Nada mais atual do que assistir ao assalto produzido pela mesquinharia mental e voracidade de nossos (tristemente) parlamentares quando vence a chamada emenda Ibsen, que rouba do Rio de Janeiro recursos provenientes da exploração de petróleo, sacramentados constitucionalmente. Quando nova legislação em nome do pré-sal é proposta, novas perguntas precisam ser feitas. Por que redistribuir os recursos? Não será possível rearranjar a partilha sem retirar do estado do Rio, este sim, responsável por 85% da produção de petróleo do país, sua receita maior? Não serão os recursos provenientes do pré-sal suficientes para abastecer os estados não-produtores? Parlamentares de outros estados não estão comprometidos com os interesses fluminenses de algum modo? Não.
Agora precisaremos do veto do presidente Lula para dizer não a essa emenda absurda e gananciosa liderada pelo governador de Pernambuco, Eduardo. Ou seja, estará nas mãos do presidente talvez a mais importante decisão para o estado do Rio desde a fusão da capital e do Estado. Lula poderá nos salvar. Ou não.
Qual será a escolha do presidente? Manter o apoio a Sergio Cabral? Acho que a matemática é simples. Some aos parlamentares que votaram a favor da emenda Ibsen o número provável de eleitores de Dilma, mais os do senado. Se essa soma superar o número provável de eleitores de Dilma provenientes da politicada fluminense não haverá veto. Se os eleitores daqui forem em maior número, o veto é possível. A briga é feia. Rosinha e Garotinho tem base eleitoral gigantesca por aqui. Cabral também. O Rio de Janeiro é o terceiro colégio eleitoral do país. São Paulo é o primeiro e tem maioria que tende ao PSDB. Minas apresenta tendência repartida. Então,o Rio pode ser decisivo para a eleição da ministra Dilma.
O fato é que Lula engendrou uma política que populariza a dinâmica da espertagem como justificativa , base de apoio e consequentemente de sucesso ou não de governo. Através dessa forma de governar, angariou poderes políticos de absurda magnitude no Brasil. Nunca antes nesse país. Em nossa história só presenciamos esse feito em épocas de ditadura.
Na verdade o que pode vir a ocorrer no Rio de Janeiro com o veto de Lula é a multiplicação de intenções de voto em Dilma. O significado dessa consequencia eleitoral é a forte centralização do poder em nosso país, que em mãos ambiciosas, superlativas e que ensinaram entre outras coisas ao povo que a educação e o estudo não são lá tão importantes e que a camaradagem é um modo de vida que sustenta mãos-de-ferro supostamente democráticas. Tal estado de coisas possibilitará uma posição de Lula agora redentora ao Estado do Rio e aumentará ainda mais os seus poderes.
Essa engenharia quase absolutista não poderá no entanto produzir em nós qualquer senão ao veto. Afinal, é preciso pensar com coerência e ética, e a ética e a coerência nos ensinam o respeito à constituição e aos interesses maiores do povo que elege seus governantes em um regime democrático.
Mas nos vale para refletir as consequências da nova ordem política no Brasil.