segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Essa será a semana da desinformação, a semana do menos é mais, a semana do desencontro com o outro do outro lado da lente e de um reencontro maior comigo.
Minha chegada às redes sociais foi tardia quando comparada a da maioria das pessoas. Estou no facebook há pouco mais de um ano, sendo que mantive a conta fechada por quase três meses esse ano. Havia cansado de tanta informação, tanta "falação", tantas opiniões, tantas certezas e palavras de encorajamento de outrem. Na verdade, é muito mais do que isso; é um mundo paralelo e perigoso também, pois existe uma captura de algo dentro de nós que ainda não conhecemos, e que é completamente novo inclusive do ponto de vista histórico e evolutivo.
 Muito se diz a respeito do quanto as redes sociais deram voz aos que antes não tinham espaço para se manifestar e o quanto milhares de pessoas passaram a despejar como uma espécie de esgoto seus sentimentos pejorativos a tudo o que não lhes agrada. De fato, isso me horrorizou.
A tônica da agressividade e o despreparo pela novidade apresentada a mim tomou-me em certa medida,  e também tive meus momentos de "raiva virtual", o que desencadeou em mim sentimentos de ansiedade sobre os quais eu julgava já haver resolvido. Mas como resolver algo que você nunca conheceu? A internet, como qualquer canal de comunicação que se abre, também abre em cada um de nós novas subjetividades, fazendo-nos deparar com novos desafios de linguagem que noscolocam frente a um paradigma completamente ansiogênico que é o da possibilidade de dizermos quase que instantaneamente aquilo que estamos pensando. Poucas situações podem ser mais perigosas e inconsequentes do que essa.
Vamos pensar.
Antes da internet, se fosse preciso nos comunicar com alguém de forma escrita fazíamos o uso das cartas. Se fosse alguma comunicação urgente, usávamos o telegrama, o qual continha poucas palavras.  A carta nos fazia ler e reler o que escrevíamos. Podíamos suprimir algum trecho ou reescrever, pois para postá-la precisávamos antes ir a um correio e tínhamos não raramente que
aguardar o dia seguinte ou a segunda, ou ainda, aguardar estar em um lugar onde houvesse correio,
que poderia ser só daqui a alguns dias. Tínhamos tempo para pensar no que desejávamos comunicar.
Os dias continham em si o significado do tempo da espera, pois esperar era parte da realidade de um jeito que não existe mais.
 Precisávamos aguardar chegar em casa para fazermos uma ligação para saber de alguém... Precisávamos torcer muitas vezes para que essa pessoa estivesse em casa naquele momento. Precisávamos criar condições de desejo dentro de nós para encontrar alguém e para esperar encontrar alguém. Mais uma vez o tempo e sua espera ecoava dentro da gente.
Os domingos eram silenciosos nas ruas e a maioria das lojas fechavam nesse dia. Tínhamos que esperar a segunda.
Não faz muito tempo, também era necessário esperar nove meses para conhecer o sexo do bebê. Nove meses demoravam... Havia espera. Quem desejasse saber se seu bebê estava bem e qual seria  o seu sexo sabia muito bem o que significavam nove meses.
Também houve um tempo em que era necessário esperar a lua de mel para se relacionar sexualmente
com alguém. A espera intensa e o desejo também.
Também posso facilmente lembrar da espera pela festa de aniversário, pelos presentes de Natal, pela
volta às aulas, pelas férias.
É claro que ainda há espera. É claro que ainda há desejo. Sempre haverá.
Mas é diferente. Toda a nossa percepção do tempo, da espera, do desejo de estar com o outro, mudou.
Todos os nossos encontros com amigos e familiares são hoje sistematicamente interrompidos por um mundo sempre conectado e que tem demonstrado cada vez mais dificuldades em não sê-lo.
Estamos perdendo muitos megabites de olhares e de conexões essencialmente humanas nessa dinâmica. Estamos perdendo a dimensão do tempo e da pausa de reflexão necessária antes de darmos nossas opiniões. Estamos nos perdendo ao estarmos mais preocupados em demonstrar nossas certezas através das redes socias do que ao entendimento da complexidade dessas novas relações que já nos tem roubado a dimensão do tempo, os olhares, e sem que percebamos, irá também roubar nosso desejo e potencial criativo se não formos capazes de redimensionar sua importância em nossas vidas.
Por essas razões essa será a semana da desinformação. Vou trazer mais para perto minha meditação, o
apreço ao silêncio, a negação das certezas, a inconclusão.
Vou aguardar não saber o que estarão pensando as pessoas nesse momento de duras certezas e incertezas políticas contido em um tempo que parece ter desaprendido a esperar.
Se não me for possível esperar e escutar os meus silêncios, não saberei mais se o que sinto, penso e escrevo refletem aquilo que se encontra mais dentro daquilo que sou e ecoarei talvez um grito que não é meu, não por solidariedade, o que sempre será legítimo e absolutamente necessário,  mas por indiferença pela precariedade de minha escuta interior, a única que é capaz de me revelar a única verdade que interessa. A minha. A de cada um.