domingo, 19 de junho de 2016

Fim da semana

Mas é que amar faz de mim uma pessoa tão frágil. Sou quase inoperante ao mundo posto que não tenho ímpeto agressor nem o suficiente para matar um peixe. Então tudo me inibe do impulso da morte de qualquer ser vivo, com excessão das moscas e das baratas. O fato é que nem eu que iniciei esse texto vindo do sentimento de amor, sou capaz de amar as moscas ou as baratas. É importante reconhecer nossas repulsas.
Mas de que eu adiantaria no mundo medieval? Ou antes da luz elétrica ou do telefone? Meus ímpetos de cordialidade jamais superaram meu instinto de repulsa. Claro, o sentimento de nojo diz muito mais sobre si mesmo do que uma simples cordialidade. Deve ser por isso que nunca consegui ser cordial.
A cordialidade é a transcendência da decência, pois ser cordial implica em conseguir ser indiferente. Talvez eu tenha me abstido de buscar o sentimento de indiferença.
Para mim, só vale a pena a intensidade, o abraço que aperta, a mão que segura, o olhar que percebe, o beijo que pode demorar, a festa sem parcimônia, a emoção potente; e emoção potente é aquela que não teme a loucura.
Deve ser por isso que eu não me aguento quando não escrevo ou bebo desassossegada de verdade.
Sem evoluções para amar as baratas, por favor.
Vou evoluir somente até o ponto de entender as moscas e chorar de alegria e arrepiar o peito ao ver de volta as borboletas azuis.
Quero viver a poesia mesmo quando eu tiver que falar de baratas.
Eu pego a minha fragilidade pelo avesso e redescubro de cabeça pra baixo a força simples de um pedaço de vida em um domingo à noite final de semana.