segunda-feira, 22 de maio de 2023

Não compro o tempo

 A mercadoria mais valiosa do mercado não cabe no imaginário, não vive sem o simbólico, é puro real, mas também é relativa.

Não se consegue explicar ou compreender, somente medir, e acredite, pode ser medida através dos segundos mas também em centímetros.

Massa de ossos, carne e sangue, nossa estrutura vagueia no oceano cósmico à velocidade da dança que a Terra faz em torno do Sol em sua órbita espetacular. E ainda devemos a Júpiter nossa longevidade. Porque Júpiter é poderoso com seu campo gravitacional e generosamente atrai meteoros e outros objetos para dentro de si, protegendo a nossa frágil órbita terrestre. Enquanto os humanos rezam cada um por sua crença particular crendo de fato fazer sua parte para salvar o planeta, deveríamos fazer muito mais orações a Júpiter, além do Sol, é claro.

E comprar o tempo que é bom, nada. Mas como o imaginário é mais infinito que a idade do universo, virou especialidade fingir vender o tempo. Na verdade o comércio está tão quente em mentiras que até mesmo mudança de sexo vem sendo proposta como alternativa viável. Todos os médicos sabem que é impossível, todo psicanalista também está cansado de saber, mas a força da grana, e da mentira, insiste em negociar o tempo e a ilusão de poder sobre o próprio corpo e a própria vida.

Tudo tem um preço. Botox, sculpter, ácido hialurônico, vesícula, prótese de quadril, mamoplastia, rinoplastia, faloplastia, vaginoplastia. Todos esses procedimentos tentam vender o tempo e uma mudança corporal definitiva em nome do sonho de pertencer a outro sexo. Mas algumas mudanças são mais definitivas que outras, muito mais caras que outras, e com efeitos colaterais muito mais nefastos que outros. Alguns inclusive transformam uma pessoa saudável em um paciente crônico e escravo eterno da medicina. A boa notícia é que você pode fazer ou não.

Nunca consegui comprar o tempo. 

O tempo veio a mim junto à sua inexorabilidade e certeza de incompletude. Sei que preciso me esforçar diariamente na tentativa de ser uma pessoa que me faça querer continuar a ser eu mesma, com a idade que tenho, com o nariz que tenho, com a barriguinha que tenho. Se eu gostaria que minha barriga fosse menor? Com certeza. Se tenho coragem de fazer cirurgia plástica para atingir esse objetivo? Não tenho. Tenho pavor à dor. Como psiquiatra que sou, aprendi que é sempre melhor buscar ser feliz com o que se tem. E isso não significa ser indulgente. Cuidar-me é tudo o que posso.

Não vou comprar o tempo. Ele me foi dado de forma misteriosa e eu simplesmente agradeço. No meu banco de vida, eu olho lá fora e aprecio a paisagem. Finjo olhar o tempo mas não o toco, não o vejo e sequer o sinto. Ele é meu e absolutamente me escapa ao mesmo tempo, atravessando essa minha e nossa existência sem dizer uma palavra, e ainda assim, levando tudo com ele.