Quando eu era criança, assisti à minissérie "Lampião e Maria Bonita" na Rede Globo. Não me lembro mais de quase nada, mas sei que me apaixonei em profundidade pela história de Lampião e Maria, assim como pelo cangaço. Lembro de Maria Bonita cortando a orelha de uma outra mulher. É claro que me marcou, afinal, eu não tinha dez anos e vi uma cena bastante violenta. Eu adorava Lampião e seu bando, mas principalmente Lampião e Maria. Eles lutavam. Como assim? Eram criminosos! Naquele minha época de criança não nos apegávamos tanto quanto hoje ao bem X mal ( pro bem e pro mal!), e Lampião foi retratado romanticamente. Mas realmente não sei. Será mesmo? Houve um retrato romântico de um homem sanguinário? Talvez. Butch Cassidy e Sandance Kid também foram retratados romanticamente e também são parte de meus heróis de infância, ao qual não se comparam ao meu Lampião nordestino, soberbo no protagonismo de Chico Xavier e como Maria Bonita, a inesquecível Tania Alves.
Maria Bonita era brava. Era mulher de grelo duro.
Lampião era macho pra carái. Pica grossa?
Desculpem, minas de Sampa e brasileiras que coram quando me remeto a essa porção do corpo feminino que se possível, deveria ficar encoberta pela calcinha. Em grande parte do Brasil muito fluxo sanguíneo vem à face quando se fala dos delicados órgãos femininos. Perdoem- me retirar o véu da pureza que lhes encanta e não cumprir o misticismo que nos foi delegado em nosso vã afã de inútil castidade e virgindade. Sim, temos grelo, peitos, útero, lábios em cima e embaixo, clitóris, vagina. Temos tudo o que um homem que gosta de mulheres curte. E ainda o que mulheres que gostam de mulheres também. Bacana isso. Cada um de nós tem uma parte do corpo para nos dar prazer.
A boca por exemplo: a boca é ótima. Ela sente. Ela dá. A boca geme. A boca absorve. A boca sorve. A boca emudece de prazer. A boca grita de prazer. A boca cala de medo. A boca fala.
Então eu não vou calar a minha.
Eu vou dizer que há muitos anos eu não ouvia nada mais engraçado e que me chamasse atenção vindo do Lula do que "grelo duro".
Lampião e seu bando não se curvaram aos coronéis de seu tempo. Não aceitaram o lugar de bons meninos de Deus que lhes foi reservado e despejaram muita dor, desamparo e injustiça que lhes foi sofrido na forma de irresignação e violência. Mas também amavam. E também foram amados.
Talvez algo de irresignável e de identificação tenha me levado a admirar Lampião e Maria. Nunca fui conservadora. Minha alma nasceu assim. Amo o non-sense e sempre adorei o ato falho. Justo nessas assimetrias é que reconheço o humano no outro e em mim.
Identidade é civilização.
Busco a graça para sorrir mais do que chorar. Busco o riso pois me agrada muito mais o humor à desgraça e a uma interpretação que tende a uma assepsia que tem por razão subtrair a alegria e a
graça da risada pela frieza crispada de uma retidão que nunca se curavá a uma paixão.
Mulheres de grelo duro são apaixonadas.
Antes apaixonada por uma causa do que aprisionada na escuridão de um desejo impossível.
O corpo é irreprimível por excelência. O resto é ilusão.