Primeiro existia um país aonde os descendentes europeus escravizavam os negros e seus descendentes, africanos.
Quase quatrocentos anos depois, esses africanos e descendentes foram libertados da situação de escravidão. Abandonados à própria sorte, muitos construíram suas moradias nos morros e terrenos considerados sem donos.
Nenhuma política social especialmente voltada a essas pessoas foi feita desde então.
Somado a isso, a educação pública oferecida ao povo em geral, brancos e negros, foi quase que delegada à própria sorte, e os que puderam pagar por uma educação melhor, foram para as escolas pagas. Ou seja, descendentes de europeus em sua maioria.
Com o passar dos anos, a população saltou de cinquenta milhões, aos duzentos milhões, e esse país se tornou um dos três campeões mundiais em desigualdade social.
O povo negro, esquecido, abandonado, manteve-se em hoje as chamadas favelas, cercados pela polícias, pelas milícias e agora, pelo exército. Vivem situações de guerra em suas ruas, dentro de seu próprio país, e suas crianças e moradores sào deixados à própria sorte de suas balas perdidas. Morrem toda semana nessa guerra civil, em nome do combate ao crime e às drogas. E as pessoas que hoje procuram defendê-los, em geral as que tiveram alguma chance de estudar e de entender a relação entre pobreza e criminalidade, são acusadas de defensoras de bandidos, mesmo depois de mortas.
Existe algo aqui nesse país tão enraizado na escravidão que mal consegue ser visto de tão óbvio.
Marielle, você viverá para sempre dentro de milhares de corações.
Obrigada, linda mulher, e nos perdoe se for possível.