Em uma terra onde o sublime ganha contorno de infeliz e o
óbvio mascara-se na dúvida entre o bom gosto e o duvidoso, sabem-se lá quais
razões a postos homens acreditam em um piano de cauda mais do que neles
próprios ou nas palavras que deles mesmos poderiam sair.
Curioso demais é esse mundo onde habitamos, lugar onde
também não sabemos porque estamos, nem para onde vamos depois daqui.
Logo, quando qualquer um de nós ou um daqueles que
consideramos amar, adentram um hospital...não por terem quebrado um braço ou
qualquer outra situação de aparente singeleza, mas por alguma doença ameaçadora
ou algo que o pareça, o que olhamos? O que queremos nessa hora? O que passa a
fazer parte de nós de um jeito completamente diferente de alguns dias ou
algumas horas até, atrás, quando tudo parecia caminhar na sua aparente
tranquilidade cotidiana e em nosso semblante diário de felicidade nossa de cada
dia? Sim, existe um momento, e esse momento chega pra todomundo algum dia, em
que o chão parece abrir-se e a gente sabe que não seremos os mesmos a partir
dali. Nunca mais seremos. É a hora em que parte do mundo muda e uma ruptura com o que se
acreditava antes acontece; quando nos encontramos diante de alguma ameaça real
diante de uma situação de doença. Quando essa hora chega, mais uma vez, o que
queremos?
Para a possibilidade da perda do que mais amamos, não há
superficialidade ou aparência que o convença, não há caixão que valha a pena
comprar, não há lençol de cetim que amenize, não há cadeira de design que traga
qualquer alívio. Em momentos cruciais, só há uma coisa, uma coisinha só que
parece funcionar. Por funcionar entenda-se trazer esperança: a palavra e o
olhar humano. Claro que a segurança de se saber estar entre um corpo técnico de
qualidade é fundamental, mas é impressionante como até essa característica
essencial parece desaparecer frente ao imperativo do estabelecimento de
vínculos humanos. Em momentos de dor, apenas o vínculo verdadeiro tem o poder.
Sim, a palavra é poder, porque pode amenizar o sofrimento. Na iminência da
ameaça da perda, apenas a ideia de preservação das relações humanas faz
sentido.
Mas de que vale tudo isso? Do que eu estou falando?
Eu falo de capacidade de amar. Falo de capacidade de
entrega. E se eu falo dessas capacidades, falo também de capacidade de sofrer,
de ter medo. Só sofre por amor quem ama. Óbvio? Não.
E eu escrevo o óbvio porque o lógico saiu de órbita e deve
estar no espaço. No mundo passou a vigorar apenas um tipo de obviedade: a da
relação entre custos e benefícios e o possível lucro gerado a partir daí. Falar
de vínculo e falar de amor, e ainda lembrar de que nos momentos cruciais não
importa o sofá, a renda, a seda, as especiarias.
Mas o lugar de vínculo no mundo da certeza parece reduzido a
um lugar de regra de três.
Não, eu não quero um piano de cauda na entrada de um
hospital quando chegar a minha hora ou a hora de quem amo. Eu quero receber
acolhimento, sorrisos verdadeiros de funcionários e equipes bem capacitadas a
receber seres humanos em dor. Quero gente humana, muito humana, capaz de se
reconhecer também na dor daqueles tão diferentes delas mesmas até, pode ser,
mas que se identifiquem nessa igualdade imperativa que nos torna ligados e
vinculados não importa nenhum sistema de classificação. Eu quero gente que
possa se sentir livre o bastante para me olhar com afeto de verdade sem o
constrangimento que pode até vir a ser um paradoxo se o ambiente for, digamos,
high professional. Como pudemos chegar ao ponto de acreditarmos em uma
abstinência afetiva como algo condicional a um bom atendimento de uma equipe
hospitalar multiprofissional?
E sim, é bem provável que o meu texto seja facilmente
questionado. Todo texto é. Afinal, um piano de cauda pode ser interpretado
justamente como um símbolo de humanização de um espaço cujo objetivo é o
restabelecimento de pessoas doentes. E que em nada, todo o luxo do local,
sabota a experiência de um atendimento humanizado e de qualidade, sendo
exatamente o oposto dessa ideia, a ideia!
Mas sabe por que não é bem assim?
Porque vivemos em um país pobre, em uma crise econômica
profunda, e um ponto de ônibus foi deslocado de seu local original para que a
frente do hospital pudesse sobressair e não ser, digamos, atrapalhada pelo ir e
vir daqueles que pegam ônibus. O argumento lógico? Para facilitar a entrada e a
saída dos pacientes. Mas por que a entrada desse hospital é feita de vidro que todomundo pode ver? Para ser vista. Por
que? Para ser admirada. Por que? Para criar desejo. Por que? E em quem? Quando
os tomadores de ônibus são deslocados de seu lugar, fica bem claro que aquele
hospital não se destina a esse público usuário de ônibus. Como dizer que
obviamente NÃO sem deixar de ser arrogante ou insensível? Importa falar o óbvio
pois importa lembrar que todo lugar de luxo é um lugar de exclusão e se um
hospital muda o ponto de ônibus ele reafirma seu papel de exclusividade a um público
exclusivo. Onde habita o sentimento de exclusividade durante a experiência da
dor? Restaria a alguns doentes ser exclusivo como ironia final (ou fatal) de
uma vida?
Um hospital não deveria ser um local de ostentação ou de tentativa de
ocultar seu verdadeiro objetivo e o que ali verdadeiramente existe, pessoas
doentes. Quando o local de tratamento de pessoas doentes exibe um símbolo de estatus
social em sua entrada, a mensagem é clara: nossos valores são exibicionistas e
nossa política é de sedução.
Assim caminha a medicina privada no Brasil, invertendo o
papel da medicina e subvertendo as necessidades de cuidado.
Transformando em privada os valores e aspirações com os
quais a medicina se construiu e onde ela de fato, é mais importante, como
instrumento de auxílio e cuidado à vida e à alma dos pacientes que dela
precisam.
Não em uma fábrica de
desejos que utiliza como meio a oficialização da banalidade.
O luxo é banal. A vida jamais.
E se o lugar de dor e sofrimento acolhe as esperanças usando
como preceito simbólico capitalizado como um piano de cauda humanizador, é
porque o uso da banalidade já está aprofundado no seio social e ninguém viu. Ou
fingiu que não.