Minhas mãozinhas escorrem pelos meus cabelinhos algumas lágrimas de sono. Então eu encontro um rosto quente e depois de um tempo percebo que ele não é meu, e que os meus cabelinhos eram os cabelos da minha mãe que se misturavam aos meus. Eu sinto o seu corpo como um prolongamento de mim mesma e eu me angustio quando ela não está por perto. Meu corpinho pensa que o seu colo é parte do meu contentamento e eu me descubro em frio e em medo ao me descolar daquelas mãos que me embalam e me guiam no escuro daquele espaço que não sei nomear. É aos poucos, mas bem aos poucos mesmo, que eu percebo os meus pezinhos como seres independentes e sonho que os vejo quando estou acordada brincando com o arcabouço de pensamentos que invadem minhas preocupações no bercinho. Já ameaço chorar e então choro mesmo, porque as mãos que começo a reconhecer não serem minhas, ainda não estão de volta com aqueles olhos muito abertos e que parece espelhar a minha dor. Minha dor não é de fome, frio, sede. Minha dor só grita por companhia pois minha pequeneza apenas traduz parte muito pequena de mim.
Eu não sou assim mesmo, eu ainda não faço ideia do que eu sou, de quem eu sou. Eu sinto. Sentir é ser. E eu sinto o calor, o cheiro, o abraço forte, e então sinto que estar aqui é sinônimo de calor, de cheiro, de mãos, de olhar de mulher, de brilho de olhar de mulher, porque eu conto um início de vida feliz. Feliz e doloroso e inseguro e inédito e absolutamente incompreensível. Tudo me espanta. Tudo me arrepia, e somente o calor, o cheiro, o colo e o brilho dos olhos femininos são capazes de me assegurar de que está tudo bem até agora.
Eu sinto a angústia e o conforto. Mas ainda não conheço a alegria.
Porque a alegria vem do encontro, primeiro do lado de fora que ainda sinto ser dentro, e só depois e simultaneamente se configura e bem aos poucos vai indo e vindo, até eu conseguir entender o que é, o que eu sou. Mas antes eu preciso do cuidado de minha mãe, cujas mãos demorei a descobrir que a mim não pertenciam, que a mim nada deviam, que eu brotei dela e a história dela veio antes de mim. Ai já começa a assimetria e eu posso reconhecer a impossível igualdade e antever o sonho da
igualdade que no horizonte não irá incluir meus desejos a menos que eu os inclua.
Mas até chegar lá será preciso realizar a travessia da fantasia à realidade, conjugar verbos imperfeitos e descobrir meu lugar no mundo como sinônimo de liberdade. E de dentro para fora primeiro.
Lá no meu desejo de alimentar os sentimentos e os sentidos de minha fome nasce o desejo do encontro que nasce da equívoca e responsável vinculação entre pessoa e criança, entre o afeto e o sem nome, entre aquilo que eu sou porque ela vem a mim para cuidar de sua consequencia desejável e desejante de um reasseguramento por ora infinito para que um dia, e que não seja muito longe esse dia, eu possa viver o desenlace possível e necessário à minha tão sonhada autonomia que me libera e liberta para sonhar os meus próprios sonhos.
Será imenso o caminho. Será intenso o percurso. Serão intensas minhas paixões e minhas relações como os muitos outros nascidos do toque, do olhar e do primeiro engano ao confundir meus cabelinhos com os cabelinhos de minha mãe, ao confundir minhas sensações com as dela, ao sentir meus pensamentos como os pensamentos dela, ao espanto ao decobrir esse não-pertencimento e essa
vinculação a perder de vista em meu pranto inquebrável, em meu desejo absoluto dela, em minhas
percepções encantadas e por isso entorpecidas de primeiro amor e paixão por ela.
Salvo outros casos, o primeiro amor vem da mãe, da confusão entre ser e não ser, da rede contínua e alternada de afetação, de sensação, de profunda inquietude vinda lá do fundo do desejo do amor infinito e irresponsavelmente eterno, da dor de não ser só isso para sempre, do fôlego dessa paixão avassaladora e invasora e invadida e que não deverá cindir, porque será a perdição.
Desse primitivo vir a ser e dessa experiência contraditória e imemoriável, vem os desejos mais intensos e seus segredos. Vem o desejo de independência e o ódio da dependência absoluta, fruto do gerar e gerado. Daí vem os ódios possíveis ao feminino poderoso, dono da vida e das primeiras buscas. Dono da irreflexão, do sentir profundo e dos maiores segredos.
O feminino é o senhor e a senhora do afeto no mundo. Não existe nada mais poderoso e nunca haverá. Não existe força tamanha à altura.
O feminino veio ao mundo antes da mulher e do homem.
Ele é o princípio do afeto no mundo e ele é quem conta a história dos homens no mundo.
O feminino é o idioma divino, é o ôde à criação, é a língua que falamos, é onde começa a revolução.