segunda-feira, 21 de setembro de 2015

E o tempo ainda é o de hoje, o único

Hoje acordei com o grito de macho dos machos do Bope.
 Explico: moro bem perto da sede do Bope, em Laranjeiras, e é muito comum ver os policiais daqui de casa assim como escutá-los no raiar do dia. Saem como guerreiros... gritam frases de efeito, coisas muito loucas e engraçadas, se não fossem verdade. Eles dizem coisas que exaltam a coragem e os objetivos de lutar contra os bandidos que encontram pelo caminho. Gritam bem alto às cinco da manhã. Eu acredito que ninguém reclame... sou vizinha do Bope... vou reclamar dos caras? Melhor não.
Aproveito essa experiência matinal e crônica para fazer uma espécie de interseção aos últimos acontecimentos aqui no Rio de Janeiro, onde arrastões acontecem à luz dos dias em finais de semana de sol, nas praias e também nas ruas. Parece inclusive que o arrastão no Humaitá foi uma reação a uma abordagem policial a um grupo de jovens pobres que vinham da zona Norte à zona Sul para irem à praia. Em sequencia quase, tivemos a agressão de jovens moradores de Copacabana a outros jovens que estavam dentro de um ônibus após sairem da praia, sem que esses jovens agredidos nada tenham feito. Se a polícia não chegasse, um rapaz de 17 anos teria sido linchado.
Há muitos anos o funk tem tentado cantar, protestar e chamar a atenção das pessoas para a realidade da favela. Basta ouvirmos "O rap do Silva", lindíssimo; ou " Eu só quero é ser feliz", ou o "Rap das armas", para nos aproximarmos um pouco daquilo que eles querem dizer e que é preciso ouvir. E ao nos aproximarmos, perdermos um pouco do medo que aprendemos a ter dos jovens pobres e expropriados de direitos muito básicos, como o de ir e vir em suas comunidades, sem o convívio frequente com a morte de amigos inocentes, ou algumas vezes nem tão inocentes, mas sumariamente desprovidos do direito de viver sem qualquer chance de julgamento (executados). Temos medo? Sim, mas não tenha dúvidas: os moradores das favelas tem muito mais.
Essa realidade faz parte de todo carioca, e cada vez mais, da maioria dos brasileiros, seja nas grandes cidades ou em cidades menores. O tráfico de drogas é um problema de saúde pública também, ainda que as pessoas insistam em mantê-lo dentro de uma esfera inócua de ilegalidade que apenas transforma o nosso cotidiano em medo e mentira. A quem interessa manter a criminalização das drogas e de seus usuários? Certamente a uma massa de gente que não conhece ou prefere ignorar a realidade, e que realmente acredita que proibições são capazes de coibir as pulsões humanas e suas necessidades, ou que, e nesse grupo encontram-se os reservistas morais, acham que sabem o que é melhor para os outros a partir de sua própria visão de mundo. Mas ok, essa é uma discussão complexa e esse não é o objetivo aqui, mas deixar de falar sobre isso produz uma ausência que não é exatamente o meu feitio.
O Rio de Janeiro, mais do que nunca purgatório da beleza e do caos, precisa se posicionar.
As coisas não irão parar por aqui.
Não adianta bloquear os ônibus diretos da zona Norte à zona Sul, Não adianta tapar o sol com a peneira. Todos estamos no mesmo barco, morrendo na praia também ao nos tornarmos cegos para a questão do tráfico de drogas e a desgraça que vem operando nas nossas vidas, cegos aos jovens pobres que são mortos e humilhados em seus cotidianos, e crentes em soluções ilusórias a respeito da segurança pública.
A segurança pública é fruto de um conjunto de políticas públicas. E a mais determinante é a educacional.
De que maneira essa juventude marginalizada ganha voz? Quais os significados, que temos o dever de  tentar descobrir, estão por trás de hordas de jovens que aterrorizam a população que não pode desfrutar de uma praia em paz? Não estariam nos dizendo que a paz para eles nunca existiu? Não existe uma denúncia que evidencia um sistema educacional incompetente e desinteressado de se tornar competente? Não evidencia uma tentativa de isolamento de grande parcela da população através de sua condenação à própria sorte? Qual seria o resultado desse histórico abandono?
Donald Winnicott em um texto lindo diz que a criança que rouba nos traz um pedido de esperança, porque ela também se sente  roubada. Ela pede ajuda. Como deve ser para esses meninos e meninas roubados de uma infância sem violência, muitos sem um bolinho de aniversário sequer ( nunca me esqueci dessa comparação fruto de histórias reais), olhar "filhinhos e filhinhas de papai  e de mamãe" bem tratados entrando e saindo de seus carros, em restaurantes, e assistindo a todo o apelo consumista ao qual estamos todos naturalizando... Como essas pessoas devem se sentir ao voltarem para suas casas? E ao voltarem, serem agredidas por esses mesmos jovens" bem tratados", como o que aconteceu em Copacabana no último fim de semana? E como eles se sentem ao serem revistados ao irem à praia? Para quem não sabe, a maioria vai revidar. Não porque tudo o que sentem é raiva, pois que  certamente  a humilhação e a tristeza são sentimentos concomitantes à raiva.
Para os que não sabem, a revolução francesa ocorreu devido ao abismo social entre as classes oligárquicas e os camponeses. Durante a revolução francesa o ódio foi tanto que mesmo as crianças e alguns bebês foram para a guilhotina, porque as lideranças da época não queriam que restasse ninguém mais " daquela laia", a oligarquia.
Aqui a história é diferente, claro. Mas manter a população pobre, que aliás é a maioria, nessa tentativa de isolamento através de uma força e um sistema policial que procura proteger a população branca moradora do asfalto, enquanto a população em sua maioria negra e pobre permanece dominada e calada em cotidianos brutalizados, possui eficácia, é claro, muito limitada. E vai explodir em algum momento. Aqui, a guilhotina é outra.
 Enquanto isso, permanecemos calados e anestesiados em nossos medos de lógica individualista, sem pensar em quem fornece as armas, na fome de olhar e de cultura e educação nas favelas, em quem protege o tráfico sob a máscara moral, e no grito desesperado dos moradores das comunidades pobres  dominadas pelo tráfico e pelas milícias.
São as soluções repressivas as que proporcionam o banho de sangue ao qual estamos habituados. Estamos? Claro que sim. Basta que o massacre aconteça do lado de lá. Porque ele acontece há muitos anos nas favelas. Mas só choca quando chega à zona Sul.
As pessoas precisam saber mais a respeito da fé pública da palavra da polícia que é suficiente para prender qualquer pessoa, e também sobre o poder do testemunho de reconhecimento, que sozinho também é suficiente como prova para manter alguém na prisão. Tem acontecido que as vítimas de delitos e crimes reconhecem muitas vezes, no calor da emoção, qualquer um. E o sujeito fica preso. É claro que toda a história muda se ele tiver como pagar um advogado. Pobres não tem, e ficam presos meses, às vezes anos, por essa prerrogativa policial que apenas serve em pleno século XXI para aqueles que vivem à margem da lei, do dinheiro, do direito, do direito de viver desde que nasceu, devido a um determinismo histórico.
É preciso estar consciente de que a polícia prende muito e de que somos o quarto país do mundo em população carcerária. E por que não, também tomar ciência de que quase oitenta por cento dos presidiários homens de nosso Estado  não possuem o nome do pai na certidão de nascimento.
É preciso de uma vez por todas fazer um esforço maior para compreender que a violência não é um fenômeno isolado, e que muito pouca gente escolheria ser bandido ou sair por ai fazendo arrastões à beira mar ao invés de aproveitar o sol e beber uma água de côco.
Esse ciclo de ódio precisa se tornar mais consciente pela população, que não pode se deixar influenciar mais e mais pelo medo, mas que é claro, tem medo.
A população mais abastada precisa se incomodar com as humilhações sofridas pelos outros. Os outros são muitos. Os outros é o outro. O outro é aquele que um dia pode sair de casa e transformar a vida da sua família em uma tragédia. E em mais uma estatística. Se esse outro não for olhado por todos como alguém importante, porque somos todos parte de uma mesma cidade, (e naturalmente, estou apenas expressando uma lógica e não falando de valores maiores do que isso), continuaremos todos a vivermos com medo e raiva uns dos outros. E ódio. Todos perdem.
Voltando ao início, eu não gostaria de ter que acordar com gritos de homens que necessitam amedrontar para se fazerem valer. Não seria preciso, em uma cidade ou um país onde não há guerra (?), que policiais ostentassem seus fuzis como armas de brinquedo ou com exaltação maior. Não podemos ter uma polícia que acorda se dizendo preparada para matar. Isso não é normal nem aceitável que se torne.
A população pobre precisa que olhemos para ela mais próximos ao que existe de mais verdadeiro: a realidade de que ela é muitas vezes mais vítima do que nós.
Vou terminar com uma frase que gosto muito e que esqueci o autor:
 " Se a paz não for para todos, ela não será de ninguém."