Hoje eu li uma entrevista na revista "Quem" com o Caio Junqueira, e ele disse o seguinte a respeito do pai, morto em novembro do ano passado, o também ator Fabio Junqueira: "Meu pai foi o cara mais incrível que conheci."
Sempre fico emocionada quando leio esse tipo de coisa, afinal, é o meu material de trabalho e também é boa parte da minha lente no mundo. Pais, mães, filhos, complexos, vinganças, medos. É com isso que eu lido no meu dia-a-dia, na minha clínica diária.
Por exemplo: dia desses fui visitar em uma clínica psiquiátrica uma paciente de 53 anos, alcoólatra. Ela começou a me falar sobre sua vida, sobre sua história com o álcool, o casamento ruim que se desfez, o ex-marido que nela batia mas que a ajuda até hoje... Enfim, sobre ela mesma. Já no início ela diz: "Meu pai me abandonou quando eu tinha 12 anos e nunca mais apareceu. Mas eu o perdoei. Não o vi nunca mais. Mas soube de seu paradeiro, só não consegui vê-lo a tempo antes de morrer. Acho que o contato comigo e com a minha irmã precipitou a morte dele, pois foi um mês após vinte e cinco anos de ausência."
Será que era por isso que ela bebia demais? Possível. Além disso, os alcoólatras são deveras sensíveis. Como suplantar a ausência de um pai amoroso e que um dia vai embora sem dizer adeus e sem ter morrido? Como entender esse abandono? Como curar essa dor? Na minha humilde opinião, não tem cura. Jamais. Tem controle. A tristeza do desamparo e do abandono não sara nunca...
Um dia eu também conheci um cara inesquecível. Ele se chamava Fabio e era meu pai. Fez uma viagem sem volta e sem conseguir segurar uma curva derrapou até encontrar a morte 18 dias depois, em um CTI. Isso foi há 21 anos.
Meu pai tinha um olhar lindíssimo, sedutor. Adorava rock, como eu. Adorava uma cerveja, como meu irmão. Adorava tecnologia, como muita gente hoje; mas há 30 anos atrás ele já mexia em telejogo, circuitos, jogos de luz. Me amava loucamente e me chamava de princesa... Foi meu pai quem me ensinou a me amar, a me valorizar como mulher, a acreditar que valia a pena conhecer um homem que me amasse de verdade e me respeitasse. Eu devo a ele essa noção fundamental de amor-próprio. Eu devo a ele parte de minha auto-imagem. E acredito que foi por isso que pude viver boas experiências afetivas, além de fazer uma escolha acertada em um momento de maior maturidade.
Meu pai pode até não ter sido o cara mais incrível que conheci, mas foi o mais definitivo. O único que poderia ter dado a mim essa capacidade de acreditar que um amor só é possível quando nos colocamos em um lugar de merecimento e altivez. Meu pai me conferiu doçura. Uma menina sem um pai assim cresce sem mel... E pode até acreditar que merece qualquer coisa.
Ele se foi. Mas nesse momento ele está aqui me ajudando a contar essa história.