O filósofo RC inventou o termo esquerda caviar baseado na defesa da ideia de que se você for um pessoa com ideias de mundo à esquerda e as expressa politicamente através do voto em candidatos de esquerda, você deveria se comportar como... Como?
Isso mesmo. Como devemos nos comportar mesmo?
O argumento de RC é baseado em uma lógica afirmativa que busca transformar em contradição e o pior, em incoerência, o que não é. Assim, votar em candidatos de esquerda e acreditar em políticas inclusivas, assim como rejeitar veementemente a ideia de Estado Mínimo não tira, e o mais importante, não contradiz o direito de ninguém a ter em sua vida, aspectos materiais de qualidade, como beber um bom vinho, ter um bom carro ou viajar ao exterior. Ou ( a anti-lógica que esse sujeito busca perpetrar é tão perversa), muito menos, o direito a quem não tem essas possibilidades materiais, a sonhar com eles.
A tentativa de transformação de um pensamento agregador e não-excludente em uma contradição procura colocar as pessoas em uma posição defensiva de explicação do óbvio. E explicar o óbvio, convenhamos, não é fácil. Então vou citar alguns exemplos que bem poderiam ser utilizados como sinônimos ao" Se você pertence a um nível sócio econômico elevado e bebe um vinho sofisticado, como você pode votar em um partido de esquerda?" Outra pérola: " Se você gosta de ficar em bons hotéis no exterior, como você pode apoiar o bolsa família?";
Posso fazer um paralelo com: " Se você é bonito, por que você tem amigos feios?"; ou: " Mas se você é especialista em pizzas, por que come torta de chocolate também?"
E para complementar o raciocínio a fim de compreender um argumento tão nocivo e desconstrutivo, e antes de tudo "profundamente raso", poderíamos também: " Por que, se você é pobre, gosta de pessoas ricas?" Ou: " Por que, se você é pobre, deseja ter dinheiro?". Essa é a pergunta que se esconde por trás da teoria da tal esquerda caviar. Para que tudo fique em seu lugar e não se mova. Mas sobretudo, para que pobres não queiram o que não tem, e que ricos ( ou a esquerda caviar), não
queiram entender os pobres. Muito menos dividir alguma coisa ou ajudar.
Essa definição inventada pelo citado filósofo é corroborada por um outro filósofo, Felipe Pondé, que considera o livro de RC "imprescindível para o entendimento do Brasil". Esse filósofo utiliza a teoria de Nitzche a respeito do ressentimento para explicar o Brasil. Demais, não? Diz que as pessoas, em especial os brasileiros, são um povo infantilizado que aguardam um Estado Pai para cuidar deles. Sem entrar no mérito dessa questão, e sim no uso dos argumentos, percebo que tais colocações estão a serviço não de uma construção de uma ideia, mas sim da demolição de uma outra, que é a de uma construção social dentro do país em que vivemos, com todos os problemas que temos.
Buscar desconstruir com argumentos que partem de um pressuposto falso, que é a ideia da contradição e da incoerência onde ela não existe, é o princípio da negação do desejo do outro em se reafirmar como sujeito também através de sua experiência com o outro. Esse princípio de negação esteve presente na germinação de todo princípio totalitário.
São pessoas como essas que tem ganho cada vez mais espaço na grande mídia, onde uma espécie de buraco se agiganta e se transforma em abismo provocado pelo vazio das esquerdas que hoje possuímos, provocado pelo enorme rombo moral, ideológico e subjetivo que inunda o nosso país.
país.