sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Para ser amado

Então hoje eu acordei ainda de madrugada. Não havia sequer amanhecido e a minha pungente alegria de desardomecer e de ouvir o canto dos pássaros me despertou para um dia que seria de muito cansaço, um dia da chamada preguiça, um dia em que a gente só queria ficar na cama deitado e levantar apenas para fazer aquilo que a fisiologia exigisse.
Não sei o que me despertou. Não sei o que me vem despertando há quase uma semana antes do amanhecer, mas às vezes funciono assim.
Então eu fiquei desperta quando queria ter sono o suficiente para permanecer dormindo, enquanto o meu corpo e cérebro pedia mais duas horas ao menos de sono reparador. Nada a fazer além de levantar.
Mas antes disso... eu fiz uma retrospectiva de toda a minha vida. Toda. Todinha.
Lembrei da casa onde nasci, dos apartamentos onde morei, da casa que retornei.
Tudo começou quando olhei para o meu corpo ainda deitado na cama e ele me levou para um corpo de muitos anos atrás, em que eu era criança e embora dona do meu corpo, ainda não era a dona da minha vida como sinto ser hoje. E observo que ser dona da minha vida não significa ser dona do meu tempo. E observo que acordar antes do sol nascer não significa andar adiantada. Talvez signifique a angústia de um tempo que passa mais rápido do que eu gostaria. Significa que eu não consigo viver tudo o que eu preciso no tempo que me cabe. e não significa que eu seja a pessoa de vida mais atribulada do mundo, ainda que honestamente eu não tenha tempo para nada... Talvez signifique isso tudo, a angústia de ter de viver também o indizível, o inaceitável, o mistério sem consolo, a vida em um tempo e em um espaço que agride a todo o momento, a vida em que teremos todos que conviver com a imagem do menino morto na praia de rostinho para a areia, todo vestidinho para viver, todo vestido de amor e de esperança, e morto na visão de um anjo que termina por matar a nós todos um pouco também.
Talvez seja isso. talvez seja muito mais o que me desperta quase em meio à madrugada. Talvez seja a tristeza com os rumos políticos de meu país após anos de esperança não somente em nossa vida macroeconômica, mas sobretudo em nossa possibilidade de cidadania e coletividade.
Voltamos a viver na esperança de reconstruir um estrago causado por nossa pura essência, a de uma nação que trafega pelo acostamento, aquela que não perdeu a oportunidade de pensar em como ganhar os próximos 5 anos, e não os próximos cem ou quinhentos futuros.
Talvez sejam essas coisas que me despertam ainda na madrugada, além da saudade que também me sai atropelando as emoções e cujo tempo ameniza mas não cura.
Eu vou acordar muito ainda, pois a cura para a saudade vem da esperança de ser amado sempre, e mais e mais. Por isso as pessoas sempre terão filhos. Filhos são ( mas não deveriam ser), a promessa do amor sem precedentes, a vinculação eterna, o sorriso e a nossa ressurreição. Através deles olhamos novamente as portas de nossa história e os caminhos por onde podemos reparar nossos próprios erros e ainda aqueles que sentimos que fizeram em nós.
Esse desejo irrefreável e que justifica a vida por si só é o desejo de permanecer no coração de alguém para sempre, é o reasseguramento inevitável, é o que nos devolve em casa quando adolescentes e queremos para sempre nos rebelar, quando adultos e de saco cheio das obrigações infindáveis, quando crianças e um estranho, fora ou dentro de nós, nos chama a sumir pelo mundo.
É essa a ligação de ser amado por alguém que nos faz cometer improváveis loucuras e previsíveis acertos. É esse desejo de solidão e a impossibilidade de vivê-lo que me retorna ao lugar seguro de sempre, seja a faculdade, seja a escola, a casa, os velhos amigos que já não me dizem mais. É o lugar onde eu lembro de quem eu sou, onde eu possa ter certeza de que sou amado ou de que de algum modo eu o seja.
É preciso sucumbir ao dilema para libertar-se do peso infinito de saber que não sei.
É preciso que eu entenda e sinta que eu preciso de muitas coisas para me sentir segura.
É preciso que eu entenda que viver é difícil mesmo, é complexo, e que não é possivel negar.
Mas não é preciso que eu descubra que o amar e ser amado é o que dá sentido à vida, é o que preenche o meu eu de auto-estima e é o que nos iguala a todos e nossa imprescindível e saudável sede de amor.