domingo, 6 de dezembro de 2015

Impeachment e impedimentos

São muitas as novidades o tempo inteiro e não dá tempo de respirar. A bruxa tá solta.
O Brasil, outrora país abençoado por natureza, sem desastres ambientais até há bem pouco tempo atrás, já não é mais o mesmo.
Cinco anos após nossa tsunami de rio na região serrana do Rio de Janeiro, vem o desastre de Mariana, a maior tragédia ambiental do país. Dois dias depois de Mariana, Paris sofre ataques terroristas inéditos e com maior número de mortos da história. E em meio a tudo isso e desde sempre, crianças e jovens negros e inocentes são exterminados em suas comunidades pela polícia. Duas semanas após as  tragédias de Mariana e Paris, Eduardo Cunha, pessoa que reúne as mais baixas qualidades que um deputado poderia ter, aceita o pedido de impeachment da presidente Dilma.
Por um lado, nada mais coerente do que um rato iniciar um processo de impeachment para uma presidente que governa com inúmeros ratos ( mas nenhum do quilate do presidente da Câmara), e que além disso, também possui qualidades de ratazana. Os ratos anteriores aos do PT, ( e os do PT que se diziam santos e nada mais são do que igual a todos os outros e se lambuzaram diante do poder), ficaram muito chateados quando barbudos, e gente com cara da periferia passou a ir às festas sem convidar os ratos dos quinhentos anos de poder. Que cansaço escrever isso!
Seguindo o raciocínio, a situação é de plena coerência porque  ratos se devoram. É assim que acontece.
No entanto, essa profusão de novidades não nos dá muito tempo nem para entender, às vezes, o mínimo. Ficamos com a sensação de caos, de medo, de horror, de não-entendimento.
Mas a vida não deixa de ser um ato contínuo de resistência e caminhar é preciso e entender nunca foi tão impreciso.
Nunca não gostar de um governo e reconhecer algum  mérito em um impeachment foi tão confuso, pois o encaminhamento do pedido é fruto de uma vingança pessoal e de um jogo de poder de uma vileza nunca antes vista. Tornou-se muito difícil ter uma opinião, pois ser a favor de um impeachment pode significar piorar mais ainda as coisas e se posicionar ao lado do menos pior quando esse por si só é péssimo, nos coloca em um lugar de um desconforto e mal estar quase insuportável.
Acredito que quando as coisas chegam a tal ponto de tensionamento interno e por um lado estão felizmente fora de nosso alcance, talvez seja chegada a hora da piada e da risada, quase da zombaria. Vou fazer parte da ignorância que consola e me conscientizar de meu limite como cidadã incipiente no processo, uma expectadora desse espetáculo de baixeza, de um momento político sem honra alguma, de um período de esvaziamento político e moral como nenhum outro. Mas afinal, o que poderíamos esperar de um país de duzentos milhões de habitantes com o nível educacional que temos? Qual o nível afinal de nossas discussões? Qual o congresso que teríamos após vinte anos de ditadura e um projeto político de desmantelamento da educação por mais vinte anos ao menos? (excetuando aqui as políticas inclusivas, que embora de baixa qualificação, permitiram o ingresso de pessoas que jamais tiveram acesso à educação).
Para um país de milhões de miseráveis e que secularmente se habituou às mais incríveis privações de direitos e igualdades, as pequenas migalhas de um período de governo fizeram muita diferença. E as chamadas elites precisam reconhecer que séculos de exclusão produzem miséria real para o todo.
É um saco aguentar toda essa campanha política na mídia contra o projeto de poder do PT que a si próprio se devorou.
Por isso é tão difícil se posicionar. Mas como viver não exige posição a todo e qualquer custo e ainda podemos negociar ao menos com nós mesmos o preço que teremos que pagar por essa exígua liberdade de não ter de aderir nem a um projeto nem a outro, recolho-me à minha irrestrita liberdade de pensamento em meus pequenos refúgios e celebro a vida como me for possível.
 Entre os prazeres, aproveito para beber meus vinhos ainda não sobretaxados pela Dilma.