terça-feira, 22 de novembro de 2016

Bom dia NY em desencanto

Os arranha-céus, se antes balançavam a alma em silêncio de admiração e um milésimo de uma quase soluço de estupefação, hoje embalam uma interrogativa que se assombra ao vislmubre de um tamanho desnecessário. Sua imponência escreve e revela a concretude de algo talvez imaginário, ou ao menos que se originou dele, de um coração crente da grandeza das coisas e dessa certa beleza contida nelas. Um deslumbre inicial que perpetuou o sonho equivocado de ser grande demais, de ser too much demais, de ter demais.
Sua Macy's antes grandiosa por tão imensa e por esse algo grandioso em mim de que NY continha parte do mundo, obstrui em seus corredores amplos e em seus pequenos currais dentro deles, o meu olhar em direção ao que mais provavelmente hoje eu queira, poder ver ao longe, e de perto, coisas que mais se assemelhem à natureza. Mas isso é meu, como um dia o foi o encanto diante de um templo de consumo prolífico de coisas transformadas em sonhos. Suas vendedoras e vendedores ágeis e interessados em conduzir seus objetivos de vendas, mais me espantam no sentido pleno da palavra do que me atraem por um motivo qualquer. Suas quase-infinitas ofertas, me afastam de um desejo real por qualquer coisa que ali esteja. Suas bolsas Michael Kors, Louis Viton, Chanel, guardam nelas mesmas essas ambiguidades próprias das coisas transformadas em um algo-quê ao ponto de praticamente não me dizerem nada.
Nova Iorque, seus vendedores profissionais com seus sorrisos planejados, seus " hmave a good day", sua indisfarçável indiferença junto à rapidez de seus gestos, ao seu inglês rápido e indiferente ao fato de estar diante de pessoas que não são fluentes na língua, nesse inglês esmagador da letra r, caracteristicamente americano, soam falsos demais. E não me vendem nada de que eu não precise.
Seus carros de polícia constantes nas ruas, seus avisos :" if you see something, say something", espalhados pela cidade, sua obsessão por segurança (não que não tenham motivos pra isso, digo, cuidado sério com segurança, não uma obsessão), sua proibição (em todo o EUA), de ingerir bebidas



alcoólicas nas ruas, transforma em parte esse caminhar despreocupado pelas ruas da cidade, em uma experiência ansiosa. Seus cidadãos ocupam bilateralmente os ouvidos com seus fones, e pedir informação ficou um pouco mais difícil.
Seu clima frio e seus ventos cortantes cortam o meu coração e minha alma.
Sinto o desamparo bater forte diante desse clima e da imensidão de seus prédios gigantescos, de sua gente indiferente, de seu claro desinteresse em estar com as pessoas em você.
A Times Square chega a ser uma experiência à parte, embora ela seja o cartão-postal de NY.
Ela é exatamente o vão maior, a concentração de abismos luminosos mais artificial e possivelmente mais interessante do mundo. Suas luzes prometem uma diversão inalcançável, como a própria luz. Sua quantidade de atrações promove uma incapacidade de completude, uma verdadeira impossibilidade de concluir qualquer coisa. Você não verá todos os espetáculos, porque tudo o que ali é oferecido, é impossível de vivenciar. É bem simples o fato de termos limite para o que queremos pagar, o que queremos ouvir, o que queremos assistir. Mas a Times Square diz a você que ali está o infinito em possibilidades de entretenimento.
Suas chinesas não contam como é pagar com a própria vida e com seu inalcançável pesadelo de liberdade o que é trabalhar por um salário de semi-escravidão para lhe dar uma quinquilharia de que não precisa.
Seus Best Buys não falam a verdade sobre o preço que você paga. Suas Macys não  escondem seus pecados.
Sabe, eu hoje sou uma mulher não-pobre. Mas eu fui uma menina pobre. Eu sonhava com Nova Iorque, eu lia Harold Robbins e Sidney Sheldon, eu assistia aos enlatados de domingo e seus seriados norte-americanos, Dallas (adorava). A "cultura" norte-americana ficou impregnada em mim desde muit cedo, com seus cafés com creme, com suas casas de Natal e suas neves, com tudo o que me foi
dito e afinal sentido como algo especial, superior. E se eu senti como especial e superior também me
responsabilizo afetivamente por isso. Mas pera lá, será que parte daquilo que senti durante uma vida vida inteira e que permaneceu em meu imaginário em um lugar de incrível idealização não apresenta
um forte viés cultural? Ou seria anti-cultural. Como foi em mim construído um desejo de
identificação que hoje reconheço como algo absolutamente estranho a mim e aos meus valores culturais?
Se antes o pragmatismo estadunidense me soava e parecia meritório, hole ele toma um sentido de caricatura. Se antes eu achava o inglês um idioma bonito, hoje o inglês americano me soa como um esmagar de erres infinito. E aqui não incluo o inglês britânico, muito mais bonito.
Se antes seus arranha-céus e seus supérfulos alimentares me pareciam interessantes e atraentes, hoje me agridem com sua opulência e todo o mal que causa à saúde das pessoas.
Eu precisei crescer para não mais me seduzir.
Eu amo o sol e meus conterrâneos, com todos os problemas que temos.
Eu amo o samba e o carnaval.
Eu amo ser brasileira e sul-americana.
Eu amo ter nascido no subúrbio e ter conhecido desde muito cedo relações verdadeiras e desinteressadas.
NY não possui vínculos em mim.
NY é a própria solidão em forma de abundância, ilusão e cidade.