terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Falando de desamor

Falar de desamor e não de amor?
Será porque o desamor está em moda e o amor está em espera para quando o carnaval chegar?
Será porque os atentados em Paris feriram muito mais aos que ficaram do que os que se foram?
Será porque a lama que dizimou Bento Gonçalves também extinguiu parte de minhas esperanças e as mortes de humanos, bichos, rio, água potável  também mataram a mim um tanto?
Será porque a nossa câmara dos deputados e o nosso senado envergonha mais a nação do que a representa?
Será porque a Vale do Rio já não é mais doce?
Será que é porque 400 bilionários norte-americanos detem o equivalnete ao PIB do meu país e isso não é considerado uma vergonha e sim sucesso e talento?
Será porque o Brasil possui hoje apenas 3 grandes bancos privados em uma era pós-capitalista e isso que é a própria contradição do capitalismo funciona e assume nos tempos de hoje nossa revelação de desumanidade?
Será que é porque a floresta amazônica vem sendo devastada e os índios perdem seus direitos frutos de herança direta sobre a terra?
Será que é pela falta de sistema educacional públicco de qualidade que vigora há décadas em nosso país?
Será que é pelo descaso secular para com os mais pobres relegando a esses serviços de saúde de péssima qualidade? Ou seria pelo descaso obsessivo com o sistema de transporte que os servem?
Será pelas mortes de jovens e crianças pelo fato de serem pobres, negros e moradores de favelas, em números alarmantes?
Será pela epidemia de microcefalia por vírus zika devido a progressivos anos de descaso com o mosquito da dengue e com a saúde pública?
Será pelo fechamento dos hospitais públicos estaduais por falta de pagamento aos médicos, profissionais de saúde e funcionários?
Será pela crise hídrica?
A abundância de problemas não pode exceder em desamor. Mas as questões que cercam especialmente a nós brasileiros tem produzido medo e desesperança, além de nos colocar frente a frente com a inegável perda de ilusões. Perder ilusões amadurece. Mas a realidade sem sossego persistentemente embasada na desconfiança, no desapreço, na desordem e em maus resultados tem o poder de retirar a poética em boa parte do mundo.
Resistir nunca foi tão necessário, creio já terem dito muitas pessoas em muitas crises.
Hoje a crise do homem é a crise da Terra, é um certo epicentro do desamor, e todo desamor desama e não ama melhor, não vive melhor, só desanda a vida, só desencanta.
Não é nada fácil escrever desgraças e preencher parte do meu dia com fatos ruins. Mas faz parte de mim não negar a realidade.
E faz parte também de uma outra necessidade, a do desabafo por expressão, e se escrevo para mim é porque tenho a esperança de ser lida. Porque compartilhar o desabafo mantém unido em mim meu sentimento de humanidade e pertencimento.