segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Igualdade

Entrei no carro como de costume às segundas. E liguei o rádio como de hábito; e em uma atitude mais recente, passei para a música em meu Spotify ao invés de permanecer no canal de notícias do rádio. Optei pela clássica, em uma lista de Bach. Quase que automaticamente, entrei em outro lugar. De repente eu via as pessoas nas ruas, os transeuntes comuns das ruas, tão comuns quanto eu, a andar. Mas o andar transformou-se em uma espécie de dança, a babá de roupa branca, o idoso que passava, o ônibus de turismo que lentificava o trânsito na rua das Laranjeiras. Todas essas pessoas e isso tudo deixaram de ser apenas paisagem, ora feia, ora bonita, ora mais simpática; passaram a ganhar significado e não havia mais dúvida de que a babá de branco buscava algo, o idoso poderia estar cansado, desperto, mas também estava em busca de alguma coisa, e as pessoas no ônibus de turismo buscavam viver, ir em frente e finalmente subir ao Cristo Redentor. Tantas pessoas, tanta gente, tanto anônimo que, como em um passe de mágica, ganhou vida através da música.
Mas afinal, o que fez a música? E se assim aconteceu, só foi depois de tocá-la ou foi antes?
A música me reconectou à minha disposição humana e integral a observar vida e sentido em todos os momentos. O som anterior, aquele que discutia os problemas mais recentemente apontados pelos mais recentes escândalos de corrupção, me embalava na desesperança e me desconectava dos sentidos, esvaziava meus sentimentos amorosos perante o mundo e me esvaziava por si só.
A música que toca e que me toca me reinveste de significado, reconfigura minha disponibilidade, permite lembrar-me de minha humanidade. Ao fazer isso, me envolve aos tantos outros que poderiam me sugerir sentimentos totalmente opostos aqueles que nos ligam. Somos mais ligados uns aos outros do que podemos perceber nessa vida tão em oposição a essa simples verdade.
A música embala as coisas de poesia. O que não diríamos das pessoas então?
Daí que ao vestir minha alma de música, eu me surpreendo em percepções sensitivas que apaziguam o cotidiano muitas vezes brutalizado pelas notícias ruins que os jornalistas não se cansam em dispersar e concentrar. Eu vejo a poesia e não percebo a prisão em que somos jogados diariamente,
nos radares de velocidade, nas blitizes policias, nas novas regras da aposentadoria, no jogo duro e pesado que é viver.
 O mundo de fora aprisiona e divide. O de dentro liberta e comunga do desejo não porque os ideais prevalecem, não apenas por isso, mas por reconhecer o sentimento inevitavelmente fraterno que a todos nós liga e inspira.