quarta-feira, 24 de junho de 2015

Entre as mulheres da cidade

Descia do elevador quando encontrei minha médica oftalmologista e reclamava com ela a respeito da minha nova condição de consumidora de óculos, sobre o espectro do envelhecimento, sobre o alvorecer irresignado do tempo e das nossas novas condições biológicas que atestam a nossa mortalidade e muda nosso lugar subjetivo no mundo. Ontem éramos a juventude, hoje somos a maturidade, amanhã seremos a velhice. Seremos?
Ela me sorriu e eu realmente pensava que ela tivesse dez anos a menos. Parece que a bondade e o brilho pessoal confere juventude e vivacidade a alguns. Como ela.
Ela, que há dois anos perdeu sua única filha de 27 anos de uma doença rara. Ela, que mudou-se para uma outra cidade para cuidar melhor da filha. Ela, que me atende com um sorriso nos lábios sempre, com carinho e espaço para ouvir um pouco mais do que em geral oftalmologistas ouvem. Então ela me conta que enfrentou, em abril desse ano, um outro desafio. Câncer de mama bilateral. Precisou retirar ambas as mamas. E mais uma vez com um sorriso nos lábios, ela me conta essa história. Diz que ama a vida, ama estar aqui, e que vale muito a pena. Diz que os graus a mais não são nada, porque vale muito a pena apreender os significados de viver. Eu sorri de volta muitas vezes, encantada com o encontro casual na saída do elevador.
Então eu segui para meu compromisso de vida, posto que uma amiga me esperava para juntas assistirmos ao grupo Mulheres de Chico. Eis que me dirijo aos subterrâneos da cidade pelo metrô e me junto ao Passeio Público carioca e sigo em direção ao Teatro Rival. Lá encontro minha amiga e o show começa cerca de trinta minutos depois. Mulheres de rosa e vermelhos como tons predominantes encontram- se no palco portando diversos instrumentos e microfones; chocalhos, baixo, tambores, cuícas, cavaquinho... Coisa linda de ver. E inédita.
Como assim? Eu, em toda a minha vida jamais assisti a um grupo musical onde todos os componentes fossem mulheres.
Como os homens se sentiriam?
Como deve ser ver o mundo como homem? Não sei. Sei que assistir a esse grupo foi muito diferente para mim. Ali estavam mulheres como eu, como minha amiga, como minha oftalmologista, como todas nós, que provavelmente nunca paramos para pensar em como deve ser olhar o mundo ao contrário. Sempre olhamos o mundo da única forma possível, onde o feminino é a regra a a excessão em muitas atividades da vida cotidiana.
Meu sentimento foi de profundo amor e gratidão, além de identificação, a todas as mulheres que um dia me tocaram afetivamente e positivamente. Pensei em sua força, em seu feminino, em nossa exclusão.
Quando duas crianças que estavam presentes no show foram convidadas a subir ao palco e as integrantes deram as mãos a elas, senti a instintiva força maternal e de cuidado que caracteriza a todas nós. As duas crianças, uma de seus sete anos e a outra não maior do que três anos, ainda que não completamente à vontade, sentiram-se seguras e cantaram e dançaram no palco. De algum modo
puderam se sentir amparadas e não exibidas ou invadidas. Será que permaneceriam se o grupo fosse exclusivamente masculino e sem nenhum integrante familiar? Acho difícil.
Essa visão da arte através da mulher protagonizando um show musical em homenagem ao aniversário de um homem, Chico Buarque, que é o homem que todas as mulheres gostariam de ter tido e o homem que todos os homens gostariam de ter sido, ou vice e versa..., possui capacidade transmutadora. Faz parte do mundo possível e aberto a todos. Um mundo que historicamente sente-se ameaçado em sua força bruta por essa força enternecida formada pelo feminino.
Eu sinto muito orgulho e felicidade por ser mulher. Sei que a luta é grande, mas já valeu a pena. E
acho que nessa batalha, o melhor está por vir.
Vou comprar um vestido rosa.