Ninguém merece não ser registrado." E ele disse: "Eu não gostaria de ver em minha identidade aqueles XXXXXXXXXXXXXXXXXX.", referindo-se aos XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX encontrados em toda filiação em que o filho ou a filha só tem o nome da mãe. Esses XXXXXXXXXXXXXXXXXX ficam estampados, retratados, para SEMPRE. O sujeito olha a vida inteira e sente e pensa: "Sou filho do XXXXXXXXXXXXXXXXXXX." Triste isso.
Seria ótimo que toda mãe fizesse exatamente igual à mãe do Rafael: Não permitisse que seu filho levasse por toda a vida um XXXXXXXXXXXXXXXXXXX na identidade. Afinal, toda criança nasce a partir de um pai e de uma mãe.
O Pedro eu conheci logo depois. Fiquei preocupada. Um rapaz lindo de 21 anos casado há 2 semanas e já ameaçado de separação. Esposa grávida.
Pedro explode. Sem compreender o motivo lhe vem uma raiva incontrolável e ele agride. Deixou o irmão mais velho desmaiado e esse é mais forte que o Pedro. Mas ele diz que "quando fica com raiva a força se multiplica". Pedro possui o olhar da loucura nos olhos. Sabe que há algo muito errado com ele. E há mesmo. Mas também há alguma sanidade, pois vendeu o 38 que tinha dentro de casa.
Para o leigo o louco é louco no todo. Mas "loucos" funcionam também, em partes. Pedro não é louco. Ele possui a loucura. E a loucura não pode dominar tudo. Essa pode ser a minha responsabilidade sem heroísmos.