sábado, 5 de novembro de 2016

Um piano na entrada



Em uma terra onde o sublime ganha contorno de infeliz e o óbvio mascara-se na dúvida entre o bom gosto e o duvidoso, sabem-se lá quais razões a postos homens acreditam em um piano de cauda mais do que neles próprios ou nas palavras que deles mesmos poderiam sair.
Curioso demais é esse mundo onde habitamos, lugar onde também não sabemos porque estamos, nem para onde vamos depois daqui.
Logo, quando qualquer um de nós ou um daqueles que consideramos amar, adentram um hospital...não por terem quebrado um braço ou qualquer outra situação de aparente singeleza, mas por alguma doença ameaçadora ou algo que o pareça, o que olhamos? O que queremos nessa hora? O que passa a fazer parte de nós de um jeito completamente diferente de alguns dias ou algumas horas até, atrás, quando tudo parecia caminhar na sua aparente tranquilidade cotidiana e em nosso semblante diário de felicidade nossa de cada dia? Sim, existe um momento, e esse momento chega pra todomundo algum dia, em que o chão parece abrir-se e a gente sabe que não seremos os mesmos a partir dali. Nunca mais seremos. É a hora em que  parte do mundo muda e uma ruptura com o que se acreditava antes acontece; quando nos encontramos diante de alguma ameaça real diante de uma situação de doença. Quando essa hora chega, mais uma vez, o que queremos?
Para a possibilidade da perda do que mais amamos, não há superficialidade ou aparência que o convença, não há caixão que valha a pena comprar, não há lençol de cetim que amenize, não há cadeira de design que traga qualquer alívio. Em momentos cruciais, só há uma coisa, uma coisinha só que parece funcionar. Por funcionar entenda-se trazer esperança: a palavra e o olhar humano. Claro que a segurança de se saber estar entre um corpo técnico de qualidade é fundamental, mas é impressionante como até essa característica essencial parece desaparecer frente ao imperativo do estabelecimento de vínculos humanos. Em momentos de dor, apenas o vínculo verdadeiro tem o poder. Sim, a palavra é poder, porque pode amenizar o sofrimento. Na iminência da ameaça da perda, apenas a ideia de preservação das relações humanas faz sentido.
Mas de que vale tudo isso? Do que eu estou falando?
Eu falo de capacidade de amar. Falo de capacidade de entrega. E se eu falo dessas capacidades, falo também de capacidade de sofrer, de ter medo. Só sofre por amor quem ama. Óbvio? Não.
E eu escrevo o óbvio porque o lógico saiu de órbita e deve estar no espaço. No mundo passou a vigorar apenas um tipo de obviedade: a da relação entre custos e benefícios e o possível lucro gerado a partir daí. Falar de vínculo e falar de amor, e ainda lembrar de que nos momentos cruciais não importa o sofá, a renda, a seda, as especiarias.
Mas o lugar de vínculo no mundo da certeza parece reduzido a um lugar de regra de três.
Não, eu não quero um piano de cauda na entrada de um hospital quando chegar a minha hora ou a hora de quem amo. Eu quero receber acolhimento, sorrisos verdadeiros de funcionários e equipes bem capacitadas a receber seres humanos em dor. Quero gente humana, muito humana, capaz de se reconhecer também na dor daqueles tão diferentes delas mesmas até, pode ser, mas que se identifiquem nessa igualdade imperativa que nos torna ligados e vinculados não importa nenhum sistema de classificação. Eu quero gente que possa se sentir livre o bastante para me olhar com afeto de verdade sem o constrangimento que pode até vir a ser um paradoxo se o ambiente for, digamos, high professional. Como pudemos chegar ao ponto de acreditarmos em uma abstinência afetiva como algo condicional a um bom atendimento de uma equipe hospitalar multiprofissional?
E sim, é bem provável que o meu texto seja facilmente questionado. Todo texto é. Afinal, um piano de cauda pode ser interpretado justamente como um símbolo de humanização de um espaço cujo objetivo é o restabelecimento de pessoas doentes. E que em nada, todo o luxo do local, sabota a experiência de um atendimento humanizado e de qualidade, sendo exatamente o oposto dessa ideia, a ideia!
Mas sabe por que não é bem assim?
Porque vivemos em um país pobre, em uma crise econômica profunda, e um ponto de ônibus foi deslocado de seu local original para que a frente do hospital pudesse sobressair e não ser, digamos, atrapalhada pelo ir e vir daqueles que pegam ônibus. O argumento lógico? Para facilitar a entrada e a saída dos pacientes. Mas por que a entrada desse hospital é feita de vidro  que todomundo pode ver? Para ser vista. Por que? Para ser admirada. Por que? Para criar desejo. Por que? E em quem? Quando os tomadores de ônibus são deslocados de seu lugar, fica bem claro que aquele hospital não se destina a esse público usuário de ônibus. Como dizer que obviamente NÃO sem deixar de ser arrogante ou insensível? Importa falar o óbvio pois importa lembrar que todo lugar de luxo é um lugar de exclusão e se um hospital muda o ponto de ônibus ele reafirma seu papel de exclusividade a um público exclusivo. Onde habita o sentimento de exclusividade durante a experiência da dor? Restaria a alguns doentes ser exclusivo como ironia final (ou fatal) de uma vida?
Um hospital não deveria ser  um local de ostentação ou de tentativa de ocultar seu verdadeiro objetivo e o que ali verdadeiramente existe, pessoas doentes. Quando o local de tratamento de pessoas doentes exibe um símbolo de estatus social em sua entrada, a mensagem é clara: nossos valores são exibicionistas e nossa política é de sedução.
Assim caminha a medicina privada no Brasil, invertendo o papel da medicina e subvertendo as necessidades de cuidado.
Transformando em privada os valores e aspirações com os quais a medicina se construiu e onde ela de fato, é mais importante, como instrumento de auxílio e cuidado à vida e à alma dos pacientes que dela precisam.
 Não em uma fábrica de desejos que utiliza como meio a oficialização da banalidade.
O luxo é banal. A vida jamais.
E se o lugar de dor e sofrimento acolhe as esperanças usando como preceito simbólico capitalizado como um piano de cauda humanizador, é porque o uso da banalidade já está aprofundado no seio social e ninguém viu. Ou fingiu que não.