sábado, 5 de março de 2016

Dor

Quando eu choro, é pela perda de alguma verdade.
Quando choro se alguém foi embora, não foi pelo que poderia ter sido e não foi a partir de agora, foi pela morte da verdade que um dia nos uniu e que hoje não mais possui justificativa para a permanência.
Se eu choro porque ontem foi um dia histórico ao contrário, não foi porque eu ainda acreditava no que me acontece no presente, choro mais uma vez pela verdade morta e é preciso chorar pelo que representa essa morte ideológica carregada de esperança.
Não tive tempo dada a rapidez da coerção. de me preparar em ódio a fim de comemorar o desgosto de quem quer que seja. Não odeio o suficiente ninguém para festejar uma agonia.
Como se a realidade não fosse dura o bastante para nos fazer a todos, sofrer.
Meu coração está partido por tudo.
Não é pela morte do PT que eu conheci ou do Lula que eu tive como esperança. É pela verdade usurpada do direito. Pelo atropelamento sistemático de nossa constituição.
E francamente, pelo simbolismo e afeto de décadas que ligado à emoções de toda uma vida, viu em sua figura de outrora a expressão de tristeza e dor. Sou capturada nessas horas, porque meu coração não endurece jamais, e não pretende jamais fazê-lo. Se eu sofro por excesso de amor e de dor, sei que preservo em mim um frescor de infância qualquer que mantém ternura na aridez desse momento tão duro e tão pouco nobre.
Não, eu não acredito no Lula. Não, eu não gosto do Lula, hoje. Mas eu gostei, amei, acreditei.
Não tenho um sistema reset em mim pronto a reacontecer o dia e a hora de passar sentimentos por ora já inadequados.
É preciso respeitar o passado, ainda que o passado precise manter-se morto.
Então eu gostaria que respeitassem a dor das pessoas que um dia amaram esse símbolo e que precisam de tempo para cicatrizar.
Aos que sempre souberam e nunca gostaram do Lula, acho que estão melhores do que os outros. Os nós do outro lado, petralhas para tantos.
Parabéns a quem nunca se deixou enganar. Mas lembrem-se de que ninguém torceu por um país pior.
Visões diferentes de mundo não podem tornar as pessoas inimigas  Democracia é mais difícil do que se imagina , não é mesmo?
Nunca achei graça rir e tripudiar de quem chora.
Que chorem, que riam, mas que amem.
E que comemorem o amor à justiça e o desejo de um país melhor, e não o fim de um sonho que já conheciam irreal e fadado ao fracasso.
 Não se festeja a morte do sonho de ninguém, a  não ser é claro que esse sonho exclua as diferenças e a liberdade de um povo, o que convenhamos, não representa a realidade, ainda.