Ao me desconectar mais, me conecto mais. Ok. Eu já sabia.
Mas essa é uma semana especial. É a semana de Natal. É a semana que eu aguardava ansiosamente quando eu era criança. Porque era a semana em que eu sabia que a festa viria, as comidas gostosas, os presentes, as vinhetasa de natal da Globo, com seus artistas falando a respeito de esperança, da alegria de viver. Eu me enchia de esperanças e não me atormentava com o futuro. Para mim, a alegria no futuro era certeza. E assim, eu desenhava o futuro já proclamado no presente. Afinal, um mundo tã radiante quanto aquele em que eu vivia só poderia guardar para mim alguma coisa melhor ainda nos próximos verões. Meus verões eram os de quarenta graus, os das chuvas pós sol e das tormentas brancas e azuladas. Nós tomávamos banho de chuva, e minha mãe com a gente, eu e meu irmão, e acho que meu pai também participou algumas vezes. Maior alegria do que essa? Difícil. Alguém poderia me indicar uma situação mais feliz do que um banho de chuva com o irmão e os pais depois de um dia lindo de sol e calor? Some a isso, o desconhecimento das dores de viver. Claro, eu me refiro a uma infância onde essas lembranças encontram-se certamente presas a uma malha de idealização, mas que por isso mesmo me manteve ligada, e aqui não aprisionada, a um potencial estado de alegria que nos é bastante fundamental para qualquer futuro.
Logo depois o sol voltava, e nós partíamos para as brincadeiras noturnas, o pique-esconde, o pique-bandeira, o anelzinho, o pique-fruta, o pique-alto.
Para que o adulto creia que sua vida vale a pena é preciso que sua infância tenha valido. Ao entrar em contato com a alegria do compartilhar a brincadeira e da não-finalidade do propósito, a criança experimenta o prazer do descompromisso. Passaríamos então a de algum modo, perseguir esse objetivo. O objetivo da alegria pela alegria. A alegria do amor dos pais e dos irmãos. Essa alegria insubstituíve a não-subjetivar. Porque é ela quem subjetiva o resto.
E o resto é não só o que resta, mas aquilo que se perde em meio à relíquia, a alegria que os franceses tão lindamente expressam com o joie de vivre.
Em tempos mais difíceis que o comum, após anos de supostas bonanças, é muito importante recordar nossas relíquias.
Há uma necessidade maior de despertar a esperança em tempos ultra modernos, violentos e
superficiais.
Eu tento e sigo com minha alma desperta na alegria e sempre dormente na tristeza. Sem saber o que virá, estoco em minha mente não o vento, mas a rima que porventura acalente e renove o meu coração.
Ficou um pouco brega. Mas gostei.